A escalada esportiva no Rio Grande do Sul é mais do que apenas um esporte, é uma paixão que une pessoas em busca de aventuras e superação 

Seja nas paisagens exuberantes do Rio Grande do Sul ou mesmo dentro de ginásios e academias, uma atividade esportiva está ganhando cada vez mais destaque e conquistando novos entusiastas: a escalada esportiva. A escalada é um esporte de aventura que envolve subir superfícies naturais ou artificiais, como rochas, paredes de escalada indoor, gelo ou montanhas, usando técnicas específicas e equipamentos adequados. 

Se trata de uma prática que combina coragem, força e determinação, que estreou como modalidade nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020 (o evento foi postergado para 2021, devido à pandemia da Covid-19). O Brasil não participou da estreia, mas isso não significa que não tenhamos atletas de alto nível, como Amanda Criscuoli, uma jovem de 17 anos, de Porto Alegre, que acaba de voltar do Mundial de Escalada Juvenil, competição que ocorreu na Coreia do Sul.

“Sempre que penso na minha história, eu penso na escalada”

-Amanda Criscuoli

Amanda já nasceu dentro do universo da escalada, seus pais praticam o esporte há mais de 20 anos. Começaram fazendo rapel – esporte que consiste em um sistema de cordas e equipamentos de segurança para controlar a descida de uma superfície vertical, como uma montanha ou até mesmo uma cachoeira – até que mudaram para escalada. Amanda acompanhava os pais em suas aventuras e fazia do espaço disponível seu parque de diversões.

Amanda, ainda bebê, acompanhando seus pais em um dia de escalada (Arquivo pessoal/Amanda Criscuoli)

Por mostrar interesse na atividade, aos 6 anos, começou a ser instruída pelo pai. Apenas três anos após, Amanda já participaria de sua primeira competição, em Curitiba. Para treinar, utilizava o espaço da Associação Gaúcha de Montanhismo (AGM), sociedade que a acompanha até hoje oferecendo apoio e patrocínio. 

Fundada em 2000, a AGM é uma organização sem fins lucrativos com propósito de reunir aqueles que praticam e admiram o montanhismo, além de coordenar e promover a disseminação desse esporte no estado gaúcho. O trabalho é voluntário, nenhum membro da diretoria é remunerado, todas as arrecadações são reinvestidas na organização, que disponibiliza, entre outras atividades, um muro de escalada indoor de acesso livre (mediante pagamento de uma diária). A associação também desenvolve ações de cunho social e ambiental, como campanhas e eventos em comunidades carentes ou mutirões de limpeza, quando realizam a manutenção de trilhas ou vias de escalada.

A atleta mirim escalando a parede indoor da AGM (Arquivo pessoal/Amanda Criscuoli)

Rafael Paim Caon é o atual presidente da AGM, atua no cargo desde 2010, está no seu quinto mandato. Caon ingressou na associação em 2001, quando retornou ao Brasil após morar 5 anos na Europa, hoje, se dedica profissionalmente ao esporte, trabalha como instrutor e guia de escalada e montanhismo.  

Uma das características mais notáveis da cena de escalada esportiva no Rio Grande do Sul é a paixão e a união do grupo de praticantes. Clubes e grupos de escaladores promovem encontros, eventos e competições que incentivam a prática do esporte e a troca de experiências.  

Somente na AGM, somam-se 130 associados que praticam a modalidade esportiva e constituem uma verdadeira comunidade. “A escalada congrega tribos. É um esporte onde tu encontra gente de tudo que é background, então vai ter desde pessoas super conceituadas, ícones na sua área, até pessoas mais simples que buscam esse contato com a natureza, e tá todo mundo reunido ali, com objetivo único que é de escalar, de se desenvolver pessoalmente, de romper suas limitações, e de se superar”, relata Caon. 

Na esfera pública, o governo gaúcho lançou, em 2019, o programa Pró-Esporte, através da Lei de Incentivo ao Esporte. Vinculado à Secretaria do Esporte e Lazer, o projeto visa apoiar talentos locais, aplicando recursos financeiros em projetos de fomento às práticas desportivas e paradesportivas, em suas diversas áreas de manifestação e modalidades. 

Segundo a Secretaria de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul, uma das principais inovações recentes do Pró-Esporte, foi a democratização para inscrição de projetos, o que permitiu a inclusão de diversas modalidades que se mantinham a margem do processo. Em junho, o Pró-Esporte aprovou o primeiro projeto na modalidade de escalada esportiva. O projeto, criado por Fabiane Criscuoli (mãe da Amanda), tem o objetivo de custear a viagem da atleta ao Mundial da Coréia do Sul, assim como próximos campeonatos e Copas Brasil realizadas neste ano e início de 2024.

“Amanda Criscuoli Tavares Rumo ao Sonho Olímpico de Escalada”, projeto aprovado pelo programa Pró-Esporte em 2023 (Arte/Secretaria do Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul)

A Secretaria também relata que, desde 2021, no início da gestão do secretário Danrlei de Deus, o Pró-Esporte RS registrou um crescimento de 600%. Atingindo um novo patamar, ao executar, pela primeira vez na história, 100% do valor destinado. Comparando a média anual desse período com os anos anteriores pré-2021, houve evolução em todos os quesitos: de 14 para mais de 60 modalidades, de 132 para 950 projetos inscrito e de 83 para 380 projetos aprovados. 

