Especialistas destacam a necessidade de olhar para os eventos climáticos, valorizar as periferias e as condições de empreender

Editor-geral: Paulo Albano

Com o objetivo de projetar o desenvolvimento econômico de Porto Alegre no próximo ano, a Beta Redação ouviu vozes que representam diferentes segmentos da capital dos gaúchos. Entre os entrevistados, estão representantes do poder público, entidades do setor privado e jornalistas que vivem o dia a dia da cidade. Eles analisam questões fundamentais para o bem-estar da população: emprego, empreendedorismo, urbanismo e meio ambiente, cultura e turismo.

Apesar de enxergarem esses temas através de pontos de vista diversos, todos possuem algo em comum: o interesse em pensar o avanço da capital e discutir o que estará em pauta na vida dos porto-alegrenses em 2024.

O olhar de jornalistas sobre o desenvolvimento da cidade

Editora: Paola De Bettio Tôrres

A revisão do Plano Diretor é um dos temas abordados por Bruna na coluna Pensar a Cidade (Foto: Isabelle Rieger)

Bruna Suptitz é jornalista e idealizadora do projeto Pensar a Cidade. Os conteúdos ali produzidos vão para a coluna de mesmo nome no Jornal do Comércio. Além disso, é apresentadora do programa BandNews Porto Alegre, na Rádio BandNews FM.  Ela afirma que percebe, através do arcabouço de informações que recebe cobrindo a cidade, que muito pode ser debatido sobre o desenvolvimento econômico, social e os investimentos que a capital tem recebido.

No entanto, o que tem chamado sua atenção é como a questão ambiental vem sendo negligenciada. Um dos motivos, segundo Bruna, é que muitas vezes as questões ambientais não são relacionadas com a economia e o desenvolvimento. A poda das árvores é um exemplo disso.

 “Acredito que essa é uma falha muito grande que está sendo cometida hoje pelo poder público, e que a médio e longo prazo terá impactos econômicos e sociais. Já que falamos das árvores, temos a questão da qualidade do ar e elas têm esse potencial de purificar o ar. É no ambiente urbano das cidades que se desenvolvem as principais doenças respiratórias.  São Paulo tem estudos a respeito sobre a maior incidência de câncer de pulmão ou de asma na população que vive naquele núcleo urbano, que é bastante poluído pelos gases emitidos pelos carros e o quanto a falta de árvores prejudica nesse sentido”.

Outra relação que pode ser feita é a climática, e mesmo a do microclima.  “A árvore vai ajudar a manter um clima mais fresco, vai refrescar e vai fazer ser mais agradável caminhar na rua. Esse é um impacto importante que é muito negligenciado pelo poder público. Eu sempre brinco: o que é tapar o buraco na rua? É uma necessidade de quem usa as ruas todos os dias, mas não é só isso que a gente tem que pensar. A gente tem que pensar naquilo que nos impacta em um prazo um pouquinho maior”. 

Tiago acredita que a cidade precisa estar mais atenta às mudanças climáticas (Foto: Geovana Benites)

Tiago Medina é jornalista, co-fundador e editor executivo da Matinal, plataforma de jornalismo independente de Porto Alegre que traz conteúdos locais exclusivos sobre desenvolvimento social e urbano, meio ambiente, política, cultura e identidade. Tiago também é mestrando em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pesquisa a linha “Cidade, Cultura e Política”, além de ser especialista em Jornalismo Digital. 

Com a visão de quem acompanha de perto os problemas de Porto Alegre, ele foi entrevistado pela Beta Redação para abordar a importância do planejamento urbano no desenvolvimento da capital gaúcha. Para ele, já estamos vivendo o tempo da ebulição global, e o El Niño presenciado em 2023 é um “cartão de visitas” dessas mudanças.

Tiago afirma que é imprescindível que os planejamentos urbanos atuem a partir de diretrizes mais ecológicas, em seus diferentes campos de atuação, uma vez que a população brasileira e mundial é majoritariamente residente de cidades. No entanto, acredita que ações promovidas pela Prefeitura de Porto Alegre vão na contramão dessas diretrizes.

“Atualmente, Porto Alegre está discutindo a revisão do seu Plano Diretor. Lamento ver esses pontos ecológicos deixados de lado em nome da construção de uma cidade que vise a “produtividade”. Penso que muito em breve seremos chamados, enquanto sociedade, a dar respostas ou arcar com as consequências de políticas assim. A bem da verdade, a cidade já vem demandando novas políticas urbanas, como nos alagamentos frequentes aos quais a população da região das ilhas é submetida”, comenta. 

