A cidade de Novo Hamburgo se prepara para inaugurar o Museu de Arte Carlos Alberto de Oliveira, batizado de Museu Carlão. Instalado na Casa de Cultura Dalila Clementina Sperb, no bairro Hamburgo Velho, deve abrir as portas no segundo semestre de 2026. O espaço será o primeiro museu do Estado dedicado a um artista negro e focado na arte naïf.
“Além de preservar e difundir a obra de Carlão, o museu amplia o repertório simbólico da cidade ao promover o diálogo entre sua herança histórica, tradicionalmente associada à cultura de imigração alemã, e outras matrizes culturais que constituem sua identidade contemporânea”, afirma a diretora administrativa da Secretaria de Cultura e Turismo de Novo Hamburgo, Amanda Becker.


O acervo inicial reunirá mais de 200 obras, entre pinturas em tela, desenhos e postais, provenientes tanto do poder público quanto da família do artista, parceira fundamental na construção do projeto. Como parte de sua missão, o museu também se dedicará à pesquisa, catalogação e sistematização da obra completa de Carlão, cuja produção ainda não foi integralmente mapeada.
O espaço contará com exposição permanente dedicada à trajetória do artista e mostras temporárias com diferentes recortes do acervo. Em etapas futuras, o museu deve incorporar ambientes interativos e tecnológicos. As ações educativas em homenagem a Carlão, anteriormente realizadas pela Secretaria de Educação do município, também passarão a integrar a programação do espaço.
Segundo Becker: “A criação do museu se justifica pela relevância de Carlão no cenário das artes plásticas brasileiras. Sua produção artística possui reconhecido valor cultural e patrimonial, o que fundamenta a iniciativa de preservação, valorização e difusão de sua obra por meio de um espaço dedicado a ele”.
O Museu Carlão integrará um polo cultural composto por quatro equipamentos museológicos em um mesmo perímetro no bairro Hamburgo Velho. A entrada será gratuita, com horário ampliado aos sábados e possibilidade de agendamento para grupos. Os valores totais investidos no projeto não foram informados pela prefeitura; a gestão municipal afirma que os números serão divulgados ao término da implementação.

Quem foi Carlão
Carlos Alberto de Oliveira nasceu em Novo Hamburgo, em 1951, e dedicou sua vida à produção artística e ao fortalecimento da cultura local. Faleceu em 2013, aos 62 anos, deixando um legado estimado em mais de 3 mil obras. Sua primeira exposição data de 1964 e, ao longo das décadas seguintes, tornou-se um dos nomes mais relevantes da arte naïf no Brasil.
Em 1977, Carlão foi um dos idealizadores do Movimento Casa Velha, iniciativa que incentiva artistas a permanecerem em sua cidade de origem e oferece cursos de dança, pintura, teatro e outras expressões artísticas.
Além disso, em 1983, expôs 25 obras sobre discriminação racial no Museu de Arte do Rio Grande do Sul – Margs. Servidor público, Carlão atuou na Secretaria de Educação e no Ateliê Livre de Novo Hamburgo até sua aposentadoria, entrelaçando arte, educação e engajamento social ao longo de toda a sua trajetória.
Em junho de 2014, a Escola Municipal de Arte Carlos Alberto de Oliveira – Carlão foi instituída, a partir da formalização do Ateliê Livre como escola municipal de arte. A iniciativa homenageia o artista e atua na formação cultural com foco em expressão artística e cidadania.
A obra
A produção de Carlão se insere no campo da arte naïf, consolidada no fim do século XIX. Ela é caracterizada pela atuação de artistas autodidatas que não passaram por formação acadêmica formal em artes. Esses criadores desenvolvem uma linguagem própria, marcada por forte subjetividade, liberdade compositiva e uma relação direta com suas experiências de vida. Em suas obras, abordava temáticas de cunho social e retratava o cotidiano das classes periféricas e trabalhadoras.
Em uma cidade historicamente ligada à indústria calçadista, suas pinturas retratavam o dia a dia dos trabalhadores hamburguenses com obras como: Embarque no ônibus, A espera do Trem, O calçado e a cidade de Novo Hamburgo e A praia. Como artista negro, a presença de elementos da cultura afro-brasileira também é recorrente em sua produção.

