Conheça os bastidores do projeto que, em cinco anos, reabriu o departamento de futebol feminino do Juventude e o levou à primeira divisão do Campeonato Brasileiro (Foto: Nathan Bizotto / EC Juventude)
No dia 17 de maio de 2021, o Esporte Clube Juventude anunciou a abertura do processo de reativação do seu departamento de futebol feminino. Inicialmente, seria formada apenas uma equipe sub-18, visando a disputa do Campeonato Brasileiro da categoria (realizado entre julho e outubro daquele ano). A campanha ruim das ‘Esmeraldas’ na competição em questão — apenas um ponto conquistado em seis partidas — não ofuscava, entretanto, a importância daquele movimento para o desenvolvimento de um projeto que, com o passar do tempo, se mostrou ambicioso.
Hoje em dia, menos de cinco anos depois do pontapé inicial, o Juventude já possui um elenco feminino profissional disputando a principal divisão do futebol brasileiro. A vaga na elite, por sinal, foi obtida após dois acessos consecutivos — da Série A3 em 2023 para a Série A1 em 2025. Nesta última temporada, o clube de Caxias do Sul também alcançou a grande decisão do Campeonato Gaúcho, feito este que interrompeu uma hegemonia que já perdurava por oito anos — de 2017 a 2024, somente a dupla GreNal marcou presença na final estadual.
Com cerca de 30 jogadoras no plantel e uma comissão técnica chefiada pelo treinador Luciano Brandalise — o “Branda”, que está à frente do cargo desde março de 2022 — o Juventude vê seu espaço na modalidade se consolidando cada vez mais. Perguntado sobre ao que atribui o sucesso ‘jaconero’ na categoria, o presidente da instituição, Fábio Pizzamiglio, foi objetivo na resposta: “Desde que a Renata [Armiliato] assumiu, só tivemos bons resultados. Então é principalmente pelo trabalho dela”.
Da reconstrução ao protagonismo
Renata Armiliato tem 41 anos. Natural de Caxias do Sul, ela é formada em Arquitetura e Urbanismo e coordena o departamento feminino do Juventude desde 2022. Antes de assumir a pasta, foi jogadora de futebol e futsal, tendo atuado na posição de goleira por mais de 15 anos. Como atleta, ela inclusive teve uma passagem pelo elenco das Esmeraldas no início dos anos 2000. “Era um cenário completamente diferente do que é hoje. A gente não recebia por isso. Era amor à camisa e ao esporte”, relembra.
A primeira repartição de futebol feminino do Juventude foi aberta em 1998 — 85 anos depois da fundação do clube, que ocorreu em 1913. “Não era nem um pouco profissional. O clube fornecia uma ajuda de custo para as gurias que vinham de fora e eu, como era daqui, não ganhava absolutamente nada”, afirma Renata. “A gente se prontificava a treinar nos finais de semana e nos era disponibilizado o básico, como alimentação, custos de viagem e vestimentas. O resto era tudo por conta de cada uma”, conclui a ex-goleira, que alega não se recordar de ninguém daquele time que se dedicasse exclusivamente ao esporte (todas tinham outras ocupações).
Mesmo diante das dificuldades, as Esmeraldas obtiveram resultados bastante expressivos naquela época. Entre 2004 e 2006, as meninas do Juventude conquistaram o Campeonato Gaúcho por três vezes consecutivas — sendo estas as primeiras oportunidades na história em que o título escapou dos clubes da capital. Ainda assim, por consequência de uma grave crise estrutural que culminou com uma série de rebaixamentos da equipe masculina (que chegou a figurar na última divisão nacional), o departamento feminino jaconero viu suas atividades serem encerradas no final da década de 2010.
Após o restabelecimento em 2021, Renata Armiliato — que parou de jogar em 2017 — foi contatada para integrar o projeto já no ano seguinte. Ela conta que o convite partiu por iniciativa de Francisco Rech, então diretor do clube. “Eu assumi o departamento praticamente zerado. Não tínhamos equipamento, não tínhamos local de treinamento… foi meio que no susto”, recorda. “Foi um desafio muito grande para mim. Ser jogadora e ser gestora são duas coisas completamente diferentes. Mas eu digo que a minha mentalidade de atleta me ajuda bastante na hora de tomar decisões”, pontua a coordenadora.
