Em entrevista à Beta Redação, a historiadora, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, revisita a trajetória do revolucionário, nascido há 125 anos

Em entrevista exclusiva à Beta Redação, Anita Leocádia Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benário, revisitou a vida política do revolucionário brasileiro, que nasceu há 125 anos, e analisou os desdobramentos políticos do país, que contaram com a participação de Prestes e do movimento comunista brasileiro. Autora de mais de 10 livros, sendo um deles uma biografia de Prestes intitulada “Luiz Carlos Prestes: um Comunista Brasileiro”, publicado em 2015, Anita reforçou seu compromisso com a evidência histórica para apresentar às novas gerações a história de uma das figuras mais emblemáticas da política brasileira. “O que eu fiz foi uma biografia política dele, abordando os principais aspectos da vida dele”, diz a historiadora.

O Cavaleiro da Esperança

Luiz Carlos Prestes em 1945, pouco antes de assumir o cargo de senador, que exerceu até 1948, quando teve o mandato cassado, fazendo-o retornar à clandestinidade. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/EBC Brasil

Nascido em 3 de janeiro de 1898 em Porto Alegre, Prestes era um dos cinco filhos do capitão de engenharia do Exército Antônio Pereira Prestes e da professora Maria Leocádia Felizardo Prestes. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos 5 anos de idade. Aos 18, ingressou na Escola Militar de Realengo, formando-se no mesmo cargo exercido pelo pai.

Em 1924, no período das revoltas tenentistas, diretamente do noroeste do Rio Grande do Sul, marchou para o Paraná junto dos aliados que possuía, sendo o movimento que deu os primeiros passos na formação da Coluna Prestes. Opondo-se ao governo de Arthur Bernardo, mas sem um horizonte revolucionário até então, o objetivo da Coluna, de imediato, foi difuso. Entretanto, a experiência forneceu a Prestes e aos demais integrantes um maior conhecimento sobre a situação de miséria dos trabalhadores rurais do Brasil. 

Na época, o governo fazia uma árdua propaganda em oposição ao movimento. Contudo, conforme a Coluna se tornava conhecida, começou a ser bem recebida durante as suas passagens pelo país, sobretudo no nordeste. “Isso acontecia por ser um movimento de oposição ao governo, e o próprio Prestes falava que quando sabiam que eram contra o governo, os apoiavam”, comenta Anita.  

Por vezes nomeado como “Cavaleiro da Esperança”, foi um opositor combativo ao fascismo nacional e internacional e defendeu um projeto político para o Brasil que rompesse com as classes dominantes. Prestes tornou-se símbolo do movimento comunista brasileiro, sendo secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por 37 anos, com boa parte da atuação política sendo feita na clandestinidade e fora do país devido a repressão e perseguição política dos governos que se opôs. A partir de 1980, ao escrever a “Carta aos Comunistas” e sair do PCB, Prestes passou a viajar pelo Brasil participando de eventos com estudantes em universidades até 1990, quando faleceu aos 92 anos.

Atualmente, com a ascensão do neofascismo, o legado político de Luiz Carlos Prestes mantém-se alvo de falsificações. Em maio deste ano, o Memorial Luiz Carlos Prestes, localizado em Porto Alegre, entrou na mira dos ataques da extrema-direita.

Confira, a seguir, a entrevista com Anita Prestes.

Como surgiu o apelido de Cavaleiro da Esperança?

