Sistema de escrita e leitura tátil promove integração social e independência no mercado de trabalho e dia a dia

No dia 8 de abril é celebrado o Dia Nacional do Sistema Braille. A data, instituída pela Lei nº 12.266/2010, enfatiza a importância do sistema de leitura e a sua presença em ambientes públicos, educacionais e de saúde, garantindo o pleno acesso aos direitos das pessoas cegas e com baixa visão.

A capital gaúcha, Porto Alegre, é a casa da Associação de Pessoas Cegas e com Baixa Visão do Rio Grande do Sul (ACERGS), localizada no Centro Histórico e fundada em 20 de outubro de 1967. A entidade beneficente atua na habilitação, reabilitação e inclusão de pessoas com deficiência visual na sociedade e no mercado de trabalho.

O vice-presidente da ACERGS, Gilberto Kemer, de 49 anos, destaca que a data é essencial para dar visibilidade à causa. “Como pessoa com deficiência visual, considero o Sistema Braille fundamental, mas não tão acessível, devido ao seu alto custo. A data salienta a necessidade da democratização do ensino do Braille, principalmente, para crianças e adolescentes no início de sua formação educacional. É a nossa escrita, portanto, é inconcebível que um cego não saiba o Braille. É como o brasileiro não falar português, um surdo não saber Libras ou um jogador de vôlei não saber sacar”, exemplifica. Gilberto também enfatiza a importância da data para lembrar e fazer justiça a José Álvares de Azevedo, o primeiro professor cego brasileiro e responsável pela introdução do Sistema Braille no país.

Para a docente aposentada Marilena Assis, de 61 anos, o Braille sempre teve um papel fundamental em sua vida. Como uma pessoa com deficiência visual, sempre esteve ligada à causa da inclusão, e, atualmente, colabora em espaços educacionais e na ACERGS, onde atua como coordenadora do setor Braille. “A importância do Sistema Braille é indiscutível, pois é o único código tátil usado para leitura e proporciona, principalmente, no processo de alfabetização, o conhecimento da grafia das palavras, da pontuação, da diagramação do texto, possibilitando o ir e vir com os dedos sobre a obra, assim desenvolvendo maior capacidade de interpretação e raciocínio”, explica.

Mãos de um homem sentindo as letras em Braille impressas em uma folha de papel sobre uma mesa de madeira (Foto: Marilena Assis/ACERGS)

Os desafios e avanços na acessibilidade

Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia afirmam que existem mais de 1,5 milhão de pessoas cegas no país. Porém, a acessibilidade ainda é uma questão a ser tratada. 

Marta Benício de Almeida Brizola, de 50 anos, é formada em Economia e trabalhou anos como concursada nos Correios, em uma vaga para pessoas com deficiência. “Quando comecei a trabalhar nos Correios, não havia acessibilidade, mas através de um processo de intervenção do Ministério do Trabalho foi feita uma ‘gambiarra’ para que eu pudesse desenvolver as atividades, mesmo sem as ferramentas adequadas”, conta. 

Entretanto, em 2020, Marta enfrentou uma situação de assédio moral no trabalho, onde seu desempenho na vaga foi contestado. Diante da falta de recursos e acessibilidade adequada para realizar suas tarefas, ela decidiu buscar ajuda na ACERGS, que já havia frequentado, e se matriculou no curso de Tecnologia Assistiva. “Eu me defendi, pois apesar das dificuldades, sempre cumpri minhas atribuições. Foi então que recorri à ACERGS para fazer o curso de Tecnologia Assistiva, utilizando o celular e computador para otimizar minhas ações no trabalho”, relata. Mesmo após sua aposentadoria, Marta continua participando de cursos e oficinas na associação, fortalecendo sua independência e habilidades.

Assim como no mercado de trabalho, o Braille é essencial para o dia a dia de uma pessoa cega ou com baixa visão. “Pequenas ações fazem toda a diferença, como a inclusão do Braille em embalagens, cardápios e sinalizações. A presença dessas identificações em placas, portas e elevadores facilita nossa independência no dia a dia”, ressalta a coordenadora do setor Braille, Marilena. 

Além do Braille, o vice-presidente Gilberto destaca o surgimento de diversos recursos tecnológicos para promover a inclusão de pessoas com deficiência visual na sociedade. “Com a tecnologia, diversos novos recursos surgiram para auxiliar na inclusão de pessoas cegas ou com baixa visão na sociedade, como os leitores de tela NVDA, Jaws e Virtual Vision. Mas o Braille continua sendo a principal ferramenta de inclusão em conjunto com a assistência da bengala ou do cão guia para deficientes visuais”, informa.

O aprendizado além da visão

Através do Programa de Reabilitação, a ACERGS oferece diversas oficinas, entre elas a do Sistema Braille, gratuita para usuários do programa, familiares e colaboradores. Os cursos são ministrados por profissionais remunerados, por meio de projetos financiados pela Prefeitura de Porto Alegre, emendas parlamentares, doações de renúncia fiscal do Imposto de Renda destinadas para projetos específicos via Comui (Conselho Municipal do Idoso), outras doações ou por voluntários. São ofertadas, também, aulas gratuitas para a comunidade em geral na modalidade presencial ou on-line com certa frequência. 

Materiais didáticos utilizados nas oficinas de Braille espalhados sobre uma mesa. (Foto: Reprodução do Instagram @acergs_associacaodecegosrs)

A docente Marilena explica que a oficina do Sistema Braille é dividida em duas partes: Pré-Braille e Braille. “Na primeira parte é trabalhado desenvolvimento tátil, psicomotor, orientação e mobilidade, noção espacial, lateralidade, isso com objetos utilizados na oficina, a saber: celas Braille ampliadas, confeccionadas com sucatas”. Ela ainda destaca que o Braille deve ser apresentado de forma lúdica e com celas formadas com objetos ampliados. “Conforme vai ocorrendo o desenvolvimento são ofertados recursos menores, até chegar no ponto Braille padrão”, instrui.

Além disso, a associação oferece o serviço de produção Braille, que adapta materiais para o acesso de deficientes visuais – o serviço é cobrado, por ter um elevado custo.

“O serviço de produção Braille é importante para que pessoas com deficiência tenham acesso a todos os tipos de materiais, como cartões de visita, livros, placas de identificação e certificados”, diz a transcritora Braille Elaine Antonia do Nascimento, de 49 anos, que nasceu com glaucoma e é cega total. Sobre o processo de produção, Elaine conta que geralmente é baseado na impressão, revisão, paginação e encadernação. “O processo é mais demorado apenas quando entram produções muito grandes, como a de livros”, acrescenta.

Participe e apoie

Para participar ou apoiar a Associação de Pessoas Cegas e com Baixa Visão do Rio Grande do Sul (ACERGS), basta entrar em contato pelo WhatsApp: (51) 3225-3816 ou pelas redes sociais, como Facebook e Instagram, ou ainda pelo e-mail: acergs@acergs.org.br. A sede administrativa e o Centro de Reabilitação encontram-se na Rua Vigário José Inácio, 433, 6º andar, Centro Histórico.