Criado pelas jornalistas gaúchas Juliana Coin, Luiza Fritzen e Taís Seibt como uma ferramenta para combater as fake news decorrentes da enchente no Rio Grande do Sul, em maio deste ano, o projeto Verifica RS conta com mais de 2,8 mil seguidores no Instagram, além de um perfil no TikTok.

Segundo a jornalista e professora do curso de Jornalismo da Unisinos Taís Seibt, a iniciativa surgiu após uma provocação da colega formada pela UFRGS, Luiza Fritzen, sobre a necessidade de se ter um grupo de checagem direcionado para essa problemática.

“Ela manifestou essa preocupação, mas, conversando, chegamos à conclusão de que criar um grupo de checagem era difícil, porque precisaríamos de pessoas treinadas e qualificadas. Então, nos juntamos com a Juliana Coin, egressa da Unisinos e braço direito em vários projetos da AFonte,, que é a minha iniciativa paralela à Unisinos. Assim, chegamos à conclusão de que a medida mais factível seria criar uma força-tarefa emergencial para reproduzir conteúdo checado e distribuir o máximo possível de respostas à desinformação nos grupos em que estávamos inseridas”, aponta Taís.

Da esquerda para a direta, as coordenadoras do Verifica RS: Juliana Coin, Luiza Fritzen e Taís Seibt (Arquivo pessoal/Reprodução: Beta Redação) 

Servindo à população

O principal objetivo da iniciativa é divulgar a informação verificada, tornando-se um canal de referência para o público se informar – inicialmente, sobre os serviços de emergência necessários para atender à catástrofe. Agora, o projeto está cada vez mais voltado também aos serviços de reconstrução, pois, de acordo com Taís, há uma série de políticas públicas sendo anunciadas, e elas também são alvo de desinformação.

“O Verifica RS está atento a essas questões e temos a perspectiva de que é necessário, cada vez mais, também oferecer informações sobre a questão climática como um todo, orientar sobre boas práticas e cuidados, e como prestar atenção e reconhecer as fontes confiáveis”, destaca.

Já a respeito da formação da força-tarefa, a professora conta que a mobilização de voluntários começou através de um formulário divulgado em grupos de WhatsApp e em redes de contatos das quais elas faziam parte, mas que, com o tempo, os próprios voluntários começaram a chamar outras pessoas conhecidas para fazerem parte do projeto. Atualmente, são cerca de 50 voluntários que se dividem em equipes de redação, produção de arte, produção de multimídia e difusão.

O Verifica RS produz conteúdos como lives, vídeos e cards informativos. (Feed do perfil Instagram/Reprodução: Beta Redação) 

“Esse grupo, então, se organiza de uma forma em que cada um cumpre uma etapa do processo para fazermos as divulgações. É assim que estamos fazendo, um trabalho bem de formiguinha, mas que já está dando uma repercussão interessante, já que o perfil está cada vez mais ganhando visibilidade”, ressalta Taís.

Usando da influência

Conforme a professora, o objetivo da criação do perfil, especificamente, foi também centralizar e fortalecer a iniciativa como um ponto de referência, sendo um canal unificado para influenciadores no qual eles possam remeter os conteúdos produzidos em suas redes sociais.

 “A informação circula muito pelas redes sociais e a desinformação também, então os influenciadores são peças-chave, porque acabam sendo as pessoas de referência que o público segue e confia. Então, se elas estiverem passando informação confiável, estiverem recomendando uma fonte confiável, nós temos mais chance de furar algumas bolhas e conseguir alcançar novos públicos”, afirma Taís. 

O Verifica RS busca trabalhar com um grupo diversificado de embaixadores, sendo imparcial, ou seja, sem apoio a partidos/ideologias, para conseguir atingir todos os públicos (Arquivo pessoal/ Reprodução: Beta Redação) 

Uma prova de que a estratégia está funcionando é Amanda Demétrio, uma barista de 32 anos, que disse ter começado a seguir o perfil do Verifica RS no Instagram, após ver que a influenciadora Débora Salvi (@deborista) é uma das embaixadoras do projeto.

“Comecei a seguir porque eram raras as fontes de informações seguras durante as enchentes. Então, seguir um veículo chancelado por pessoas conhecidas foi o que me animou a acompanhar o conteúdo”, conta Amanda.

Quanto ao que gostaria de ver no perfil, ela sugere que falem mais sobre os desdobramentos da enchente para a sociedade civil, desde as pessoas mais afetadas até o acompanhamento dos comércios do Rio Grande do Sul.

Cenário político e as fake news

Segundo Luciana Carvalho, professora da UFSM integrante da Rede Nacional de Combate à Desinformação e líder do Grupo de Pesquisa Desinfomídia (UFSM/CNPq), um dos apoiadores do Verifica RS, as fake news são produzidas por grupos profissionalizados que agem de forma organizada para disseminar desinformação.

