É coisa de rotina no início de ano de um cinéfilo: acessar os principais sites de entretenimento e ver quais são os lançamentos que teremos ao seu decorrer. Desse modo, ficamos sabendo quais grandes diretores retornarão ao circuito, quais franquias que amamos terão novos capítulos e até as possíveis surpresas do ano. Entretanto, esse costume torna-se cada vez mais desestimulante. Ao começar a analisar o calendário de 2026, surge uma sensação incômoda para uma arte como o cinema: uma aparente falta de criatividade.
Assim como todos os últimos anos, as salas de cinema estarão lotadas, principalmente, por produções que apostam menos na imaginação que a sétima arte deveria trazer. Estamos repletos de sequências de filmes sem necessidade de continuação, live actions de animações clássicas sem propósitos, universos compartilhados expandindo-se com repetições de fórmulas prontas. Óbvio, esse questionamento não dita a qualidade de qualquer produção. Todas elas tem chance de serem boas obras até que se prove o contrário, quando forem lançadas ao redor do mundo.
Ainda assim, levanta-se uma pergunta: o cinema contemporâneo (sobretudo norte-americano) não consegue mais produzir obras originais?
Certamente, ainda existem filmmakers que esbanjam originalidade. Todavia, estes acabam sempre reclusos a filmes independentes ou de menor expressão mercadológica e caem na alcunha de “cult”. O cinema blockbuster, aquele que enche salas de cinema, sempre teve um viés voltado ao lucro e a parte industrial do mundo cinematográfico. Porém, isso jamais foi empecilho para obras extremamente importantes e criativas serem produzidas. “Star Wars” e “Os caçadores da arca perdida” são bons exemplos porque, além de serem alguns dos primeiros blockbusters do cinema americano, ambas as franquias foram “vítimas” da tendência em recontar grandes histórias em busca do retorno financeiro.

Com a inflação no custo de produções cinematográficas, em que centenas de milhões de dólares são investidos, a aposta em propriedades já estabelecidas dentro do mercado são opções mais seguras do que arriscar em coisas inéditas. Igualmente, o público não parece mais disposto a explorar novas histórias, sendo que muitos ótimos filmes que lançam todo ano tornam-se fracassos de bilheteria. É a lógica da oferta e demanda. O público consome mais obras com personagens estabelecidos, universos familiares e franquias consolidadas; logo a indústria sente-se mais confortável nesse cinema comercial de revisitação do passado do que o cinema comercial de inovação.
Mas há uma luz no fim do túnel!
Alguns espaços ainda permitem uma maior liberdade criativa. Dentro destes, antes subestimado e tratado como “menos cinema”, o terror mostra-se como um dos gêneros mais ousados, criativos e inquietantes dentro da sétima arte.
Contemporaneamente, essa onda de filmes de terror mais dispostos a serem “diferentes” surgiu com “Corra!”, onde além das características tradicionais do gênero, incorpora comentários sociais que raramente eram vistos antes. O filme dirigido por Jordan Peele foi um respiro dentro das narrativas enlatadas que o terror vinha trazendo. O thriller psicológico proposto no longa vai além de uma tensão que começa e termina nas telas. Ele demonstra uma habilidade fundamental do cinema de ressoar essa tensão para a realidade, neste caso, discutindo a estruturação do racismo dentro dos Estados Unidos. A empreitada de Peele, antes um comediante, garantiu a ele prestígio dentro da indústria, com direito a ser o primeiro negro a vencer o Oscar como roteirista original.

Para além de prêmios, o filme de 2017 reacendeu o espírito clássico do terror de tratar de temas sociais. Não se deixe enganar, “Corra!” não começou nada. Apenas trouxe de volta.
Clássicos do cinema de terror já tinham em seus enredos a perspicácia de abordar no subtexto temáticas ousadas para a época. Considerado o precursor do cinema de zumbis, “A Noite dos mortos vivos” de George Romero já evidencia a violência racial dentro da sociedade americana nos anos 60; Roman Polanski, apesar de fazer justamente o que seus filmes criticam, usou do terror para debater a repressão sexual, controle sobre o corpo feminino e a manipulação social das mulheres no seus grandes projetos “Repulsa ao Sexo” e “O bebê de Rosemary”.
O gênero slasher, com suas tramas movidas por um assassino caçando suas vítimas, trouxe nos anos 90 “O Mistério de Candyman” onde o vilão da vez nasce de uma história de racismo e da violência histórica dos Estados Unidos, abordando além destes temas, a desigualdade social. “Invasores de Corpos” de 1978, discorre sobre a paranoia americana com o comunismo no período da Guerra Fria. Antes mesmos de todos estes, figuras clássicas como Frankenstein e Godzilla também tem camadas de comentários sociais na caracterização de suas figuras icônicas. O primeiro, discute sobre a ambição humana de tentar dominar a vida e os limites da ciência. O segundo é uma representação enfática sobre o trauma japonês após as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial.