Tiago ainda enfatiza que o processo de revisão do Plano Diretor tem sido muito marcado pela discussão quanto a altura dos prédios. “Gasta-se uma energia defendendo ou criticando a medida, que, como tudo, tem seus pontos positivos e negativos. Na minha opinião, no mínimo isso não deveria ser uma prioridade, por termos um estoque crescente de imóveis subutilizados e um problema grande de déficit habitacional. Ainda que esses dois pontos – como defendem seus entusiastas – não se relacionem por completo, creio que seria melhor equacionar esse problema antes de aplicar essa nova política de densidade urbana. Concordo que as imagens apresentadas destes projetos remetam a uma cidade aparentemente mais moderna, mas continuamos tendo problemas antigos a resolver”, argumenta.

PG aborda diariamente os temas da capital na Rádio Gaúcha, além de comentários na televisão e colunas escritas no digital. (Foto: Júlia Möller)

Paulo Germano é jornalista no Grupo RBS e divide-se em várias funções dentro da empresa, como a de radialista e colunista. O profissional é reconhecido por debater fatos da política da capital de maneira didática, ajudando os leitores na fiscalização das demandas públicas na região. 

PG, como também é conhecido, enxerga “duas Porto Alegre “: a da região central e a da parte periférica. Em relação à infraestrutura, especialmente em relação as obras da Orla do Guaíba e entorno, ele vê um futuro promissor. Afirmou que cada trecho está sendo beneficiado e pode oferecer atividades variadas. O trecho 1, por exemplo, é uma área mais dedicada à contemplação. O trecho 2 é onde fica o Anfiteatro Pôr-do-Sol e se pretende fazer ali um setor relacionado a eventos, enquanto o trecho 3 engloba uma área esportiva, com a maior pista de skate da América Latina e quadras esportivas.

Por outro lado, as regiões periféricas da cidade precisam ser olhadas com cuidado, segundo ele. PG pensa que essas regiões “são um desastre do ponto de vista cultural”, além de as pessoas terem uma qualidade de vida péssima.  Se por um lado, para uma parte da cidade ele vê desenvolvimento, para outra enxerga abandono, e, infelizmente, diz que não vê projetos concretos para modificar essa situação. Ele acredita que o seu papel, enquanto jornalista, é o de fiscalizar a cidade e entregar informação aos cidadãos.

“Eu exerço uma função onde tento analisar e interpretar o que ocorre na cidade e entregar isso para o público de forma mais acessível. Mostrar o que o governo está fazendo e o que isso pode representar na cidade, quais impactos isso pode ter economicamente, o que poderia ser diferente. Sob o meu ponto de vista, com as minhas possibilidades de interpretar. Tudo isso envolve as leituras que eu faço, os meus estudos, a minha visão de mundo”, explica.

PG entende que ainda falta para Porto Alegre, como uma capital, encontrar qual é a sua grande vocação. “As capitais têm as suas vocações muito bem exploradas. São Paulo é indústria. O Rio de Janeiro é turismo. Me parece que há uma possibilidade de Porto Alegre ser a capital da saúde no país. Nós temos hospitais muito bons, faculdades de medicina excelentes, pesquisadores que saem daqui e têm o seus trabalhos reconhecidos internacionalmente. Tem uma estrutura muito boa, muito acima da média quando a gente faz isso. Mas não é uma cidade que tem ainda se desenvolvido do ponto de vista de planejamento. Para um hub de saúde, e para ser uma referência mundial. Acho que falta isso, encontrar essa vocação, seguir ela e achar uma maneira de valorizar isso”, completa.

Diretores de produtoras da capital avaliam o cenário da cultura e do entretenimento gaúcho

  • Carlos Branco, diretor da Branco Produções 

A Branco Produções, criada por Carlos Branco em 1994, tem larga experiência na produção de shows e eventos na capital gaúcha. De 2001 a 2018, a empresa foi responsável pela curadoria e produção da programação musical do Santander Cultural, além de trazer atrações internacionais como B.B. King e Men at Work. No âmbito nacional, foram responsáveis por shows de Caetano Veloso, Simone e Djavan.