“Seja por meio de conteúdos que simulam notícias, conhecidos como fake news, ou produzindo falsas testemunhas, pessoas ou autoridades que alegam ter estado em determinado lugar, tudo isso é feito com a intenção de obter poder, conquistar adeptos para uma causa ou atacar adversários políticos”, destaca a doutora em Comunicação.

A respeito do porquê sempre surgem ondas de fake news em momentos de crise e catástrofes climáticas, como as enchentes de maio que atingiram todo o Rio Grande do Sul, Luciana aponta que esse tipo de conteúdo ganha espaço e consegue se propagar com mais facilidade porque as pessoas se encontram em um estado de vulnerabilidade. 

“Isso só se propaga porque vivemos em uma sociedade polarizada, onde há uma divisão no Brasil entre extrema direita e esquerda, com pessoas engajadas em diferentes grupos. Em momentos de grande tensão, tragédias como a pandemia, catástrofes climáticas como as enchentes, ou nas eleições municipais próximas, as pessoas estão fragilizadas e com medo, tornando-se propensas e vulneráveis a esses conteúdos que utilizam estratégias de captação, especialmente emocionais, aproveitando o medo e o sentido de urgência”, explica.

Luciana Carvalho é professora do Departamento de Ciências da Comunicação da UFSM. (Foto: Arquivo pessoal/Luciana Carvalho) 

Luciana ressalta que o contexto político do país está diretamente relacionado ao compartilhamento de desinformação, devido à polarização em que as pessoas estão extremamente divididas em suas bolhas e tendem a aceitar como verdade tudo o que circula em suas câmaras de eco. A doutora também menciona que o contexto eleitoral intensifica esse cenário e aumenta o número de pessoas que se aproveitam da situação.

“Durante o início dos problemas climáticos no Rio Grande do Sul em maio, muitas pessoas e influenciadores de outros estados foram para Porto Alegre e outros municípios afetados pelas chuvas para produzir vídeos espalhando fake news, atacando diferentes governos ou até mesmo o Exército, aproveitando-se dessa questão política para criar conteúdo de propaganda eleitoral. Além disso, houve pré-candidatos a vereador que tentaram utilizar a tragédia para ganhar visibilidade, fingindo ajudar, mas na verdade estavam atrapalhando ou até desviando recursos”, destaca.

Ela também aponta que, apesar de o país ter normas e legislação, enfrenta o problema da falta de regulação das plataformas digitais, que lucram muito com a disseminação de desinformação.

Desinfomídia

O Desinfomídia é um grupo de pesquisa certificado pelo CNPQ, vinculado ao FSM, com o objetivo de desenvolver não só a pesquisa, mas também uma extensão estratégica de ensino voltada para estudos sobre desinformação no ecossistema midiático. Luciana Carvalho é a líder do grupo e diz que a decisão de se tornarem apoiadores do Verifica RS se deu porque já conhecia o trabalho da professora Taís Seibt no combate à desinformação e por achar a iniciativa uma importante fonte local/regional. “O Verifica RS ele traz uma espécie de curadoria como a gente do Desinfomídia fez durante as primeiras semanas das enchentes, de selecionar aquilo que outras agências estavam checando e divulgando na nossa rede. Então, é muito importante a gente apoiar uma iniciativa como essa”, aponta.

Luciana ainda ressalta que o grupo está colaborando também na força tarefa coordenada pela rede nacional de combate à desinformação e que o apoio ao Verifica RS se dá sempre ao contribuir e compartilhar o conteúdo produzido por eles, nas suas redes.

Cada um pode fazer a sua parte

Por fim as professoras deram dicas sobre como cada pessoa pode analisar se uma informação é falsa e contribuir para o combate a desinformação. Taís Seibt acredita que cada um de nós pode atuar nesse combate sendo mais criterioso com aquilo que compartilhamos e sendo mais cuidadoso na hora de reconhecer as fontes, para então criar um ecossistema de informação mais saudável. “Quanto mais a gente se preparar ao longo do tempo para que isso seja um exercício contínuo, essa busca por informação verificada e essa confiança nas fontes: Quem são as fontes? Como reconhecer as fontes? Quanto mais trabalharmos isso em uma situação de crise, mais chance teremos de possuir uma clareza nesse processo informativo”, afirma. 

Já a Luciana Carvalho dá a dica de seguir o guia da Fisrt Draft de verificação online, que fala dos cinco pilares da verificação. “Os cinco pilares seria assim: a fonte, a procedência, a origem, ver o local em que foi gravado e por fim a data. Então alguns desses pilares já podem me ajudar, pois daqui a pouco foi em outro país e estão dizendo que foi aqui, e por aí vai a questão do processo de checagem”, destaca. Ela também conta que é sempre bom investigar o histórico da pessoa, influenciador, etc que publicou ou aparece nos vídeos, para descobrir as intenções daquela pessoa ou saber ela é ligada a algum partido ou algum grupo.