A jornalista esportiva Kelly Costa foi a convidada do segundo evento da Semana Acadêmica de Jornalismo, realizado de forma virtual nesta segunda-feira, dia 24 de agosto. Durante a conversa, a apresentadora compartilhou experiências de mais de uma década no jornalismo esportivo e falou sobre a trajetória até chegar ao Sportv, além dos desafios enfrentados ao longo da carreira. Confira, abaixo, os principais trechos do bate-papo.
Uma jornada de desafios e mudanças
No encontro com os estudantes da Unisinos, Kelly relembrou o início da trajetória profissional e contou que nem sempre teve certeza sobre qual caminho seguir. Quando estava no Ensino Médio, ainda cogitava a graduação em Engenharia Mecatrônica. Depois de decidir seguir no jornalismo e passar pela Pampa, ingressou no esporte da RBS TV. Na empresa, atuou em diferentes projetos e programas, entre eles o Globo Esporte, o Bom Dia Rio Grande e o Segue o Fio, programa de debates transmitido pelo YouTube de GZH. Para ela, experiências diferentes foram fundamentais para ampliar a capacidade de improvisação e desenvolver novas habilidades diante das câmeras.
A mudança para o Rio de Janeiro surgiu quando um chefe de elenco da Globo entrou em contato para apresentar uma oportunidade no Sportv. A decisão, entretanto, também envolveu inseguranças. Kelly precisou deixar a rotina conhecida, a proximidade da família e os colegas para começar novamente em uma nova emissora. “Eu fiz um novo contrato com a Globo, colegas novos, programas novos e novos desafios que me fizeram questionar, mas que ao longo do tempo, executando as funções que eu executo e criando novos repertórios, me encorajou a também querer muito mais.”
Do erro ao aprendizado
A preparação, segundo Kelly, foi um dos principais elementos para enfrentar as mudanças. Ao responder sobre desenvoltura diante das câmeras, ela lembrou de uma experiência no início da carreira que considera marcante: uma reportagem produzida para o Esporte Espetacular teve sua narração substituída porque a equipe do programa considerou que o off não estava adequado. A situação foi um baque profissional, mas também serviu como motivação para buscar aperfeiçoamento com uma fonoaudióloga. “Eu não descansei enquanto não melhorei isso pra colocar minha reportagem no ar”, relatou.
A partir do acompanhamento profissional e de muito treino, ela passou a trabalhar aspectos da própria voz e da apresentação. Para Kelly, a experiência reforçou uma ideia que apareceu diversas vezes durante a conversa: habilidades jornalísticas podem ser desenvolvidas com prática. “Com técnica, com treino, a gente consegue resolver alguns problemas e algumas carências”.
A importância da preparação também apareceu quando a jornalista falou sobre a rotina antes de entrar no ar. Mesmo depois de anos de experiência, ela afirma que ainda sente nervosismo. Para Kelly, porém, o frio na barriga não deve necessariamente ser encarado como um problema. “Com o passar do tempo, por mais que sempre dê um friozinho na barriga na hora de entrar no ar, eu acho que se eu não tiver esse friozinho, eu talvez não esteja mais viva. Eu acho que ele te move a tentar ser melhor.”
A jornalista também destacou a necessidade de estudar e construir repertório constantemente. Segundo ela, não existe uma maneira rápida de acompanhar tudo o que acontece. O caminho envolve leitura, acompanhamento de diferentes veículos e atenção às fontes utilizadas para produzir as informações. “A gente tem que ler, a gente tem que ler o tempo inteiro.”
Apuração e ética em tempos de inteligência artificial
Ao falar sobre inteligência artificial, Kelly alertou para os riscos de utilizá-la como única fonte de atualização jornalística. Para ela, ferramentas de IA podem apresentar informações incorretas e não substituem o processo de apuração. “A gente não vai saber tudo sobre tudo o tempo todo”, afirmou.
Nesse sentido, a jornalista defendeu que o profissional saiba diferenciar opinião de informação apurada, principalmente diante do grande volume de conteúdos disponíveis nas redes sociais. Para Kelly, a construção de fontes confiáveis é parte essencial da profissão e deve acontecer ao longo da carreira. “Eu acho que a construção de fontes é um processo, é um trabalho muito sério pro jornalista.”
A ética também apareceu na discussão sobre furos jornalísticos e velocidade nas redes sociais. Questionada sobre como conciliar rapidez e precisão, Kelly afirmou que a pressa não deve se sobrepor à apuração. “Cara, eu acho que furo nenhum justifica a pressa.”
Para ela, publicar uma informação antes de checá-la completamente pode gerar consequências maiores do que perder alguns minutos de vantagem sobre outros veículos. “Se alguma ponta da tua informação não estiver bem amarrada, eu diria não solta a informação”, aconselhou.

Presença feminina no esporte
Outro tema abordado foi a presença feminina no jornalismo esportivo. Kelly relembrou momentos em que trabalhou em equipes predominantemente masculinas e relatou situações de machismo enfrentadas durante a cobertura do futebol.
Entre elas, citou uma coletiva de imprensa em que um treinador questionou sua capacidade de compreender a resposta por ela nunca ter jogado futebol. Apesar do episódio, a jornalista afirmou que situações como essa não podem paralisar profissionais mulheres que desejam trabalhar no esporte. Para ela, a presença feminina também contribui para que novas profissionais percebam que existe espaço para elas. “Quando a gente se vê, a gente se enxerga, a gente entende que a gente também pode estar lá.”
Saúde mental e os limites necessários na rotina jornalística
Durante a conversa, Kelly também falou sobre confiança, saúde mental e a necessidade de estabelecer limites na rotina jornalística. Segundo ela, a insegurança pode fazer parte do processo, mas não deve impedir o profissional de tentar. “Se a gente não acreditar que a gente consegue, talvez a gente se trave”, explicou.
Para lidar com a pressão da profissão, que exige acompanhamento constante das notícias, Kelly destacou a importância de encontrar equilíbrio e respeitar os momentos de descanso. A jornalista contou que, ao chegar ao Sportv, tinha dificuldade para se desligar do trabalho. Com o tempo, passou a compreender a importância de estabelecer limites. “O teu horário de descanso tem que ser o horário de descanso.”
Ao final do encontro, a experiência compartilhada por Kelly mostrou aos estudantes uma perspectiva sobre os bastidores da profissão: além da desenvoltura diante das câmeras, o jornalismo exige estudo, repertório, apuração, capacidade de adaptação e disposição para aprender continuamente. Para a jornalista, a carreira é construída justamente nesse processo de enfrentar desafios e transformar dificuldades em aprendizado.