Carlos Branco (E) e Peter Schulze, diretor-artístico da Jazzahead, em evento musical na Alemanha. (Foto: Insa Stanke)
  • Rodrigo Machado, Sócio-diretor da Opinião Produtora 

Criada em 1992, a Opinião Produtora é reconhecida como um dos expoentes nacionais no setor de gerenciamento de espetáculos culturais, projetos e eventos empresariais. A empresa tem origem no Opinião, renomada casa de espetáculos porto-alegrense fundada em 1983. Foi responsável por grandes shows internacionais como Bob Dylan, Iron Maiden e Norah Jones. Atualmente a produtora é responsável pelo Auditório Araújo Vianna, inaugurado no ano de 1927 e remodelado na década de 1960 no atual endereço junto ao Parque da Redenção. No ano de 1997, foi tombado como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade de Porto Alegre, passando a ter a sua preservação garantida.

Rodrigo Machado (D) durante conversa com cantor Jorge Ben. (Foto: Reprodução/Instagram)

Qual a importância econômica do setor do entretenimento para a cidade de Porto Alegre?

Carlos: Acho que para o país todo tem uma importância enorme. Existem dados de que o setor de entretenimento responde por mais de 4% do PIB nacional atualmente, e emprega muito mais que outros setores, como setor automobilístico e de bebidas. O faturamento é maior que esses setores. Então, é, hoje, um setor muito importante, e a gente vê que Porto Alegre tem recebido vários eventos. Isso, além da questão cultural em si, traz retornos em termos econômicos, emprega muita gente, empregos diretos, área de produção, segurança, limpeza, técnica, empresas de som, transporte, hospedagem. Então, tudo isso é uma cadeia que gira, além de atrair não só pessoas relacionadas ao evento, mas também turistas, e isso gera transporte, alimentação, as pessoas vem e se hospedam. Ou seja, a economia gira muito, e aí é um setor muito importante. Esse setor é fundamental para uma cidade, porque responde muito forte na economia do Brasil. 

Rodrigo: O setor da cultura emprega cerca de 100 mil pessoas em todo o Rio Grande do Sul. A gente sabe que uma parcela significativa desses trabalhadores é de Porto Alegre, já que aqui é que se concentra boa parte da agenda de shows, espetáculos e eventos. O setor de cultura tem uma grande importância não pelos milhões de reais que movimenta, mas também por aquilo que proporciona às pessoas. Acreditamos que o setor tem um papel essencial também na formação intelectual dos indivíduos e na capacidade de se relacionarem uns com os outros. 

O que seria necessário para que Porto Alegre voltasse a figurar como um importante destino de shows internacionais? 

Carlos: A questão dos shows internacionais eu não vejo como um grande problema, porque se a gente avaliar quando artistas vão para países da Europa, por exemplo, eles passam por vários países, mas não passam por várias cidades. Passam nas mais importantes economicamente, vão aonde tem o público maior. São Paulo, por exemplo, tem 15 milhões de pessoas, já Porto Alegre tem 1,5 milhão, quase 10% mais ou menos, então é natural que nem todos os shows passem por aqui. É comum no mercado de shows que as pessoas se desloquem para onde eles acontecem, e esse deslocamento, dessas grandes estruturas que o show businnes tem hoje, não é muito fácil de ficar deslocando. O custo é muito alto, os shows ganharam muito em grandiosidade, inclusive os de músicas brasileiras, que são mega shows hoje em dia. Então, isso faz com que muitos deles acabem não vindo a Porto Alegre. Nossa capital, também, fica no canto do Brasil, isso dificulta. A Argentina, por exemplo, nos últimos anos perdeu muito a capacidade econômica, então nem todos os shows vão para lá, e Porto Alegre é um corredor para o país. No momento que a Argentina não tem recebido shows, é natural que não passe por aqui também. Mas acredito que hoje a nossa cidade rivaliza com Curitiba e Belo Horizonte, apesar dessa dificuldade de deslocamento. Tem a questão de lugares para fazer esses shows internacionais. Hoje em dia, os estádios comportam bem esses shows, onde eles são realizados em várias partes do mundo. Nós não temos um centro de eventos com capacidade de absorver esses grandes eventos, festivais, mas estes estádios acabam os comportando muito bem. A grande questão de não virem para cá é se o espetáculo for muito caro, na maior parte, e que acabam não viajando para todos os lugares do país. Isso acontece em outros países também. 

Rodrigo: Há algum tempo Porto Alegre está muito bem inserida nas rotas dos grandes shows internacionais, não acreditamos que exista uma necessidade de voltar a esse patamar. Todos os grandes artistas que vieram ao Brasil nos últimos anos tocaram aqui também: Paul McCartney, Rolling Stones, Red Hot Chili Peppers, entre outros. Desde o fim da pandemia, os custos de operação das grandes turnês aumentaram muito. Não só aqui, mas no mundo todo. Até mesmo no exterior esses espetáculos precisaram se readequar à nova realidade. Então, aos poucos, todos os envolvidos com o setor estão entendendo isso e modificando processos internos, facilitando e permitindo que nada pare e que nenhuma cidade importante fique de fora de um eventual roteiro. 