Há muita gente que acredita que o codinome Cavaleiro da Esperança foi uma criação do Jorge Amado, que utilizou no título de um livro sobre Prestes. Entretanto, ele utilizou algo que já existia e o apelido não surgiu durante a Coluna Prestes. A Coluna só se tornou conhecida depois de seu fim. Durante sua circulação o nome de Prestes não era mencionado nela, tampouco o apelido de Cavaleiro da Esperança, embora ele tivesse muito prestígio entre os militares. Na época, a imprensa só falava mal da Coluna e do Prestes. Era o tempo todo uma campanha contra o movimento. Entretanto, havia alguns deputados no Rio de Janeiro, capital do país na época, que faziam discursos e propagandas sobre a Coluna. Em 1925, surgiu o jornal O Globo, que de primeira ficou a favor do movimento. Havia um deputado do Rio Grande do Sul, chamado João Batista Luzardo, que publicava os artigos de Prestes no O Globo, e isso difundiu um pouco o seu movimento. Tempos depois, quando a Coluna chegou na Bolívia, muitos jornalistas foram para lá falar com os militares envolvidos nela, principalmente o Prestes, que já era o mais conhecido. Se tu pegar jornais da época, principalmente do Assis Chateaubriand, vai ver reportagens enormes, com páginas e páginas de fotografia, que continham entrevistas com o pessoal da Coluna, principalmente Prestes. Em 3 de janeiro de 1928, o jornal À Esquerda, uma iniciativa de Astrojildo Pereira, que era secretário-geral do PCB e que foi nos últimos dias de 1927 para a Bolívia conversar com Prestes e levar alguns livros marxistas, publicou um artigo nomeando-o como Cavaleiro da Esperança. Isso empolgava a população urbana, as chamadas camadas médias urbanas, que estavam crescendo e estavam profundamente insatisfeitas com os domínios das oligarquias do período Café com Leite. O Prestes se tornou o Cavaleiro da Esperança não para as massas do interior, por onde a Coluna passou, mas sim para as populações urbanas, principalmente do Rio de Janeiro. Então, ele passa a ser o Cavaleiro da Esperança a partir de 1928. A Coluna terminou, em fevereiro de 1927, no governo de Washington Luís, que já deu uma certa abertura, acabando com a censura da imprensa e com o Estado de Sítio.

Astrojildo Pereira foi um dos principais articuladores da fundação do Partido Comunista Brasileiro em 1922. Foto: Reprodução/HH Magazine

Então o objetivo da Coluna Prestes era adentrar o interior do país e ter conhecimento direto das contradições do país?

Não exatamente. O objetivo da Coluna, de início, foi disperso, pois foi tudo improvisado. Não se sabia muito o que iria ser feito. Os tenentes eram muito desorganizados. No Paraná, por exemplo, foram atacados pelas tropas do general Rondon, que era um militar governista. A Coluna tinha apenas 1.500 pessoas e, para não serem derrotados ali, atravessaram o rio Paraná, chegando ao Paraguai. Depois adentraram o Mato Grosso e a partir daí circularam pelo interior do Brasil, que na época era só mato praticamente, abrindo passagem com uma foice. Então, a ideia deles era atrair as tropas governistas para o interior, para combatê-los através de uma guerra entre movimentos. Essa ideia de não parar, para que não fossem derrotados, era do Prestes. Eles eram poucos e mal tinham armamento, com a munição que tinham sendo obtida dos inimigos. O objetivo, em última instância, era marchar até o Rio de Janeiro, mas de cara viram que não tinha como. Com isso, a ideia volta-se para propiciar uma revolta por parte dos tenentes das principais cidades litorâneas do país, para daí iniciar um movimento para derrubar o governo do Arthur Bernardes e colocar no lugar alguém que cumprisse com a Constituição da época. Primeiro escolheram o Nilo Peçanha, que morreu em 1924, depois o José Francisco de Assis Brasil, que era um estancieiro do Rio Grande do Sul. Contudo, os outros movimentos tenentistas que se formaram na época foram derrotados. O único movimento tenentista que não foi derrotado foi a Coluna Prestes, que passou por 53 combates. A ideia é que as tropas governistas não tivessem força para barrar o movimento na região litorânea, mas tiveram. Os movimentos foram débeis, muito mal organizados. Como disse o escrivão da Coluna Prestes, Lourenço Moreira Lima: “não vencemos, mas não fomos vencidos”.

Tempos depois ele tentou organizar uma revolta militar que foi suprimida pelo governo na época?

