O segundo dia da Semana Acadêmica do curso de Jornalismo, que ocorreu na noite de segunda-feira, 24 de agosto, foi protagonizado pela jornalista esportiva Kelly Costa com a palestra “Do Sul ao Rio, da RBS TV à GLOBO”. Durante a conversa com os alunos, Kelly compartilhou sua trajetória profissional desde o momento em que saiu do Ensino Médio até sua atual posição como apresentadora do SporTV. A palestra ocorreu de forma remota, via Teams. Mapeamos as melhores dicas deixadas pela apresentadora aos estudantes de jornalismo.
1. Não precisa ter certeza da carreira ao entrar na faculdade
Kelly conta que não sabia que seria jornalista — quase fez vestibular para Engenharia Mecatrônica, mas uma professora do Ensino Médio que a fez repensar. Dentro do próprio curso de jornalismo, também não sabia se iria para a TV: gostava de rádio e só descobriu gosto televisivo ao testar a cadeira de TV na faculdade. “A gente não precisa saber desde o começo que a gente quer, está tudo bem, é entrar na faculdade e não necessariamente ter clareza. A gente tem que estar aberto, sabe? Para tentar entender o que é que a gente pode desenvolver”, disse a jornalista.
2. Comece a trabalhar o quanto antes — faça estágios, se possível, e não tenha vergonha de bater na porta
“A gente tem que botar a cara pro jogo, bater na porta das oportunidades. Nem sempre a porta vai se abrir se a gente ficar sentadinho esperando. Tem que ser um pouco cara de pau, sem ser prepotente. É se oferecer para aprender”, disse Kelly. Ela contou que se candidatou a uma vaga de estágio de rádio escuta na prefeitura de Porto Alegre antes mesmo de começar as aulas na PUC-RS, e que foi “batendo na porta” em cada etapa seguinte. A jornalista defendeu ativamente buscar oportunidade em vez de esperar. “Se eu pudesse dar uma dica para vocês, seria: façam o estágio. Se puderem fazer estágio voluntário, façam. Se puderem fazer o estágio remunerado, façam”, destacou.
3. Trabalhe tecnicamente sua voz/desenvoltura de câmera — e escreva com clareza
Em resposta sobre desenvoltura na câmera, ela contou um episódio específico: logo que entrou na RBS TV, gravou uma reportagem inteira para o Esporte Espetacular e a emissora derrubou seu “off” por considerá-lo fraco — quem regravou foi Fernanda Gentil. Foi esse episódio que a fez procurar acompanhamento com fonoaudióloga. Kelly acredita que qualquer ponto fraco (voz, timidez, câmera) se trabalha com treino repetido — cita até treinar na frente do espelho ou fazer aula de teatro para quem é muito tímido. Estende o conselho para texto que, em qualquer mídia, é um pilar fundamental para ajudar na fluidez da notícia. “É muito importante ter um bom texto para qualquer mídia, rádio, jornal, TV, online, internet: um texto claro, preciso, que vai direto ao ponto”, destacou.
4. Ao mudar de cobertura local para nacional, dobre o estudo
“A gente realmente nunca está pronto, então estuda, estuda o dobro do que teus colegas, porque tu vai precisar”, disse. Em 2025, a apresentadora topou um novo desafio, saindo de uma cobertura de escopo fechado (dupla Grenal, esporte gaúcho e na RBS TV) para uma pauta nacional no SporTV (20 clubes da Série A, futebol feminino e outras modalidades) sem ter um roteiro fixo pronto — ela mesma tem que gerar repertório e conduzir o debate.
5. Cuidado com a IA para se manter informado — ela não substitui a apuração; leia muito e saiba distinguir opinião de apuração
Resposta direta sobre como se manter atualizado sem se afogar em informação: Kelly rejeita pedir resumo de notícias para ChatGPT/Gemini/Perplexity porque “não vai vir esse resumo, e se vier, pode vir com muitos erros”. Ela defende a leitura extensiva, notificações de sites de confiança, e, sobretudo, separar quem faz jornalismo com apuração de quem só opina nas redes. “A gente tem que entender o quanto do trabalho dessas pessoas tem de opinião e o quanto tem de apuração”.
6. Desconfiar um pouco de si mesmo é saudável — mas busque referências que ajudem no seu desenvolvimento
Em resposta sobre confiança/insegurança, ela inverte a expectativa: diz que desconfiaria de si mesma se fosse confiante demais, e que a insegurança é o que a mantém alerta para continuar aprendendo. “Temos que tentar repetir pra nós mesmos que se a gente não tentar, não tem como descobrir se a gente é capaz”, disse. A solução que ela dá para não “travar” é buscar referências de outros profissionais para se inspirar — não copiar — e repetir/praticar. “Procurar referências e pessoas que nos inspiram para nos ajudar também no nosso desenvolvimento. E, de novo, praticar”, afirmou.
