Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

‘A cachorra’ cai na armadilha do ressentimento

Sucesso de recomendação, o livro foi escrito por Pilar Quintana logo após o nascimento de seu primeiro filho

‘A Cachorra’, de Pilar Quintana, ganhou prêmios literários do país de origem (Colômbia) e foi finalista do National Book Award, dos Estados Unidos, na categoria literatura traduzida. Pilar é autora de outros três romances e um livro de contos, sendo considerada uma das principais escritoras latino-americanas da atualidade.

A obra, lançada no Brasil pela Editora Intrínseca, conta a história de Damaris, uma mulher atormentada pela culpa da morte de um amigo na infância, falta de amor dos pais e pouca remuneração pelo trabalho que executa, e que adiciona à lista de desprazeres e injustiças sofridas a incapacidade de engravidar, que dá o ponto de partida à história.

Assim, decide adotar Chirli, a cachorra que ilustra a capa do livro.

Com pouco mais de 150 páginas, a leitura flui bem pela escrita instigante, que promete grandes acontecimentos, mas acaba não entregando tantas cenas gráficas ou momentos surpreendentes.

O foco fica nas nuances psicológicas da personagem principal, que flertam muito com o conceito de ressentimento, defendido veementemente pela psicanalista Maria Rita Kehl, em livro homônimo. Kehl explica, baseada principalmente em Nietzsche, que o ressentido é um sujeito que não se representa como faltante, mas como prejudicado. Ele não se arrepende, acusa. Ele não luta para recuperar aquilo que cedeu, e sim para que o outro reconheça o mal que ele fez. 

E essa é Damaris, que se vê como injustiçada, morando num lugar pobre, que parou no tempo (a narrativa dá a entender que estamos no passado, mas insere elementos do presente, como celulares e televisão) e que ela merece mais. Mas é incapaz de fazer qualquer movimento pela obsessão nas inseguranças, eventos passados e a suposta inferioridade de tudo o que lhe rodeia. 

E essa é a armadilha em que o livro cai. O foco nos aspectos “doentios” da mente da protagonista – que na realidade se revelam muito mais humanos (o ressentimento é mais comum do que parece) – tira o olhar para o aprofundamento do texto como um todo. A imersão se perde com a falta de descrição de ambientes, personagens e até mesmo da Damaris e sua cachorra. 

No fim, o que fica é uma experiência interessante, mas esquecível. Há livros melhores que abordam a psicologia do ressentido, como o recente ‘Intermezzo’, da irlandesa Sally Rooney, e a obra completa da mineira Carla Madeira.

Informações técnicas

Classificação indicativa: 18+
Tradução: Livia Deorsola
Páginas: 160
Gênero: Ficção Literária
Lançamento: 9 de nov. de 2020

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também