Isso foi em março de 1935 e, na verdade, não partiu dele. Esse movimento foi a Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma grande frente que surgiu no Brasil e que englobava socialistas, comunistas, militares, principalmente os de baixa patente, sindicatos etc. Era um movimento que tinha como objetivo lutar contra o Integralismo, que havia surgido em 1932, e o fascismo, que estava crescendo no Brasil e na Europa. Havia também as palavras de ordem para acabar com o latifúndio e combater o imperialismo. Esse não era um objetivo comunista, mas sim progressista. 

A ANL cresceu muito, com os núcleos da frente se proliferando por todo o Brasil. Quando chegou julho de 1935, Getúlio Vargas proibiu a frente, temendo o seu crescimento. É muito interessante como esse movimento, que era de frente única, segundo os registros que temos, contou com o envolvimento de mais de 100 mil pessoas. O integralismo mobilizou muito mais, mas a ANL, com esse programa progressista, engajou bastante gente também. O Prestes, que estava em Moscou, chegou ao Brasil em abril de 1935 querendo participar do movimento antifascista. Ele se torna presidente de honra da ANL, tendo de se manter clandestino devido à ordem de prisão decretada por Vargas, por ser considerado um desertor do exército. 

Em 1924, pouco antes da Coluna, ele se demitiu do exército. Chegou a se demitir duas vezes, e foi expulso em outra. Em 1930 foi contemplado com a anistia, mas Vargas resolveu torná-lo desertor para que, caso ele retornasse ao Brasil, fosse preso. Por isso a Olga Benário, minha mãe, veio junto para cuidar da segurança dele a pedido da Internacional Comunista. Aqui no Brasil foi cometido um erro de análise de conjuntura, por Prestes e pelos aliancistas, que achavam que aquela movimentação seria suficiente para criar uma situação revolucionária e depor  Vargas, que acabou com o movimento nos quartéis em 24 horas. Prestes, mais tarde, reconheceu o erro, pois o presidente tinha muita força ainda. O Brasil já tinha saído da crise e estava se recuperando, então a insatisfação que havia antes não tinha mais a mesma força. Isso se deu por problemas na comunicação, afinal Prestes ficou 10 anos fora do país, e recebia informações do PCB sobre a conjuntura do Brasil que não estavam corretas. Vale ressaltar também as limitações dos sistemas de comunicação da época também.

Há a foto do Prestes ao lado do Vargas que foi e é utilizada para reescrever a história do seu pai. Entretanto, é fato que o Prestes via urgência em barrar o crescimento do fascismo.

Sim. Isso foi no período de 1943/1944, quando Vargas percebeu que quem iria ganhar a Segunda Guerra não eram os países do Eixo, mas sim a União Soviética e os Aliados. Ele era muito hábil. Os Estados Unidos tinham muito interesse no apoio do Brasil. Havia pressão dos governos internacionais, principalmente o de Roosevelt. Havia também uma grande pressão interna, com grandes manifestações no país que demandavam a entrada do Brasil na guerra, e foi aí que Vargas se afastou do Terceiro Reich e se aproximou dos EUA e União Soviética. Depois disso, foi construída uma base aérea em Natal. A ala americanófila do governo começou a ganhar terreno. Após o ataque a Pearl Harbor em janeiro de 1942, houve uma conferência com os governos da América em que o Brasil já nessa ocasião rompeu relações com o Eixo. Poucos meses depois declara guerra. Diante disso, Prestes, em uma entrevista a um jornal argentino, declara que a posição do PCB era de apoio ao presidente. O Prestes dizia que não havia coisa mais importante do que derrotar o fascismo. E, neste processo, Getúlio mandou forças brasileiras para lutar na Itália, sendo o único país da região que lutou na Segunda Guerra. Então, diante destes fatos que o Prestes decidiu apoiar Vargas, somando forças para derrotar o fascismo. Porém, nessa época – 1943 a abril de 1945 – ele estava preso, sendo anistiado somente em abril de 1945. E essa foto tão falada, que dizem que demonstra uma proximidade entre Vargas e Prestes, é de 1947, durante um comício de um político de São Paulo, chamado Cirilo Júnior, na época candidato a vice-governador pelo PTB, partido do Vargas, e apoiado pelo PCB, que na época contava com a presença de Prestes. Entretanto, eles sequer se falaram e se cumprimentaram.

