A resposta pode estar além do rompimento de diques que protegiam a região de Canoas

Em maio de 2024, o Brasil se chocou com uma das maiores crises climáticas já registradas no estado. Canoas aparece em terceiro lugar no ranking das cidades mais atingidas pela catástrofe.  Segundo dados do censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município é composto por 347.657 habitantes. Na tragédia, aproximadamente 44% da população, ou 152.852 pessoas foram afetadas. O bairro Mathias Velho, o mais populoso da cidade, com mais de 48 mil habitantes, foi uma das localidades mais atingidas pelas enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul. 

Mas o doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, Roberlaine Ribeiro Jorge, enfatiza que o problema não se resume ao volume de chuva elevado. “A causa imediata das enchentes decorre dos altos índices pluviométricos, que resultam no transbordamento de rios, lagoas, córregos, diques e barragens. Além das causas naturais, a ocupação desordenada do solo, o desmatamento e a impermeabilização das áreas urbanas agravam a situação, tornando as cidades mais vulneráveis às inundações”, garante o engenheiro agrícola. Além disso, a má gestão de recursos naturais, e a falta de projetos sustentáveis e práticas de prevenção agravaram ainda mais o quadro.

“Um excelente lugar para se morar”

Várias embarcações, públicas e privadas, foram utilizadas para fazer o resgate da população de Canoas. Foto: Bruna Ouriques/Prefeitura de Canoas

Há mais de quatro décadas a moradora do bairro Mathias Velho, Cecília Daros da Silva, 54, descreve a região como “um bairro com toda a infraestrutura que atende todas as necessidades, um excelente lugar para se morar, com terrenos grandes, em média 500 m² cada, vizinhança tranquila, solícita, unida”.

Mas ela e a família foram resgatados por equipes que prestaram socorro com barcos durante a enchente que cobriu os tetos das casas. A empreendedora do ramo educacional dá aulas à distância, mora com o marido e dois filhos adolescentes. Todos foram abrigados em São Leopoldo por três dias, e depois, acolhidos pela outra filha que mora em Nova Santa Rita . “Foi um momento de muita angústia, insegurança e medo, parecia um filme de terror”, desabafa.

Cecília afirma que além das perdas físicas, como o impacto nas finanças pessoais e empresariais, as questões psicológicas têm sido mais difíceis de enfrentar. “No início, o desconforto maior foi o de termos que sair às pressas da nossa casa. Ficarmos sem um lar. Mas, depois de alguns dias, o fato de termos perdido tudo o que levamos décadas para conquistar, nos fragilizou muito. Além de não sabermos o que esperar depois de tudo o que aconteceu”, lamenta.

Familiares e amigos se uniram para fazer a faxina pesada e calcular os prejuízos que a enchente deixou na casa de moradora do bairro Mathias Velho. Foto: Cecília Daros da Silva/ Arquivo Pessoal

O eletricista mecânico aposentado, Pedro Prestes de Medeiros, 77, nascido em Santa Catarina, reside em Canoas desde 1965. O filho, Júlio de Medeiros, 57, divorciado, foi morar com o pai para lhe fazer companhia após a morte de sua mãe. Pedro garante que nunca viu nada igual, em 59 anos de moradia. “Vivo na Mathias há muitos anos e nunca havia entrado água na minha casa. Estou aterrorizado com o que eu vi e vivi nessas últimas semanas”, enfatiza.

Ele também faz elogios a localização do bairro por ser próximo do centro, ser um lugar de boa convivência, vizinhança unida, acesso à comércios e posto de saúde. O mecânico mora no primeiro andar de uma casa de dois pisos. No andar de baixo, onde ele e o filho Júlio moram, a água ultrapassou a altura das janelas. No andar de cima, o neto, Juliano de Medeiros, 31 anos, vive há dois anos com a esposa e o enteado. Mesmo a água não alcançando o andar da sua moradia, Juliano perdeu a motocicleta que utilizava para trabalhar.

A celebração de aniversário da esposa de Juliano, no início de junho, precisou ser simples e na casa de uma tia que não foi diretamente atingida. Foto: Juliano Medeiros/ Arquivo Pessoal

Canoas é referência nacional em resiliência climática

Recentemente, os técnicos do governo do estado, como forma de oferecer à população uma visão mais abrangente do acontecido em 2024, desenvolveram o Mapa Único do Plano Rio Grande (MUP), que combina dados para criar uma imagem detalhada da tragédia e otimizar, através de imagens de satélite, o direcionamento de políticas públicas e auxílio para áreas mais afetadas.

