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O Brasil que não lê redescobre os livros nas redes sociais

Enquanto pesquisas indicam que brasileiros leem menos, influenciadores e comunidades literárias reinventam o hábito da leitura nas plataformas digitais.

O Brasil perdeu cerca de 7 milhões de leitores entre 2020 e 2024, segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. O levantamento, realizado pelo Instituto Pró-Livro (IPL) em parceria com o Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), revela uma mudança significativa nos hábitos de leitura dos brasileiros e aponta as plataformas digitais como novos espaços de mediação literária.

Desde o primeiro levantamento, em 2001, é a primeira vez que mais da metade da população brasileira (53%) não leu nenhum livro, impresso ou digital, nos três meses anteriores à pesquisa. O estudo aponta que apenas 20% dos indivíduos dedicam parte do seu tempo livre à leitura, enquanto 81% recorrem às plataformas digitais. Para a influenciadora literária Maria Eduarda Carl Gaboardi (@dudagabooks), a lógica da rapidez pesa nesse cenário: “Muitas vezes, o acesso a conteúdos rápidos e imediatos parece mais atraente do que dedicar horas a um livro”.

Algoritmo literário

Apesar do cenário negativo, a leitura encontra novos caminhos. Fenômenos como o BookTok, comunidade literária no TikTok, vêm redesenhando a forma como o público se relaciona com os livros.

A pesquisadora com pós-doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Carla Montuori Fernandes observa que há um movimento crescente de transposição do hábito de leitura para o ambiente digital, impulsionado por criadores de conteúdo literário. Segundo ela, a queda no número de leitores de livros físicos está diretamente relacionada ao uso intensivo das redes sociais, onde os booktokers apresentam obras de forma resumida e dinâmica, tornando o conteúdo mais atraente e acessível aos jovens.

“A migração do livro impresso para o digital é inevitável. Ela reflete a adaptação do leitor a novos meios e formatos de acesso à informação”, afirma Carla.

O BookTok se consolidou durante a pandemia de Covid-19, em 2020, e hoje soma mais de 60 milhões de vídeos e 2,5 bilhões de visualizações globais. A plataforma se tornou um espaço de troca entre leitores, autores e editoras. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, influenciadores literários são responsáveis por despertar o interesse inicial pela leitura em 22% dos casos, indicando que esse tipo de criação influencia o engajamento dos leitores.

Para Maria Eduarda, essa influência vai além das recomendações. A influenciadora destaca que as plataformas digitais como TikTok e Instagram não apenas incentivam a leitura, mas também constroem comunidades de leitores que se retroalimentam.

No entanto, nem tudo é positivo nesse novo ecossistema literário. O influenciador André Pimenta Mota (@Arboreoliterario) aponta que, embora as redes incentivem o hábito de ler, elas também tendem a homogeneizar o consumo literário.

A tendência de homogeneização do consumo literário também se reflete no mercado editorial. De acordo com a Lista Nielsen-PublishNews de Livros Mais Vendidos, publicada com apoio da Câmara Brasileira do Livro (CBL), que monitora as vendas no mercado brasileiro, há um desequilíbrio no consumo de literatura nacional e internacional. Na lista parcial anual, composta por 20 títulos, apenas seis são de autores brasileiros.

Sobre a presença de literatura nacional no BookTok, André frisa: “Percebo poucas indicações de autores brasileiros, a maioria das recomendações parece orbitar unicamente os autores gringos, principalmente dos Estados Unidos ou da Europa Ocidental”. Ele diz que isso se deve à exposição intensa a conteúdos internacionais, o que influencia o gosto do público. “Devemos valorizar os autores nacionais, pois o Brasil é palco de escritoras e escritores incríveis”, completa.

Leitura compartilhada

Em paralelo, a migração da leitura para o digital também trouxe novas formas de interação entre leitores. Durante a pandemia, clubes literários online se expandiram, oferecendo espaços para a discussão de livros e reunindo milhares de participantes em aplicativos de mensagens, fóruns e redes sociais.

Um exemplo é o The Obsessed Readers Society (A Sociedade dos Leitores Obcecados, em tradução livre), criado em 2024 por Laura Beatriz de Barros, 25 anos, Milleny Silva Bizarria, 25 anos, e Marina Armani Monteiro Silva, 24 anos. O grupo, que já conta com mais de 100 membros, sorteia um livro por mês e organiza discussões online ao fim de cada leitura.

“É muito bom ter com quem conversar sobre os livros, e isso enriquece ainda mais a leitura individual”, afirma Marina, uma das fundadoras.

A participante Beatriz Rabelo, 24 anos, afirma que o clube fez a leitura voltar a ser um lugar de conforto, e não apenas uma obrigação acadêmica. Maria Eduarda Martins, 20 anos, complementa: “O impacto do clube na minha vida é muito positivo, pois me motiva a ler mais e manter o hábito de leitura”.

Para as fundadoras, o maior valor desses espaços está na criação de vínculos. “Ler é uma atividade solitária, e isso é positivo, mas é importante ter com quem compartilhar depois”, declara Laura.

Entre quedas e reinvenções, o cenário da leitura no Brasil mostra que, embora o número de leitores tenha diminuído, a forma de ler e de se relacionar com os livros está apenas mudando de página.

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