Na última janela de inscrições de junho, o Pró-Esporte RS bateu recorde de proponentes: foram 610 projetos inscritos, o maior valor absoluto desde o início do programa. 

Com a colaboração entre os praticantes e o apoio de patrocinadores e autoridades locais, a comunidade de escaladores está trabalhando para desenvolver ainda mais as áreas de escalada, expandir as competições e proporcionar oportunidades para que mais pessoas se envolvam no esporte. Um exemplo do desenvolvimento da modalidade no território gaúcho é a possível volta das escaladas nos cânions da região dos Aparados da Serra, em Cambará do Sul. O projeto será viabilizado após a revisão Plano de Manejo do Parque Nacional de Aparados da Serra, de 1984. 

A geografia diversificada do Rio Grande do Sul oferece uma variedade de terrenos ideais para a escalada. Os destaques são as serras da região, que proporcionam rochas desafiadoras e paisagens deslumbrantes para entusiastas. Outros locais icônicos se localizam no Pico do Itacolomi, em Gravataí e na Gruta da 3ª Légua, em Caxias do Sul. 

A Associação Gaúcha de Montanhismo (AGM) disponibiliza no seu site um mapa com sugestão de vias para treinar e explorar as práticas de esportes na região. 

Fora do estado, Amanda relata que seu local preferido é a Serra do Cipó, que fica em Minas Gerais. “O lugar é realmente muito bonito, eu vou para lá sempre que posso, tem muita, muita via”. As vias de escaladas são rotas ou percursos pré-definidos em rochas naturais, paredes de escalada artificiais ou estruturas criadas para a prática da escalada esportiva. As vias são planejadas para proporcionar desafios específicos que variam em dificuldade, comprimento e estilo, permitindo que os escaladores escolham rotas de acordo com seu nível de habilidade e preferências. “São várias dificuldades e níveis, são bonitas e algumas das mais clássicas do Brasil, estão lá. Realmente é um lugar que eu gosto muito, é um pouco longe, mas eu gosto bastante…”, Amanda complementa sobre o local. 

Onde quer que esteja, a jovem atleta deixa sua marca. Criuscuoli já acumulou várias vitórias em competições nacionais e se destacou como uma das 10 melhores atletas no Panamericano de Escalada, em 2019, e assim como na categoria profissional da escalada brasileira. Ela detém o título de ser a escaladora mais jovem a receber o Prêmio Mosquetão de Ouro em 2017 na Categoria Escalada Esportiva, sendo agraciada pela categoria novamente, em 2022. O feito a fez entrar na lista seleta de pessoas que o receberam mais de uma vez. Atualmente, detém o título de escaladora mais jovem do Brasil a encadenar (escalar sem queda) uma via de 9º Grau em 2019, quando tinha apenas 12 anos, também conquistou o 8º Grau em 2016 aos 10 anos, bem como os 7º e 6º Graus em 2016 aos 9 anos, todos em escalada em rocha.

Momento em que conquistava o título de escaladora mais jovem do Brasil a encadenar uma via de 9º grau, na desafiante “Premonição”, em Caxias do Sul. (Arquivo pessoal/Amanda Criscuoli)

Anderson Gouveia, seu atual treinador, também é coordenador de desenvolvimento esportivo da Associação Brasileira de Escalada Esportiva e técnico da seleção brasileira Juvenil. Amanda passou a integrar a seleção juvenil em 2022, auxiliada por Gouveia, para alcançar seus objetivos, junto com a equipe multidisciplinar que a acompanha. “Por se tratar de uma atleta jovem os planos são sempre a longo prazo e organizados. Ela tem um grande futuro pela frente, mas ainda estamos longe do objetivo. Com paciência e perseverança chegará lá!” declara o treinador. 

Além das opções naturais, o Rio Grande do Sul também viu um crescimento nas estruturas de escalada artificial. Ginásios e centros de escalada foram construídos em cidades como Porto Alegre, Caxias do Sul e Santa Maria, oferecendo aos escaladores um ambiente seguro para treinamento e competições.

Amanda durante o campeonato da UBT, em 2022 (Arquivo pessoal/Amanda Criscuoli)

MEDO E PERSISTÊNCIA

A jovem atleta afirma que o mais difícil na escalada é a parte psicológica, sendo necessário ter resiliência e persistência. “Na escalada também tem a questão do medo. Quando envolve vias altas, principalmente na rocha, é uma coisa que te desafia, né? Tem gente que tem medo de altura. Eu nunca tive esse medo, mas é porque eu cresci nesse ambiente também”, declara Amanda. 

Com uma paisagem natural diversificada e uma comunidade apaixonada, o estado está se consolidando como um destino de escalada imperdível no Brasil. À medida que mais pessoas se aventuram nas alturas, o Rio Grande do Sul prova que as melhores vistas estão reservadas para aqueles que ousam subir cada vez mais alto. 

Acompanhe as redes da Amanda em @AmandaCriscuoli no Instagram e YouTube ou pelo site www.amanda.esp.br  

Por: Petra Karenina