Mas antes disso, a cidade de Canoas ficou conhecida por inovar na criação de um escritório para tratar de pautas climáticas, políticas de prevenção, observação do comportamento do tempo e também para criar projetos visando minimizar os efeitos das mudanças climáticas. A atuação do escritório já foi citada em outra matéria da Beta Redação.

Entretanto, a pasta específica na gestão municipal não foi o suficiente para minimizar a tragédia em Canoas. O ex-prefeito de Porto Alegre, José Alberto Fortunati, 68, assumiu como secretário-chefe do escritório no dia 3 de abril deste ano. Em entrevista à Beta Redação, falou sobre como a nova coordenação organizou a pasta.

Fortunati explicou que o Escritório de Resiliência Climática (ECLIMA) opera como um tripé de funções. Cada um dos três grupos tem uma diretoria própria: o primeiro trabalha no acompanhamento e monitoramento do clima, feito através do site e institutos de meteorologia; o segundo, cuida da parte de planejamento de projetos para melhorar a questão de resiliência da cidade e dos efeitos climáticos. Por fim, o terceiro, da Defesa Civil, atua após alguma tragédia para prestar socorro às pessoas.

“Já prevíamos, obviamente, chuvas intensas para o período de maio, mas não nos parâmetros que elas aconteceram. Em termos de projetos o escritório já vinha trabalhando para construir um trecho com dique que não existe ainda em Canoas, que fica no bairro Mato Grande. Então vamos trabalhar no reforço dos diques existentes do bairro Rio Branco e da Mathias Velho”, garante Fortunati.

O secretário-chefe trouxe os dados oficiais que a gestão municipal e o escritório conseguiram levantar. “Só nos abrigos oficiais da prefeitura, nós tivemos mais de 26 mil pessoas, fora aquelas acolhidas em abrigos informais. Criamos um canal digital de informação, um aplicativo, onde as pessoas puderam falar onde estavam. Foram mais de 80 mil habitantes que estavam acomodados do lado leste da cidade, que não foi atingido, em pequenas igrejas, nas casas de amigos e parentes, e outros locais alternativos”, conta.

Depois da tragédia, orçamento do escritório aumenta em 100 vezes

Após a calamidade o ECLIMA assumiu, em caráter emergencial,  funções que antes pertenciam a outras pastas como a da limpeza urbana e da assistência social. “Nós tínhamos um orçamento extremamente pequeno, de R$ 2 milhões. Hoje temos um dos maiores orçamentos da prefeitura, mais de R$ 200 milhões”, pontua Fortunati.

Diante da ineficiência que culminou com a maior parte da cidade alagada, o secretário reconheceu o erro e anunciou novos projetos para um futuro próximo. “Compreendemos que os estudos que tínhamos ficaram ultrapassados, diante de tudo que aconteceu. Teremos que refazer nossas pesquisas e elevar, ainda mais, a altura dos nossos diques”, enfatiza. 

“Já estamos pensando e colocando em prática novos estudos e projetos, como o de ‘alarme’, mais eficiente para a população, para que ela fique melhor informada em situações de calamidade. Também estamos desenvolvendo um grande projeto junto com a Canoas Tec, empresa de tecnologia aqui do município, que está quase pronto, já vínhamos tratando disso desde que eu assumi, no início de abril”, diz Fortunati.

Sobre um futuro melhor, que a família de Cecília, Juliano e Pedro tanto esperam, o doutor Roberlaine Ribeiro afirma que ações de prevenção devem ser implementadas permanentemente. “É fundamental adotarmos medidas preventivas eficazes para minimizar os impactos das enchentes e evitar a sua reincidência”, pontua.

Ribeiro ressalta que, nos últimos anos, temos nos deparado com fenômenos climáticos sem precedentes e todos eles com efeitos extremamente danosos. “No Rio Grande do Sul, estamos enfrentando a maior enchente de toda a história. Mas, se nada for feito, seguramente outras virão”, finaliza o especialista.