Uma coisa que quero relembrar também é que o anticomunismo no Brasil sempre foi muito forte. As classes dominantes do país nunca perdoaram Prestes, sobretudo em 1930, pelo fato de, ao invés de ter rompido e se recusado participar da revolução, ter ficado ao lado dos trabalhadores e dos comunistas. Essa decisão se tornou imperdoável para as oligarquias incidentes gaúchas, mineiras e da Paraíba, que contavam com o prestígio de Prestes para serem fortalecidas e chegaram a utilizar deste prestígio durante a campanha eleitoral da Aliança Liberal. O resultado é que essas classes dominantes nunca aceitaram o fato de ele ter se tornado comunista. Desde então, houve no Brasil uma grande campanha anticomunista de desmoralização, não só de Prestes, mas do comunistas. Agora então, nesses últimos anos, nem se fala. Então, devemos ter cuidado com as mentiras amplamente difundidas, como essa de proximidade entre Prestes e Getúlio.

Vargas e Prestes participaram de um comício do deputado por São Paulo Cirilo Júnior, que estava em campanha para o cargo de vice-governador. Foto: Memorial da Democracia

A gente observa que o anticomunismo é muito forte no Brasil. Observamos também uma grande ascensão do fascismo, não só no Brasil, mas no mundo. Se o Prestes estivesse aqui hoje, ele veria a mesma urgência em derrotar o fascismo?

Com certeza. Como, exatamente, eu não sei. Não posso falar por quem se foi. Mas existe uma série de mentiras e inverdades que são difundidas, tanto nos livros de história quanto na imprensa, inclusive sobre os fatos de 1943 e 1945, dentre outros também, que deturpam e falsificam a história da Coluna, do Prestes e do comunismo no Brasil. Eu, inclusive, estudo como a vida de Prestes e dos comunistas, em toda a sua atuação, é evidente o quanto foi falsificada. O movimento de 1935 que comentei foi contra o fascismo e chegou a ser batizado por desafetos de Prestes de “intentona”, com o objetivo de depreciar o movimento. Até hoje este termo é usado e eu me recuso a usar porque é depreciativo. A Aliança Nacional Libertadora era um movimento antifascista.

Essas movimentações de tentar depreciar a história do Prestes e dos comunistas me relembraram as ofensivas da extrema-direita contra o Memorial Luiz Carlos Prestes em Porto Alegre.

Foi um grupo de amigos do Prestes que conseguiu criar esse memorial que está lá de pé, resiste e que exerce um papel histórico. Ano que vem a Coluna completa 100 anos, e essas memórias não podem ser esquecidas. Ela começou em outubro de 1924, nascendo no noroeste do Rio Grande do Sul e marchando para o Paraná para se juntar aos companheiros paulistas cercados em Foz do Iguaçu. Contudo, quando a Coluna chegou lá, na medida que o pessoal de São Paulo não adotou a guerra de movimentos e estavam parados enfrentando as tropas governistas, o que sobrou estava desanimado com o prosseguimento da luta tenentista. Em uma reunião em Foz de Iguaçu que contou com a participação dos integrantes da Coluna Prestes, foi decidido que não deveriam parar, e aí entraram no Paraguai pelo Rio Paraná. O próprio general Rondon dizia que o Rio Paraná era uma barreira intransponível e eles atravessaram. Isso já foi uma vitória e tanto. A Coluna fez gestos heroicos impressionantes. Uma das falsificações históricas feitas é essa, de que a Coluna surgiu no Paraná.