7. Faça terapia e proteja seu dia de folga, mesmo trabalhando com notícia o tempo todo
Durante a palestra, Kelly recebeu uma pergunta sobre saúde mental e a “tirania do tempo” na profissão. A jornalista deu uma resposta direta: “Número 1, tem que fazer terapia”. Ela reconhece que nem todo mundo tem acesso, mas fala do valor de ter alguém para “botar pra fora”. Conta que, ao chegar na Globo, não conseguia descansar de fato no dia de folga (ficava vendo todos os jogos mesmo fora do horário de trabalho) até a terapeuta apontar isso; hoje resolve organizando melhor os momentos de folga e os momentos dedicados ao estudo e à busca por informações.
8. Furo nenhum justifica soltar informação sem checagem completa
Quando questionada sobre como não perder o timing nas redes sem perder o compromisso com a informação, Kelly deu uma resposta sem meio-termo: não solta nada sem 100% de certeza, mesmo sob risco de perder o furo para um colega. Alerta específico para fontes com interesse único e para o risco de “dar uma barrigada” (informação falsa) que destrói credibilidade construída ao longo de anos. “Nem que eu esteja com a notícia mais bombástica, impactante e exclusiva: furo nenhum justifica a pressa. Não solte antes de ter uma apuração completamente checada e rechecada”, completou.
9. Separe crítica técnica de ataque ofensivo nas redes — ouça uma, feche a porta para outra
Sobre lidar com opinião pública e críticas — inclui uma reflexão sobre etarismo e machismo contra mulheres no esporte (cita ataques que a narradora Renata Silveira recebe). O critério prático que ela dá: se a crítica é técnica (algo que a própria empresa/chefia também apontaria), vale ouvir e rever. Se é ofensiva, misógina ou etarista, não merece espaço.
10. Peça o espaço que você quer — mesmo fora da função que ocupa hoje
Ao falar do avanço de mulheres no esporte da Globo/RBS TV, conta o caso da colega Heloísa Bordin: era editora de texto e pediu para comentar futebol feminino, apesar de não ser essa sua função — conseguiu um quadro, depois virou comentarista fixa. Kelly aponta esse como um caminho possível para quem quer mudar de área dentro da própria empresa. É a mesma lógica de “peça, bata na porta”, aplicada aqui à mudança de função dentro da empresa, não à entrada no mercado.
11. Bônus: responsabilidade como imprensa — cobrir rivalidade não é só registrar, é escolher o que ela alimenta
Ao ser perguntada sobre “jornalista sendo visto como torcedor” e sobre a crítica do técnico Abel Ferreira à imprensa gaúcha, Kelly concorda que o RS é muito polarizado e propõe que a imprensa “faça a meia culpa”: “O quanto a gente potencializa a polarização, o quanto a gente aprofunda essa rivalidade”.
Usa como prova concreta a torcida mista que existiu no RS por volta de 2020 — “um case de muito sucesso”, com famílias e crianças — mas que não resistiu à violência, “que a gente sabe que parte às vezes do torcedor, mas o quantas vezes isso não é inflamado pela imprensa”. Kelly ainda propõe um contraste com a torcida mista que, ainda hoje, existe no Maracanã entre Fluminense e Flamengo.
O ponto mais afiado vem com um exemplo recente e concreto: no clássico Bahia x Vitória, um jogador do Bahia (Jean Lucas) fez gol e mostrou a camisa pra torcida do Vitória; jogadores do Vitória tentaram rasgar a camisa dele na sequência. Ela usa isso para formular a escolha editorial nua e crua: “A gente decide mostrar, mas a gente só registra ou a gente escolhe dizer que não é legal um jogador tentar rasgar a camisa do rival dentro de campo?” — reconhecendo que não tem certeza se isso reduz a polarização, mas acredita que pode fazer o torcedor refletir. “São escolhas que podem mostrar um pouco do nosso posicionamento”, conclui a jornalista.
Mais do que dicas, um retrato da profissão
A soma das dicas e os bastidores da trajetória profissional da Kelly Costa mostra que Jornalismo é uma profissão que cobra competência técnica, estabilidade emocional e princípio ético ao mesmo tempo — não apenas competência para a câmera, mas para todo o percurso profissional. Juntos, esses conselhos dizem menos sobre como entrar no jornalismo e mais sobre como se manter nele: exige o comprometimento de estar sempre informado, mas também exige tempo de qualidade na vida pessoal; pede agilidade, mas também a paciência pra checar uma fonte duas vezes; cobra presença de câmera, mas também a consciência de que cada escolha editorial pode influenciar o público que a consome — para o bem, ou não.
