Após três anos de hiato, Harry Styles retorna aos palcos com seu novo álbum intitulado Kiss All The Time. Disco, Occasionally, com 12 faixas, foge do padrão do cantor e traz uma sonoridade dançante no estilo clássico europeu — marcado por influências synthpop, presentes nas sonoridades de artistas como Depeche Mode e Pet Shop Boys.
Desde o início de sua carreira solo, o artista tem buscado consolidar uma identidade própria dentro do pop contemporâneo. Após ganhar projeção mundial como integrante da banda One Direction, o cantor passou a explorar diferentes influências em sua discografia individual, que inclui os álbuns Harry Styles (2017), Fine Line (2019) e Harry’s House (2022). Este último ampliou seu alcance no pop e consolidou sua presença na música atual, estabelecendo expectativas altas para o projeto que viria a seguir — especialmente após vencer o Álbum do Ano no Grammy Awards 2023.
Lançado em 6 de março de 2026, o novo disco possui bases rítmicas alternativas, guitarras elétricas, pulsações e nuances muito diferentes de sua obra anterior, Harry’s House. Canções como Aperture e Dance No More, possuem uma clara referência ao groove, indie rock e disco dos anos 80, reforçando o nome do projeto. As letras geralmente remetem aos momentos da própria balada, a mistura de sentimentos e sensações que uma festa proporciona. Mas ao mesmo tempo, o cantor sempre está buscando, em seus versos, algo que não consegue encontrar e sente que está precisando recordar, sem revelar o que é exatamente.
Já em Season 2 Weight Loss é onde Harry mais se arrisca, uma faixa com a batida desencaixada, onde o canto é quase falado. A sensação é de crescimento e explosão. A base eletrônica, com os ritmos de bateria e baixo dessincronizados e a inclusão de um coral no refrão fazem perceber que o artista queria subverter as expectativas do ouvinte. Aqui tem-se a impressão de que ele está apenas participando da festa, assim como quem escuta.
Desde que lançou sua carreira solo, Harry normalmente retratava seus relacionamentos de uma forma mais melancólica e sentimental. Porém neste álbum acontece algo inusitado: o prazer é a prioridade, como na nona faixa do álbum, nomeada Pop. Nesta, não existe o clássico “medo de não dar certo”; aqui o carnal é explorado, sendo o centro da música que, conforme passa, vai se tornando crescente junto com o ritmo da mesma.
Entretanto, percebe-se que este trabalho também possui um caráter experimental, ao transitar entre momentos mais audaciosos e outros que aproximam Harry Styles de uma sonoridade mais familiar. Ainda que algum ritmo festivo permaneça ao fundo, as letras tornam-se mais elaboradas e abordam sentimentos profundos, na tentativa de recuperar um amor antigo cuja ausência pesa. A voz surge mais cantada e evidenciada, como na sua última canção, Carla’s Song, onde ele parece achar e reassumir aquilo que tanto procurava — o amor perdido que agora se revela, deixando a balada para transformar-se em mais uma noite romântica na cidade.
A intenção parece ser inaugurar uma nova “era” na carreira do artista, mas ao mesmo tempo falta constância nesta transformação. Todas as faixas têm o potencial para ser um hit, porém a grande ideia parece não ter sido explorada com tanta força — foi como se jogar de cabeça, mas com paraquedas. Ainda que seja necessário ousadia para construir uma obra como esta, permanece a sensação de que poderia haver mais: mais disco, mais ritmos eletrônicos ascendentes, mais do novo Harry.
Acredito no poder que um artista possui em ser versátil sem comprometer o rigor artístico. Mesmo distintas entre si, as músicas são extremamente bem construídas do ponto de vista musical, com ideias que apenas um verdadeiro artista pop seria capaz de executar — e isso sabemos que Harry Styles é. Ainda que o desejo por uma manobra ainda mais radical permaneça, Kiss All The Time. Disco, Occasionally é, sem dúvida, um comeback memorável — daqueles que fazem ecoar novamente entre os fãs o coro que o acompanha: your husband is coming.