Memorial Luiz Carlos Prestes se tornou alvo da extrema-direita em Porto Alegre. Foto: Eugenio Hansen, OFS/Wikimedia Commons

Dessas muitas empreitadas transformadoras do Prestes, há as que deram certo e as que deram errado. Como o Prestes lidava com a crítica e o exercício da autocrítica?

Ele ouvia, e quando se convencia de que fez algo errado, ou que o partido fez algo errado, ele não tinha problema em reconhecer. Há a famosa Carta aos Comunistas de 1980, que era uma crítica dirigida aos comunistas do PCB e marca a saída dele do partido. Se tem uma figura que exerce muito a crítica e a autocrítica, essa figura é o Prestes. Ele não era de reconhecer rapidamente, mas sempre se propôs a estudar as questões políticas e sociais. De 1971 a 1979, Prestes esteve em Moscou, em função da perseguição aos comunistas no período da Ditadura Militar, e lá ele estudou muito. Voltou a estudar os clássicos do marxismo e a realidade brasileira. Então com isso ele avançou muito naquele período e chegou à conclusão de que a orientação política do partido estava errada. Ele tentou convencer a direção do partido lá na Europa, mas não conseguiu. Aí, quando voltou ao Brasil em 1979, não tardou muito em romper com o PCB. Nos últimos 10 anos de vida viajou muito pelo Brasil, sendo convidado por universidades e estudantes, e sempre levantando as posições dele sobre o que achava justo para o Brasil, partindo da mesma pergunta: Como resolver os problemas do povo brasileiro? Foi isso que fez ele se empolgar com o marxismo e com o partido comunista.

Quando ele se tornou comunista, de 1928 a 1930, ao sair do cargo de tenente, ele sai do Brasil profundamente chocado com a situação do povo brasileiro. Ele dizia: “Nós, tenentes, das cidades, da capital, não tínhamos noção da miséria do interior do Brasil”. A miséria da população rural o impressionou muito. Ele entendeu que discurso liberal não resolvia nada e que o problema era social e demandava uma solução social. Some-se o fato do marxismo não ser ensinado no Brasil naquela época, muito menos nas escolas militares. Então ele, na Bolívia no início, com muita dificuldade, e depois em Buenos Aires, teve contatos com a literatura marxista. Na época o Brasil mal tinha livrarias, e os livros marxistas eram proibidos, circulavam clandestinamente.

Esse ímpeto transformador dele indica que outro Brasil é possível?

Sim, e que era necessário se organizar para fazer uma revolução e caminhar para o socialismo. Agora, como fazer, não é simples, demanda um conhecimento muito profundo. Isso ele reconhecia que não tinha, por mais que estudasse. O marxismo não se aprende da noite para o dia, pois exige muito estudo. As universidades brasileiras da época não eram muito versadas em pesquisa, sendo algo mais proeminente em meados de 1970, mas estamos falando de 1920 e 1930. Então, a ignorância sobre o Brasil era muito grande. E, diante disso, a tendência era copiar modelos de outros lugares, como o modelo soviético, chinês e cubano, que são realidades distintas da brasileira. Destaco também que conhecer profundamente o Brasil e o marxismo está faltando até hoje, e a partir disso, fazer uma proposta adequada para a transformação revolucionária no país, que ainda está para ser feita.

Poderia se aprofundar mais na entrada do Prestes no PCB? Na época os partidos comunistas tinham certa resistência a quadros considerados pequeno burgueses.

