A redescoberta de músicas antigas em redes sociais que trabalham com vídeos curtos tornou-se um fenômeno cada vez mais comum, principalmente com as gerações mais novas e a criação de trends. Além disso, séries e filmes também ajudam nesse “descobrimento musical” de obras pouco populares, que acabam sendo utilizadas em trilhas sonoras dessas produções e ganham um destaque temporário a partir delas.
No início do ano, a música Thief of Hearts, da cantora estadunidense Madonna, ficou popular em vídeos do aplicativo TikTok. O trecho utilizado, de mais ou menos 15 segundos, destaca o clímax da música, porém, a interpretação dos usuários vai além do que a música diz, trazendo consigo uma “encenação” dramática, conectando quem está no vídeo com quem o assiste.
Porém, ao passar desses segundos, muitos dos usuários acabam se esquecendo da música e a deixando de lado. Muitos deles apenas a conhecem a partir da trend e pouco se interessam em descobrir a obra por inteiro. O trabalho feito pelos aplicativos, como o TikTok e Instagram, funciona como um resgate de catálogo de músicas antigas, mas o usuário se interessa apenas pelo que é apresentado de forma instantânea. A pergunta que fica é: “como o imediatismo dessas redes influencia em nossas descobertas musicais?”.
A viralização
Para que uma música “viralize” em qualquer plataforma hoje em dia não é preciso muito esforço. Uma simples dança, encenação ou meme já é o bastante para que algum conteúdo se torne potencialmente popular. No caso de Thief of Hearts não foi diferente: os primeiros vídeos traziam uma atuação quase cômica, em diferentes lugares, onde a pessoa seguia a câmera, como se fosse confrontá-la. O resultado: todo mundo queria participar, uma vez que a produção do vídeo era simples e divertida.
A partir disso ocorrem as viralizações, que muitas vezes ressuscitam músicas antigas e as colocam nos holofotes do público mais jovem, principalmente dos millenials e da geração z, que são os dois maiores grupos de usuários de aplicativos de vídeos curtos. Como resultado, as gravadoras dessas músicas apostam em produzir conteúdo a partir desses antigos hits, gerando lucro e novos streamings (reproduções) em aplicativos de música, como o Spotify e o Apple Music.
Além disso, a inserção de influenciadores digitais nessas tendências também potencializa a disseminação das músicas. Uma vez que eles participam das trends, seu público também se sente motivado em fazer parte. Muitas vezes os próprios artistas donos das canções entram na brincadeira e gravam suas próprias versões. No caso de Madonna não foi diferente. Após ver o “novo” sucesso de sua música, a cantora gravou um vídeo para suas redes sociais, que fez sucesso em pouco tempo.
Esse efeito de resgate de catálogo reflete duas posições em como usamos as mídias hoje em dia: por um lado somos atraídos pelo novo, redescobrindo sucessos de décadas passadas e os revisitando, colocando no nosso repertório musical diário; por outro, poucas vezes o usuário se interessa pela obra por completo, se contentando apenas com os segundos construídos pelo vídeo assistido. Esse movimento mostra como a comunidade musical atual prefere composições de tempo curto a álbuns e produções mais longas.
Podemos perceber isso através do que a maioria dos artistas vem fazendo hoje em dia: álbuns e músicas cada vez menores, pouquíssimo material em vídeo e maior publicidade em redes sociais que utilizem de trends momentâneas. Mesmo que não pareça, a criação de trends musicais, não apenas de músicas antigas, pode despertar um sentimento acelerado com o que consumimos, já que buscamos cada vez mais um conteúdo inovador para nos identificar, se esquecendo de explorar o material já existente.
Quem é Thief of Hearts?
A música Thief of Hearts é a oitava faixa do álbum Erotica, lançado em 1992 pela cantora Madonna, com ajuda dos produtores Shep Pettibone e André Betts. Junto com o disco, aconteceu também o lançamento do livro fotográfico Sex, onde a artista explorou a sensualidade feminina [o sexo] ao seu máximo, através do erotismo, fetiche e relações de poder, temas que, para a época, iam contra convenções socialmente estabelecidas [todas as convenções que a sociedade havia estabelecido.]