Quais são as perspectivas futuras para o setor do entretenimento? 

Carlos: Acho que o futuro do setor é de muito crescimento. Saímos de uma pandemia que desestabilizou muito o setor – foi o setor mais atingido de todos – tivemos que parar tudo, e agora está se reequilibrando financeiramente. Ao mesmo tempo, está formando novas pessoas, já que muita gente saiu do mercado, foram trabalhar em outras áreas que continuaram funcionando na pandemia, e não voltaram para o setor, ficaram com receio de voltar. Então, o setor está se reequilibrando e eu vejo um futuro muito bom para essa área de entretenimento. Vejo todo a área de entretenimento e da cultural com boas perspectivas. Vejo, nessa área cultural que a gente trabalha, a retomada da Lei Rouanet. Acho importante se houver uma efetivação da lei estadual novamente. Ao mesmo tempo, muitas perspectivas são boas porque nós temos grandes empresas que atuam nessa área, como a DC Set – que era daqui, a Opus, a Opinião. São todas empresas que trabalham muito nessa área de entretenimento, de espetáculos maiores. Eu acho que Porto Alegre tem tudo para, cada vez mais, se firmar, e as perspectivas são ótimas para o setor.  

Rodrigo: A pandemia modificou um pouco a forma que as pessoas lidam com o setor do entretenimento. Se antes muitos deixavam para depois a possibilidade de ir a um show, elas valorizam mais o “agora”, tentando não perder as oportunidades. Depois de um período difícil, percebemos um aumento natural no interesse do público em atividades culturais em geral, o que acabou revertendo em uma agenda mais “gorda” em 2022 e 2023. Esperamos uma continuidade desse crescimento em 2024, a expectativa é que tenhamos mais eventos do que no último ano.

Como Porto Alegre pode avançar na economia local

Editor: Leonardo Vieira Martins

O turismo de negócios deve continuar movimentando a rede hoteleira da capital em 2024

Manuel Suárez projeta bons números para a rede hoteleira em 2024. (Foto: Sindihotel/Divulgação)

No Boletim DesenvolvePOA, publicado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Porto Alegre, os setores de alojamento e alimentação ficaram com o terceiro lugar no panorama de abertura de vagas, entre janeiro e setembro de 2023. Foram 2,1 mil novos postos de trabalho criados no período. Conforme dados do informativo do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil de outubro, a capital teve a quarta maior receita por quarto disponível no país, com índice positivo de 35,9%. Representando mais de 1,5 mil empresários no ramo da hospedagem, o Sindicato da Hotelaria do Estado do Rio Grande do Sul está otimista sobre o cenário do setor para o próximo ano.  

Para o presidente da entidade, Manuel Suárez, a rede hoteleira de Porto Alegre deve manter o perfil de ocupação em 2024, ou seja, os eventos corporativos. Segundo ele, estes são os principais motivos para a vinda de turistas à capital gaúcha, representando quase 70% da procura nos hotéis.  

“Muitas vezes, são eventos de médio porte, mas ao mesmo tempo, têm mais durabilidade. Em vez de ser de dois ou três dias, eles duram entre cinco ou seis dias, e isso ajuda bastante na ocupação dos hotéis e da gastronomia. Em agosto, tivemos a Construsul, depois a Expoagas e a Expointer. Esses três eventos fizeram de agosto um mês de ocupação muito elevada, de muita visitação na área metropolitana de Porto Alegre. Podemos aproveitar melhor esse fluxo, conjugando o turismo corporativo com eventos e um pouco de turismo de lazer em função de shows, jogos e outras atividades”, afirma.

O CEO também acredita que Porto Alegre tem ainda, a capacidade de oferecer shows de artistas internacionais, já que há grande demanda para esse tipo de atividade. “No momento que tem público que frequenta, as promotoras seguramente vão trazer esses shows. O próprio Araújo Vianna tem trazido semanalmente shows de repercussão internacional e com uma frequência bem expressiva”, destaca.

Para a CDL POA, a capital precisa modernizar ainda mais o ambiente de negócios 

Oscar Frank enfatiza a importância do equilíbrio fiscal e de um Plano Diretor alinhado com práticas globais. (Foto: Arquivo Pessoal)

A Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL -POA) é um agente empresarial que atende a mais de 30 mil CNPJs em mais de 200 municípios. O economista-chefe do CDL-POA, Oscar Frank, afirma que, atualmente, há poucos indicadores municipais atualizados para projetar um cenário econômico preciso na capital. No entanto, ele considera os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) sobre o desemprego, que atingiu a marca de 6,7% no terceiro trimestre de 2023 em Porto Alegre, um dado que revela um cenário positivo para a cidade.