Infelizmente, durante um período, o terror também seguia a lógica atual. Figuras icônicas como Jason Voorhees, Freddy Krueger, Michael Myers dentre outros retornaram em continuações cada vez piores, feitas apenas para arrecadar trocados das bilheterias já não tão expressivas de suas franquias. Nos anos 2000, a falta de originalidade terminou por afundar a imagem do gênero como segunda divisão. Produções marcantes da época como Jogos Mortais, Olhos Famintos ou Atividade Paranormal, trouxeram um ar de novidade nas suas primeiras aparições. Porém, não mantiveram o nível – convenhamos, não lá muito alto – na continuidade da franquia tornando-se torture porn sem trama, monótonas sem apreço pelo gênero e produções trash no pior sentido da palavra.
Outra característica predominante do cinema americano se apresenta no cenário do terror dessa época: as regravações de filmes estrangeiros. Dois dos mais interessantes exemplares do gênero dos anos 2000, O Chamado e o Grito, são adaptações norte-americanas de obras célebres de terror japonês, respectivamente, Ringu (1998) e Ju-On: The Grudge (2002). Adaptações que estão longe de alcançar o macabro tom dos filmes originais.

Em comparação com grandes blockbusters, filmes de horror têm a tradição de apresentarem números modestos de orçamento. Isso pode ser uma explicação do porquê a ousadia é mais “permitida” neste gênero. “Corra!”, por exemplo, custou apenas US$4,5 milhões contra uma bilheteria de US$252 milhões. Isso permitiu que as portas dos estúdios fossem reabertas para ideias novas dentro do terror e que seguissem o princípio de Peele: refletir.
Ao recuperar este elemento que caminhou com o gênero por muito tempo, Jordan Peele proporcionou uma leva de novas produções dispostas a trabalhar com ideias e temas complexos, deixando de lado os sustos genéricos que tentavam replicar a fórmula de sucesso comercial da franquia Invocação do Mal. Desde então, novos cineastas surgem trazendo experiências imersivas, questionadoras e, acima de tudo, criativas.
Essa nova onda nos trouxe obras com debates em diversos âmbitos. “O Homem Invisível” dialoga sobre gaslighting e relações tóxicas. O diretor Leigh Whannell adapta a clássica história do personagem para traduzir a paranóia e o isolamento da personagem após o fim de um relacionamento. Uma verdadeira ressignificação de algo datado para uma temática contemporânea com excelência!
“Men – As Faces do Medo” segue a linha de explorar masculinidades tóxicas. Na trama, a protagonista lida com a estranheza dos homens da região para a qual se muda. O terror surge como uma encenação da misoginia estrutural através das figuras destes homens, que possuem o mesmo rosto, vivido pelo mesmo ator. O filme está longe de ser um consenso, eu mesmo não gosto dele, mas existe toda uma problemática trabalhada que foge das convenções do óbvio.
O famoso “A Substância” critica a obsessão pela juventude, a objetificação dos corpos femininos e os padrões de beleza. O filme tem tanto sangue quanto Jogos Mortais, citado anteriormente. Entretanto, a produção estrelada por Demi Moore faz do body horror um elemento narrativo inseparável do que está sendo buscado discutir. O problema não é o sangue de Jogos Mortais, mas a gratuidade dele.
Ainda há espaços para filmes sobre crenças e valores como “Herege”; elitismo cultural e desigualdade de classes em “O Menu”; a crise dos refugiados é apresentada em “O que ficou para trás?”; e o independente “Eu vi o brilho na TV” é um íntimo terror que dialoga sobre disforia de gênero e a identidade queer. Existem opções aos montes dentro do gênero. Você provavelmente vai amar alguns e detestar tantos outros (como eu), mas jamais sairá sem que um discurso pertinente o alcance.
Enquanto o cinema comercial revisita mais o passado do que cria ideias para reverberar no futuro, esquece justamente o que fez esses filmes antigos tão marcantes. Como fã do terror, é gratificante poder experimentar na tela grande o nascimento de possíveis novos clássicos, como Pecadores, dentro do gênero. Como fã de cinema “pipoca” no geral, eu gostaria de voltar à época que ambos dividiam a ousadia e a criatividade.
