DTF St. Louis é uma minissérie da HBO criada por Steven Conrad que mistura comédia de humor ácido, drama, relações afetivas e elementos de investigação para contar a história de três adultos de meia-idade atravessados por desejos, frustrações e inseguranças. No centro da trama estão Floyd (David Harbour), um intérprete de língua de sinais, Clark (Jason Bateman), um apresentador de televisão, e Carol (Linda Cardellini), esposa de Floyd. A partir das relações entre os três, a série constrói uma narrativa que, embora inicialmente pareça estar interessada apenas em sexo, traição e situações absurdas, gradualmente revela uma preocupação muito maior com solidão, autoestima, envelhecimento e masculinidade.
A premissa pode sugerir uma produção predominantemente sexual, mas DTF St. Louis está muito mais interessada nas pessoas por trás desses desejos. Os personagens não estão simplesmente procurando prazer: estão tentando encontrar reconhecimento, afeto, autoestima ou alguma confirmação de que ainda são desejados.
É justamente nesse ponto que a série encontra uma das discussões mais interessantes: a relação do homem com a própria autoestima e com a própria vulnerabilidade. Floyd é o principal exemplo disso. David Harbour interpreta um homem que está longe do estereótipo masculino padrão. Ele é sensível, carinhoso, inseguro e, em diversos momentos, profundamente desconfortável com a própria imagem e com a maneira como é percebido pelos outros. A série não transforma essas características simplesmente em motivo de piada. Pelo contrário: permite que o espectador compreenda que, por trás de determinadas atitudes aparentemente ridículas, existe alguém tentando lidar com a sensação de não ser suficiente.
A autoestima masculina aparece, então, como uma questão central. DTF St. E essa discussão pode ser relacionada à chamada masculinidade tóxica, não necessariamente porque a série apresente personagens como homens violentos ou agressivos, mas porque expõe um problema mais silencioso: a dificuldade masculina de admitir fragilidade.
Floyd é um personagem que sente. Ele quer ser desejado, quer ser aceito, quer ter relações mais próximas e quer encontrar algum tipo de segurança dentro de uma vida que parece não corresponder às expectativas que criou para si mesmo. O problema é que a necessidade de validação externa pode se tornar uma armadilha quando a pessoa não consegue construir uma relação minimamente saudável consigo mesma. É uma abordagem interessante porque a série não trata a vulnerabilidade masculina como algo ridículo. Pelo contrário: ela humaniza o homem que não sabe exatamente como lidar com aquilo que sente.
Essa escolha se torna ainda mais interessante quando lembramos quem é David Harbour para o grande público. O ator ficou mundialmente conhecido como Jim Hopper em Stranger Things, personagem marcado pela força física, pela postura durona e pela imagem de um homem de autoridade. Harbour também protagonizou o filme Noite Infeliz, interpretando uma versão completamente inusitada e brutal do Papai Noel. Em DTF St. Louis, entretanto, ele utiliza justamente a presença física para construir algo completamente diferente.
A atuação de Harbour é, por isso, um dos grandes destaques da série. Ele consegue fazer com que Floyd seja simultaneamente engraçado, constrangedor, carinhoso e melancólico. O personagem poderia facilmente ter sido transformado apenas em uma caricatura do homem de meia-idade inseguro, mas Harbour encontra humanidade nele. É uma mudança bastante significativa em relação a papéis pelos quais ele se tornou conhecido e que mostra o quanto o ator consegue trabalhar diferentes roteiros.
Jason Bateman também merece atenção especial. O ator construiu grande parte de sua imagem pública em torno da comédia. É impossível falar da carreira do artista sem lembrar personagens sarcásticos e aparentemente racionais que ele costuma interpretar em diferentes produções. DTF St. Louis aproveita essa característica, mas a leva para outro lugar. Clark Forrest continua tendo momentos engraçados e a série utiliza bastante o humor ácido, mas existe uma dimensão dramática muito maior no personagem. Bateman consegue trabalhar justamente nessa fronteira entre o cômico e o desconfortável.
O personagem não precisa fazer uma grande piada para provocar humor. Muitas vezes é a maneira como ele fala, reage ou tenta racionalizar determinadas situações que produz o efeito cômico. Ao mesmo tempo, existe uma camada de frustração e insatisfação que impede que Clark seja apenas um personagem engraçado. O resultado é uma atuação que aproveita aquilo que Bateman já sabe fazer muito bem, mas acrescenta uma dimensão mais dramática e incômoda.
Talvez a melhor maneira de definir DTF St. Louis seja dizer que ela é uma série sobre sexo que está muito mais interessada em falar sobre solidão. As relações amorosas, os desejos e as situações sexuais não aparecem apenas como elementos provocativos. Eles são utilizados para discutir a necessidade humana de se sentir desejado e conectado a alguém. Essa abordagem também ajuda a explicar o motivo do humor funcionar tão bem. A série consegue transformar situações potencialmente constrangedoras em momentos engraçados sem abandonar completamente a dimensão emocional dos personagens. É uma comédia ácida, mas não é uma comédia vazia.
Por trás das situações absurdas existe uma discussão sobre pessoas que chegaram à meia-idade e percebem que a vida talvez não tenha seguido exatamente o caminho que imaginaram. Existe uma discussão sobre casamento, desejo, amizade, dinheiro, aparência, envelhecimento e, principalmente, sobre a necessidade de encontrar algum significado em uma rotina que pode ter se tornado previsível. Nesse sentido, DTF St. Louis também consegue fazer algo interessante com a amizade masculina. A relação entre Floyd e Clark permite observar homens que possuem dificuldade para verbalizar sentimentos, mas que, ainda assim, procuram companhia, reconhecimento e conexão.
A série não apresenta respostas fáceis para essas questões. E talvez seja justamente essa uma de suas maiores qualidades. DTF St. Louis não tenta dizer que homens precisam simplesmente ser mais sensíveis. A discussão é mais complexa: o que acontece quando um homem passa a vida inteira acreditando que precisa ser forte, desejável, bem-sucedido e seguro, mas por dentro está cheio de dúvidas? É nessa contradição que a série encontra força.