A crítica recebeu bem o álbum, mas o livro acabou borrando a imagem que Madonna queria construir durante a era do Erotica. O público não estava acostumado a observar o sexo feminino como centro de poder, o que provocou um misto de repulsa e admiração.
Muito mais que sexo, Madonna buscava estabelecer que, acima de tudo, as mulheres também tinham direito de falar daquilo que dava, e tirava, seu prazer. E para poder tratar disso, ela explorou diferentes estilos musicais que estavam surgindo na época: o hip-hop, R&B, new jack, house music e rap fizeram parte do repertório musical do álbum.
Um pouco antes do lançamento de Erotica, Madonna também fez participação no filme Corpo de Delito (Body of Evidence, 1993), que ajudou a construir sua persona Dita, uma dominatrix que nos guia durante a entrada do álbum, na faixa-título Erotica. Essa persona ajudou a cantora a canalizar muitos dos seus sentimentos durante a criação das músicas, inclusive, em Thief of Hearts.
A música que se popularizou atualmente é uma das menos escutadas no álbum. Perto de sucessos como Rain, Deeper and Deeper, Bad Girl e Fever, a música Thief of Hearts soma um pouco mais de 4 milhões de reproduções na plataforma Spotify. O que chama a atenção nesta música é, acima de tudo, a história que Madonna quer nos contar: ela está em busca da “little miss Black Widow” (a garotinha viúva negra), responsável por nada mais, nada menos, do que roubar o namorado de Madonna, e ela, agora, busca se vingar.
O trecho que se popularizou se trata diretamente do ápice desse encontro, quando Madonna, com toda sua raiva, encontra essa mulher e inicia uma discussão acalorada:
Thief of hearts, bitch
(Ladra de corações, vadia)
You’ll do it, you’ll take it, you’ll screw it, you’ll fake it
(Você fará isso, você pegará, estragará, fingirá)
Undo it, you’ll break it, you’re over, you can’t take it
(Desfaça isso, você quebrará, está acabada, não pode levá-lo)
You’ll do it, you’ll take it, you’ll screw it, you’ll fake it
(Você fará isso, você pegará, estragará, fingirá)
Undo it, you’ll break it, you’re over, you can’t take it
(Desfaça isso, você quebrará, está acabada, não pode levá-lo)
Letra e tradução: letras.mus.br
Através de batidas de dance pop e hip-hop, elementos teatrais e sons de vidro e sirenes policiais, a ambientação dada à música quase desenha a cena para quem está escutando. O ritmo colocado embala a discussão e, até o fim da canção, observamos Madonna dar muito mais que uma lição; ela coloca a sua inimiga no lugar. “Now sit your ass down!”.
Escutar para entender
Por mais que a trend não demonstre, o poder que a música Thief of Hearts tem em empoderar quem a escuta é indiscutível. Porém, com o pouco tempo que o espectador possui ao assistir os vídeos, o significado da produção fica, praticamente, escondido.
Esse resultado aconteceu não apenas com essa música, mas com diversas outras que passaram pelo efeito de trend e se popularizaram por pouco tempo. Outras canções como Running Up That Hill e Upside Down, das cantoras Kate Bush e Diana Ross, respectivamente, também servem de exemplo. Ambas foram selecionadas como parte da trilha sonora da série Strange Things e, após o fim das temporadas que apareceram, começaram a ser esquecidas. Outro exemplo aconteceu através do filme brasileiro Ainda Estou Aqui, com a música É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, interpretada pelo cantor Erasmo Carlos. A composição protagonizou dezenas de vídeos no TikTok onde os usuários contavam vivências de familiares que passaram pela ditadura militar, momento em que a música foi lançada.
A utilização de plataformas como TikTok e Instagram ajudam, sim, na reinvenção de músicas antigas, fazendo com que elas ganhem novamente seu respectivo destaque, mesmo que quem escute opte por não entender o conceito geral onde a produção está colocada. A discussão que se estabelece é que, através dessas redes, a música perde sua completude e passa a funcionar como um fragmento, utilizado apenas como uma trend impulsionadora do consumo digital. Buscar o trabalho do artista ajuda a entender a letra e contexto em que a obra é criada. Além de, claro, enriquecer o repertório de quem busca escutar uma boa música.
