O endividamento das famílias brasileiras nunca esteve tão alto. Em julho, 86,4% dos lares do país tinham algum tipo de dívida, seja no cartão de crédito, no cheque especial, em financiamentos de carro ou casa, ou em carnês. É o maior índice registrado pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) desde o início da série histórica, em janeiro de 2016.
O levantamento, realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), ouve aproximadamente 18 mil consumidores em todas as capitais dos estados e no Distrito Federal. O levantamento traça um perfil completo do endividamento brasileiro, investigando os tipos de dívida, o tempo de comprometimento da renda, o nível de endividamento e a capacidade de pagamento.
No Rio Grande do Sul, o quadro também é de alerta, mas com contornos próprios. O percentual de famílias endividadas no estado é de 82,9%, ligeiramente abaixo da média nacional. No entanto, o que mais chama atenção é a velocidade com que esse número cresceu. Em julho de 2025, 78,5% das famílias gaúchas estavam endividadas. Um ano depois, o índice saltou para 82,9%, um aumento de 4,4 pontos percentuais em apenas 12 meses. No Brasil, no mesmo período, o crescimento foi de apenas 1,1 ponto percentual. Ou seja, o endividamento cresceu quatro vezes mais rápido entre os gaúchos do que no resto do país.

Dois lados da moeda
Para o economista e cientista político Alison Centeno, o aumento do endividamento não é necessariamente uma má notícia, mas exige cautela.
“Existem dois lados nisso. Um lado bom, que significa que a economia está fluindo, a economia está crescendo, as pessoas estão tomando crédito para comprar a casa própria, para mobiliar a casa. Enfim, a roda da economia está girando”, explica Centeno.
Ele atribui o crescimento do endividamento, em parte, à melhora do mercado de trabalho. “As pessoas passaram a dispor de maior nível de renda, o nível médio salarial brasileiro cresceu, também no Rio Grande do Sul. Consequentemente, mais pessoas estão consumindo e comprando coisas a longo prazo”, afirma.
Mas há um lado preocupante. Centeno chama atenção para o impacto da taxa básica de juros, a Selic, que saiu de 2% durante a pandemia para 15% no período pós-pandemia. “Isso fez com que o crédito ficasse caro. Então, as pessoas estão mais endividadas”, pontua.
Endividamento x inadimplência: qual o verdadeiro alerta?
O economista faz questão de diferenciar dois conceitos que costumam ser confundidos: endividamento e inadimplência.
“Endividamento é o fato de que pessoas ou famílias estão com uma dívida ativa, que pode ser, por exemplo, o parcelamento de uma compra, de um sofá, de qualquer móvel para casa, de um aparelho eletrônico”, explica. “É justificável que quase 80% das famílias brasileiras estejam endividadas.”
Já a inadimplência, segundo Centeno, é outro problema. “É a incapacidade das pessoas honrarem com o pagamento, ou seja, a dívida está em atraso.”
No Brasil, 29,9% das famílias estavam com contas em atraso em julho. No Rio Grande do Sul, o índice foi de 29,5%, praticamente o mesmo patamar. Para Centeno, esse é o indicador que merece mais atenção.
“Por enquanto, ele está controlado. Esse, na verdade, é o principal indicador que precisa ser monitorado. Se as pessoas estão conseguindo ou não honrar os seus pagamentos”, avalia.
Diferença entre ricos e pobres é menor no RS
Outro dado que merece destaque é a distribuição do endividamento entre as faixas de renda. No Brasil, a disparidade é enorme: 98,5% das famílias que ganham até 10 salários mínimos estão endividadas, enquanto entre as que ganham mais de 10 salários mínimos esse percentual cai para 68,9%, uma diferença de quase 30 pontos percentuais.
No Rio Grande do Sul, essa diferença é bem menor. Entre os gaúchos de menor renda, 84,1% têm dívidas. Já entre os mais ricos, o índice é de 72,9%, uma diferença de apenas 11,2 pontos percentuais. Isso indica que, no estado, o endividamento atinge as classes sociais de forma mais equilibrada, o que, para Centeno, reflete o maior acesso ao crédito entre todas as faixas de renda.

O que esperar daqui para frente?
Apesar do crescimento acelerado do endividamento no Rio Grande do Sul, a inadimplência ainda está controlada. Mas o economista alerta que o cenário exige monitoramento constante.
“Com esse nível de taxa de juros, existe uma maior propensão à inadimplência. Por enquanto, ela está controlada”, afirma. “Acredito que é preciso ponderar esses dois lados. Somente existe o sinal de que as famílias estão consumindo mais e que o preço do crédito estando caro faz com que as pessoas estejam mais endividadas do que anteriormente.”
Para os gaúchos, o cenário é de atenção. O endividamento cresce em ritmo acelerado, e embora a inadimplência ainda esteja controlada, o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas pode frear o consumo nos próximos meses, o que, em um estado que depende fortemente do varejo e dos serviços, exige acompanhamento cuidadoso.
