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XTRANHO: o experimento sombrio que desafia a personalidade musical de Matuê

Mais do que ouvir, é preciso encarar. Nem todo mundo vai gostar - e a ideia é exatamente essa!

Estranho. Ou por que não dizer… XTRANHO?! Sem sombra de dúvidas, o terceiro álbum produzido pelo trapper brasileiro Matuê faz completo jus ao próprio nome. Lançado em dezembro de 2025, em audição pública gratuita realizada no Vale do Anhangabaú (SP), o conjunto de 13 músicas chama a atenção por se diferenciar — radicalmente — da identidade musical construída pelo artista ao longo de seus mais de dez anos de carreira. Trazendo batidas mais “sujas” e uma atmosfera essencialmente sombria, o mixtape passou longe de ser uma unanimidade (inclusive entre a fanbase do autor). É importante ressaltar, todavia, que tudo isso já havia sido premeditado. 

“O projeto vai ser XTRANHO mesmo, feito para dividir o público. Tá na hora de fazer a limpeza”, disparou Matuê em sua conta oficial no X, cerca de dois meses antes da publicação definitiva. E de fato, as perceptíveis diferenças do lançamento mais recente para os trabalhos anteriores do artista não se limitam somente à sonoridade das músicas. Até mesmo o conceito geral do álbum destoa em relação aos demais. Enquanto em Máquina do Tempo (2020) e 333 (2024) é possível observar produções mais coloridas com letras mais poéticas, XTRANHO aposta em uma interface grotesca de lírica mais “pesada”. 

A capa do álbum, que traz a silhueta de Matuê em uma imagem distorcida, talvez seja uma das principais simbologias que evidenciam a mensagem a ser transmitida. O desenho nada mais é do que uma referência clara ao fenômeno “This Man”, popularizado na internet em meados dos anos 2000. Naquela época, a imagem amplamente compartilhada em redes sociais alegava que milhares de pessoas já haviam sonhado com “aquele homem”, que ninguém sabia ao certo quem era. Ao utilizar-se desta inspiração, a intenção do artista é justamente essa: plantar a ideia de algo familiar, mas perturbador — como se ele próprio estivesse explorando versões “estranhas” de si mesmo.  

Capa do álbum XTRANHO (Reprodução: 30PRAUM)
“This Man”, imagem criada pelo sociólogo italiano Andrea Natella (Reprodução: Facebook)

Ao analisar as letras das músicas, aparecem outros sinais marcantes dessa ruptura. Apesar de alguns tópicos característicos do trap — como a ostentação e a ascensão social — serem mantidos, a construção dos versos e a maneira como eles estão distribuídos visivelmente muda. Outrora conhecido por suas composições reflexivas, com beats “limpos” e refrões marcantes, Matuê fez diferente. Desta vez, o que ele entrega ao público são pensamentos fragmentados, inquietação e ruídos com textura eletrônica. Nada disso, entretanto, sem polêmicas. Na faixa REI TUÊ — que abre o setlist do álbum — é possível identificar, em determinado ponto, o áudio de uma mulher reclamando da violência em um show. O trecho causou repercussão negativa na internet e rendeu críticas em mídias sociais.

Talvez um descontentamento de Matuê em relação à própria cena da qual ele faz parte tenha sido o ponto de partida para a ambientação do novo álbum, que vai totalmente de encontro às tendências comerciais. “O mainstream do rap dominado pela mão da indústria, dos empresários e da pressão pelos números. Por isso, a gente não vê mais os artistas fazendo aquilo que eles realmente acreditam. A salvação está no underground”, publicou o trapper, novamente em seu perfil no X, em agosto de 2025. Para apreciar a produção da forma correta, é necessário entender o que de fato ela representa. Não se trata de algo feito para agradar ao senso comum. O mixtape surgiu para segregar, diversificar e, sobretudo, arriscar. De qualquer forma, fica a dica: quer gostar de Matuê? Não comece por XTRANHO!

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