Profissionalismo como ponto de partida
Atualmente, o Juventude possui 100% do seu elenco feminino profissionalizado. Os treinamentos são diários e acontecem, geralmente, no campo da Sociedade Esportiva Recreativa Santa Lúcia, em Caxias do Sul. Na temporada 2025, os jogos realizados com o clube jaconero na condição de mandante foram sediados em três locais diferentes. Além do campo do SESI e do tradicional Estádio Alfredo Jaconi, que ficam em Caxias, também foram registradas partidas no Parque Esportivo Montanha dos Vinhedos — que pertence ao Esportivo, de Bento Gonçalves. Segundo Renata Armiliato, a escolha pela cidade vizinha se deu pelo fato de que este é o estádio mais próximo em condições de atender às exigências da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), visto que o Jaconi costuma ser preservado para os compromissos do time masculino.
Fora das quatro linhas, as Esmeraldas também contam com um amplo suporte multidisciplinar. “A gente oferece toda uma estrutura fisioterapêutica, médica e nutricional. Nós temos também um alojamento que abriga essas meninas, com apartamentos locados para elas. Hoje, a jogadora não tem custo nenhum para estar no Juventude”, assegura Renata. Outro fator interessante a ser destacado é a parceria selada pelo clube com a faculdade Uniftec, que oferece bolsas de estudo nos cursos técnicos e de graduação para as atletas jaconeras. “A gente trabalha muito isso com elas, sobre o quanto é preciso ter um plano B e, se necessário, até um C. A gente tenta colocar na cabeça delas o quanto a formação acadêmica é importante”, destaca a coordenadora.
Por fim, Renata Armiliato fala sobre os objetivos do departamento. “Nosso propósito é deixar o feminino cada vez mais consolidado, criando um ambiente propício para que as meninas queiram vir ao Juventude”, projeta. Além disso, a coordenadora reconhece o caráter formativo que o clube desempenha na carreira das atletas. “Sabemos o quão grande é o Juventude, mas ele é um time de passagem. Não somos um destino final. A gente capta garotas que queiram trabalhar e evoluir para, posteriormente, saírem e se afirmarem em clubes maiores”, admite. Vale destacar que, no final de 2024, o Juventude teve uma jogadora convocada para a Seleção Brasileira principal. Trata-se da goleira Cláudia Oliveira, à época com 22 anos, que hoje defende as cores do Fluminense (RJ).
O que dizem as atletas?
Mayara Baldasso tem 34 anos. Extremamente ligada às quadras, ela teve uma longa passagem pela Associação Carlos Barbosa de Futsal (ACBF), um dos times mais tradicionais da modalidade no país. Entretanto, ao deixar o clube, decidiu que era hora de viver novas experiências. “Eu senti que poderia me arriscar um pouquinho, sabe? E talvez reviver um sonho antigo que era o campo”, comenta. Por intermédio de Renata Armiliato — que foi sua companheira de equipe na ACBF — chegou ao Juventude em julho de 2023, tendo disputado o Campeonato Gaúcho daquele ano na posição de meio-campista.
Na época em que Mayara vestiu a camisa jaconera, o clube (que ainda não vivia o nível de desenvolvimento atual) havia recém conseguido o acesso para a Série A2 do Campeonato Brasileiro, após ter sido eliminado nas semifinais da A3 para o Mixto (MT) — que viria a ser campeão daquela competição. “Era treino todos os dias. Eles já estavam em uma linha bem profissional. De segunda a sábado a gente treinava e no domingo tinha jogo. Foi um período bem intenso”, afirma a ex-jogadora, que diz ter conciliado a rotina de treinamentos com outras ocupações paralelas. “Eu recebia uma ajuda de custo. Fui mais pela experiência mesmo. Não foi pelo lado financeiro”, completa. Além de dar aulas em duas academias, ela também conduzia um empreendimento próprio.
No Gauchão Feminino de 2023 (que contou com a participação de seis clubes), o Juventude foi terceiro colocado, atrás apenas de Grêmio e Internacional. “O nosso time prevaleceu muito no físico. Tinham equipes muito frágeis nesse sentido. E como a gente treinava diariamente, nossa parte física era bem desenvolvida”, aponta Mayara. “Durante a semana, treinávamos três dias no Santa Lúcia e dois no campo do Pedancino, que é mais retirado. Nas terças e quintas, antes do trabalho com bola, normalmente fazíamos uma parte na academia da Uniftec também”, relata.
De um modo geral, Mayara elogiou a estrutura do futebol feminino do Juventude na época em que esteve por lá. “Com relação ao que eu já enxerguei antes, em termos de organização, era bom. As atletas tinham um nível bacana. Os treinos variavam bastante e contavam com uma programação específica, então a gente ia vendo como era o trabalho. Ali foi legal também” declara. Entretanto, ela deixa certas ressalvas: “Algumas falhas de comunicação, né? Às vezes, o treino mudava de lugar em cima da hora, daí eu já estava naquele local e perdia o treinamento por conta disso. Eu também não tenho nenhum uniforme do Juventude, pois tive que devolver todos. Isso foi uma questão que me chamou atenção. Normalmente, quando vamos para as equipes, a gente fica com alguma coisa do material”, explica. Vale ressaltar que, hoje em dia, as Esmeraldas já podem ficar com seus artigos esportivos ao final da temporada.