Exato. Desde 1929, lá em Buenos Aires, ele batia na porta do PCB pedindo para ser aceito. A Internacional Comunista, que foi criada por Lênin em 1919, contemplava todos os partidos comunistas. Lá havia consenso quanto às orientações políticas dadas para os partidos. Neste processo, Prestes foi repudiado de início por ambos porque, na época, estava muito presente no movimento comunista a chamada política obreirista, que se tratava de contar somente com os operários para a realização do movimento. Isso foi resultado da tentativa revolucionária na China, em 1927, que deu errado, em que os comunistas, por orientação da Internacional, se aliaram ao Chiang Kai-shek, e foram traídos. Depois disso, criou-se uma mentalidade no movimento comunista de que não se poderia contar com quadros pequeno-burgueses. O resultado disso é que vários intelectuais do PCB, como o Astrojildo Pereira, foram expulsos do partido. A questão é que os operários da época, mesmo com muita disposição de lutar, tinham muito desconhecimento sobre a conjuntura e a realidade brasileira. Se os intelectuais tinham dificuldades, os operários, então, ainda mais. Portanto, isso foi muito negativo. O Prestes era um pequeno-burguês e uma liderança da pequena burguesia, não dos operários. Achavam também que este prestígio poderia efervescer o PCB, mas havia muitos militantes que se entusiasmavam com ele. Entretanto, de modo geral, o PCB combatia o prestígio do Prestes. Contudo, ele, ainda que uma liderança pequeno-burguesa, estava disposto a participar do PCB e cumprir as normas do partido. Direto da capital do país do leste europeu, tentou várias vezes entrar no PCB. Em agosto de 1934, após as diversas tentativas de entrar no partido, os dirigentes da Internacional Comunista que cuidavam dos partidos da América Latina ficaram impressionados com Prestes e chegaram à conclusão de que ele era um revolucionário honesto, encaminhando uma ordem ao PCB para incluí-lo no partido. Ele voltou ao Brasil em 1935 como dirigente do partindo devido ao prestígio que tinha. Em março de 1936 muitos integrantes foram presos, incluindo ele. A reorganização do partido só ocorreu em 1943.

A senhora diria que o seu trabalho, enquanto historiadora, envolve essa importância de salvaguardar a memória política do Prestes?

Dentre muitas coisas, sim. Tenho mais de 10 livros publicados, não só sobre o Prestes, mas sobre a Coluna, o tenentismo, o PCB, a Aliança Nacional Libertadora, dentre outros temas. A biografia que escrevi sobre o Prestes foi o resultado de 30 anos de pesquisa. A vida dele foi muito longa e com grande participação na política brasileira e mundial. Por isso mesmo, eu fui por partes, publicando vários livros. O meu trabalho tem o sentido de trazer a versão mais verídica possível, não a verdade absoluta, pois podemos descobrir documentos que alteram aquilo que havíamos tido como certo, e isso é normal para o historiador. Eu trabalho com variados tipos de documentos, me permitindo chegar ao que o grande historiador marxista inglês Eric Hobsbawn dizia: “O historiador deve ter compromisso com a evidência”. Esta é uma concepção materialista da história e dos fenômenos sociais. Para mim, esta lógica se perde muito com a crise do capitalismo e a difusão da ideologia liberal, da qual o autor escreve aquilo que quer, partindo da própria narrativa. Não há compromisso com a evidência. Eu busco fazer diferente, realizando um trabalho de história que procura ter esse comprometimento, para que os jovens que têm interesse na história do Prestes e dos comunistas no Brasil possam ter conhecimento sobre estes assuntos. Também tem o fato de eu ser muito sabotada. Hoje menos, mas ainda acontece. Nos últimos anos comecei a ficar um pouco mais conhecida. Porém, muitos historiadores ainda escrevem sobre assuntos que estudei e não me citam, o que considero errado. O historiador deve colocar na biografia do assunto as referências que gosta e que não gosta. Pode se opor, mas tem que citar.

Isso que você sofre está incluído nas ofensivas realizadas contra a sua família?

Sim. A intenção é falsificar a história do Prestes, da Olga Benário e dos comunistas, que tem muita potência. Nos últimos tempos, com esse avanço do fascismo, isso acontece com ainda mais força. A gente tem que considerar isso e procurar deixar uma obra que possa contribuir com quem tenha interesse em saber mais informações sobre essas histórias.

Eu falei aqui uma pequena parte do que é importante. Fique à vontade para procurar os meus livros para se informar mais, para também não ser preso pelo anticomunismo, que segue muito forte ainda.