A cantora gaúcha Arra, de 37 anos, prepara para junho de 2026 o lançamento de Equus Ferus, um EP de quatro faixas que une música, memória e identidade em uma travessia sonora entre Brasil, Uruguai e ancestralidade. O disco estará disponível em todas as plataformas de áudio, formato impresso com as letras e fotos, e terá um documentário destrinchando a obra no YouTube.
Morando no Uruguai há 11 anos, a artista apresenta no novo trabalho um mergulho pessoal e artístico em suas origens ligadas ao povo charrua (comunidade indígena que historicamente habitou territórios que hoje correspondem ao Uruguai, à Argentina e ao Rio Grande do Sul) e ao povo afro-latino.
Mais do que um projeto musical, o disco nasce como um gesto de reconexão. Nos últimos anos, Arra intensificou a busca por sua ascendência indígena e transformou esse processo em matéria criativa. O resultado é uma obra que atravessa idiomas, espiritualidades e diferentes matrizes culturais, propondo uma reflexão sobre pertencimento e fronteiras.
Formada em Jornalismo pela Unisinos, Arra iniciou oficialmente sua trajetória como cantora em 2021. Ainda assim, a arte sempre esteve presente em sua vida. Filha de poeta, cresceu em um ambiente marcado pela palavra e pela criação. Começou a dançar em 1995, além de já ter ficado em quarto lugar em um campeonato internacional de poesia.


O EP terá produção dividida entre dois países, metade das gravações foi realizada no Brasil, enquanto a outra metade será concluída no Uruguai. A escolha acompanha o conceito central do trabalho. Ao construir o álbum entre diferentes territórios, Arra reforça a ideia de uma “ruptura de fronteiras”, compreendendo os limites nacionais como construções posteriores a histórias e culturas muito mais antigas.
Essa proposta também aparece na estrutura das faixas. Cada canção ocupa um lugar específico dentro da narrativa pensada para Equus Ferus, como se o EP funcionasse em etapas de uma jornada simbólica.
A primeira música é cantada em uma língua inventada, livremente criada pela artista. A intenção é buscar a ideia da “língua antes da palavra”, evocando uma forma poética de comunicação humana anterior às línguas organizadas. Em vez de significado literal, a faixa aposta na sonoridade e na emoção ao invés da linguagem estruturada já conhecida.
Na segunda faixa, Arra se aproxima da língua associada ao povo charrua. A canção representa a passagem entre esse universo primordial da língua antes da palavra e a linguagem de seus ascendentes, conectando a abstração inicial à memória concreta de um povo historicamente silenciado. Sendo uma das poucas pessoas no mundo que falam a língua charrua, a artista mantém vivas as raízes da comunidade.
O terceiro momento do EP amplia ainda mais esse diálogo cultural. Cantada em português e espanhol, a música presta saudação à orixá Oxum, divindade ligada às águas doces, ao amor, à fertilidade e à beleza nas religiões de matriz africana. A presença de Oxum no repertório aproxima diferentes ancestralidades latino-americanas e afro-diaspóricas em uma mesma obra.
Encerrando o trabalho, a quarta faixa retorna ao português em forma de poema musicado. Gravada com a colaboração de um percussionista afro-brasileiro, Gilnei Rodrigues, a canção finaliza o disco como homenagem às origens ancestrais da artista e às múltiplas influências que constituem sua identidade.

Além disso, Arra aposta em instrumentos como o Bombo Legüero (instrumento originário da Argentina. Seu nome, “legüero”, vem do fato de que este instrumento pode ser ouvido até duas léguas de distância. É produzido a partir de um tronco de árvore oco, revestido com pele curtida de animais, como cabras, vacas ou ovelhas), tambores e instrumentos corporais, prática que consiste em reproduzir sons de instrumentos com o próprio corpo.
O título Equus Ferus, que significa “cavalo selvagem e indomável” em latim, sintetiza o espírito do projeto. Para Arra, a música deixa de ser apenas expressão individual para se tornar ponte entre tempos, territórios e heranças culturais. Ao lançar um EP em várias línguas, gravado entre países e guiado pela memória de seus antepassados, a cantora propõe uma obra que olha para o passado sem perder de vista o presente e transforma arte em território de encontro.
“ACÁN OPÁ
Abá capá lantek (em meio a tantas palavras)
M’catá ugé vedé (eu agarro/ sustento o corpo através do abraço)
Terrí ug anec belíc (espinho de costurar feridas),
Itaí nyotí napec, a’atí kompú ancat (para libertar la culpa e mudar a alma).
Nem nderé (Sonhar)
Besuj ngoté (Pedir força)
A’atí caleí nelóp (e recibir amor).
Acán opá ugé vedé
(Retirar tudo do corpo)
Acán opá ugé vedé
(Retirar tudo do corpo).
Geppian ugá uví (sembrar nuestra raíz)
Itaí oté oblí nderé (para fazer um bom caminho).”
– Poema cortesia de Arra, gravado no SOMA estúdio, em Porto Alegre.