A situação na atualidade
Mais de um ano depois de Mayara ter deixado o clube, outra atleta chegava em Caxias do Sul para reforçar o elenco jaconero. Atualmente com 26 anos, a também meio-campista Drielly Souza foi contratada junto ao Itabirito (MG), tendo sido anunciada em janeiro de 2025. “O projeto do Juventude sempre foi muito bom. Esse ano, eles iam disputar a elite do futebol brasileiro, então eu gostei da proposta e deu tudo certo para que eu pudesse vir para cá”, afirma a mineira, que é natural do município de João Monlevade. Ao longo da carreira, ela também acumula passagens por Ipatinga (MG), Operário de Várzea Grande (MT) e Mixto (MT) — onde foi campeã brasileira da Série A3 em 2023.
Perguntada sobre a situação atual do departamento feminino do Juventude, Drielly fez uma avaliação bastante positiva. “Sabemos que, nesse quesito, ainda não tem como comparar com o futebol masculino. Mas dentro de tudo o que pode ser oferecido para a gente, é uma estrutura muito boa, que tende a crescer cada vez mais com a visibilidade e com tudo o que está acontecendo no clube. Eu só tenho a agradecer”, menciona a jogadora, que em seu primeiro ano na equipe caxiense participou de 20 partidas e marcou um gol.
Em comparação a outros clubes que já defendeu ao longo da carreira, Drielly cita a valorização ao futebol feminino como um dos diferenciais do Juventude. “Uma coisa pela qual as meninas sempre brigavam era para jogarmos mais vezes no Alfredo Jaconi. Esse ano, a gente pôde fazer jogos importantes lá”, pontua. “Tem pessoas que já estão há quase cinco anos aqui, como a Beta e a Katriny, por exemplo. O próprio treinador e a Renata [Armiliato] são pessoas que vivenciaram muitas coisas no clube. Então poder dar essa felicidade para eles, e a gente viu isso no olhar deles, foi muito gratificante”, comenta a atleta sobre a temporada 2025 das Esmeraldas, que terminou com o vice-campeonato estadual e a permanência na Série A1 do Campeonato Brasileiro.
Os obstáculos da gestão
Quando Fábio Pizzamiglio assumiu a presidência do Juventude, em outubro de 2022, o futebol feminino jaconero ainda dava seus primeiros passos após a reabertura. O mandatário — que foi recentemente reeleito — elogiou a evolução apresentada pela pasta nos últimos anos. “Infelizmente, por conta dos nossos descensos e falta de orçamento, a gente acabou terminando com esse departamento no passado. Acho que já se fazia necessária essa retomada. No primeiro ano, a gente não foi tão bem, mas de 2022 para cá foram só alegrias”, destaca.
Entretanto, apesar dos bons resultados, Pizzamiglio comenta sobre os desafios da manutenção de uma equipe de futebol feminino profissional. “O maior problema está na obtenção de recursos. Temos uma dificuldade muito grande em conseguir patrocínios, então a gente sempre acaba tendo que fazer uma vinculação com o masculino”, relata. “A gente realmente pensa que as empresas poderiam utilizar mais esse foco, daqui a pouco nós vamos ter uma Copa do Mundo aqui no Brasil”, completa o presidente, que afirma que a maior parte da verba investida nas Esmeraldas vem justamente dos patrocinadores. Entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, a Copa do Mundo feminina será sediada em solo brasileiro, tendo o Rio Grande do Sul como um de seus estados anfitriões.
Sobre a importância de se investir na modalidade, Fábio Pizzamiglio ressalta a grandiosidade do futebol feminino na atualidade: “Isso até acabou tendo um certo atraso aqui no Brasil, mas depois a CBF começou a incentivar. Tem clubes que não acreditam, porém aqui no Juventude, sempre tivemos bons resultados”, ratifica. Ele conclui falando a respeito do futuro das Esmeraldas, o qual espera que seja ainda mais próspero. “Nós vemos uma evolução e esperamos que isso se concretize. Se possível, um título Gaúcho seria algo muito importante para essa direção. A gente sabe que a manutenção dos investimentos depende muito da série em que vamos nos encontrar no masculino também, mas se possível, gostaríamos de manter esse investimento que já é bem alto, para continuar a organização de toda a área do CT (Centro de Treinamento) que elas utilizam e evoluindo mais nessa área também”, finaliza.
