Acordo sempre após o despertador. Parece que sempre estou devendo sono para o meu próprio corpo. Lista mental: prefeitura, pauta do dia, edição do canal, aula da faculdade, mercado, roupa pra lavar. Respiro fundo e me levanto. Tem dias que viver parece uma maratona que não lembro de ter me inscrito, mas sigo correndo mesmo assim.
Tenho 21 anos e, às vezes, sinto como se já tivesse vivido umas três vidas diferentes. Durante a manhã sou parte da engrenagem da prefeitura, resolvendo demandas, lidando com diferentes pessoas, prazos e urgências que nunca acabam. A tarde ou à noite, dependendo do dia, viro repórter, e ali, no meio do futebol, das análises, das gravações, encontro uma versão minha que pulsa diferente, que fala com brilho nos olhos. E no meio disso tudo, ainda sou estudante, tentando absorver o que os professores ensinam, entregar trabalhos e não deixar o cansaço vencer.
E ainda tem a casa. A minha casa. Silenciosa. Só minha. Às vezes esse silêncio acolhe, às vezes pesa. Não tem ninguém pra dividir as tarefas, nem o cansaço. Quando eu paro, o que é raro, é ali que eu me encontro comigo mesma.
O problema é justamente esse: parar.
Porque quando eu paro, a culpa chega.
Ela não bate na porta, ela entra direto. Senta do meu lado e começa a sussurrar: “tu não devia estar fazendo algo útil?” Eu tento ignorar, mas ela insiste. Se estou deitada, penso no que poderia estar adiantando. Se estou assistindo algo, lembro de um trabalho pendente. Se simplesmente não estou fazendo nada… parece errado.
Como se descansar fosse falhar.
É estranho sentir culpa por existir sem produzir. Como se o meu valor estivesse sempre atrelado ao quanto eu consigo fazer, entregar, resolver. Como se eu precisasse provar, o tempo todo, que dou conta. E eu dou. Dou conta de tudo. Mas a que custo?
Tem dias em que eu queria só… não dar conta.
Ficar deitada sem justificativa. Não responder mensagem. Não pensar no próximo passo. Não sentir que estou sempre atrasada para alguma coisa. Mas aí vem a culpa de novo, me lembrando que tem gente que depende, que tem prazo, que tem expectativa.
E eu continuo.
No meio dessa rotina apertada, eu sigo tentando encontrar pequenos respiros. Um café mais demorado. Uma risada durante uma gravação. Um momento de silêncio que não doa tanto. Porque, no fundo, eu sei: não sou só aquilo que eu produzo.
Mas ainda estou aprendendo a acreditar nisso.
Talvez um dia eu consiga parar sem me sentir em dívida com o mundo. Talvez eu entenda que descansar também é necessário, que não é fraqueza, que não diminui tudo que eu faço.
Por enquanto, eu sigo. Cansada, orgulhosa, sobrecarregada, apaixonada pelo que faço, tudo isso ao mesmo tempo.
E, de vez em quando, tentando me convencer de que eu também mereço uma pausa.