“É um número relativamente baixo. A combinação entre a resiliência do mercado de trabalho e a desaceleração da inflação contribui para a geração de ganhos reais dos salários médios. Naturalmente esse fato colabora para os gastos das famílias em bens e serviços”, explica. Por outro lado, a inadimplência, de acordo com levantamento próprio da CDL, permanece alta, enquanto os juros elevados continuam a impactar a atividade econômica.

“Além disso, o fim do efeito positivo decorrente da super safra de grãos nacional, a estiagem que afetou a agropecuária gaúcha no último verão e o cenário externo adverso, embora não tenham impactos diretos, também exercem peso negativo”, acrescenta.

Conforme Frank, Porto Alegre enfrenta desafios, como a baixa qualificação da mão de obra, a falta de profissionalização na gestão empresarial, a complexidade tributária e a logística precária. Segundo ele, para elevar o status da capital como um município ainda mais desenvolvido e referência no setor econômico, é crucial buscar o equilíbrio das finanças públicas. “Isso, em primeiro lugar, visa evitar aumentos de impostos e, dependendo do esforço realizado, possibilitar a redução da carga tributária”, afirma. 

De acordo com economista, para avançar na modernização do ambiente de negócios, é fundamental adotar planos diretores alinhados com as melhores práticas globais. “Isso envolve a busca por oportunidades em missões de negócios, o investimento em privatizações/concessões para que a prefeitura se concentre apenas nas funções essenciais e aprofundar parcerias com o setor empreendedor e as universidades”, pontua.

Para o Sebrae-RS, Porto Alegre está no caminho certo

Paulo Bruscatto exalta ações de fomento ao empreendedorismo. (Foto: Arquivo Pessoal)

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do RS (Sebrae-RS) é uma peça importante no cenário empreendedor de Porto Alegre, atuando principalmente através do programa Cidade Empreendedora, em parceria com a Sala do Empreendedor da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (SMDET), Junta Comercial do Estado e Procempa.

E no pensamento e estratégia dos eixos deste programa é que trabalha Paulo Bruscatto, gerente da regional retropolitana do Sebrae-RS, que vê a cidade no caminho certo para tornar mais empreendedora. “As principais linhas de evolução dos próximos anos sugerem investimentos em educação empreendedora e inovações para cidades inteligentes, uma descentralização dos ativos para periferia também seria importante. Estes são alguns elementos que promoveriam mais evolução empreendedora para cidade”, justifica. 

Segundo um estudo realizado pelo grupo de economistas da SMDET, com base em números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e Junta Comercial, realizado em 2021, Porto Alegre tem mais de 218 mil empreendedore. “Esses números brotam de uma estratégia de médio prazo do Sebrae RS com a Prefeitura de Porto Alegre, novamente, através do foco na desburocratização e da digitalização dos processos”, comenta Bruscatto.

O crescimento econômico necessita da preservação histórica da cidade, acredita superintendente do Iphan

Editor: Paulo Albano

Rafael dos Passos representando o IAB-RS durante Tribuna Popular. (Foto: Henrique Ferreira Bregã/CMPA)

O arquiteto e urbanista Rafael Passos é o atual superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio Grande do Sul. Criado em 1937, o Iphan é uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura que atua pela preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro.

A fim de proteger os bens culturais do nosso país, cabe ao Instituto responder pela conservação, salvaguarda e monitoramento dos bens culturais brasileiros inscritos na Lista do Patrimônio e Mundial e na Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, conforme convenções da Unesco.  Atualmente o Iphan atende três linhas: o patrimônio material, que é aquilo que a gente conhece como as edificações, monumentos e etc, o reconhecimento de modos de vida, relacionado a comunidades e manifestações culturais, e a arqueologia.  

“Todo licenciamento no país precisa passar pelo Iphan para entender se tem ou não tem algum resquício arqueológico que precisa ser salvaguardado“, afirma.  

Em uma cidade que conta com tantos prédios e monumentos históricos como Porto Alegre, pensar na expansão e crescimento econômico também passa por garantir a preservação desse patrimônio essencial para a construção de uma memória afetiva da cidade.

“A gente teve, nos últimos anos, a construção de uma visão na qual o patrimônio atravanca o progresso, o que não é verdade. Porto Alegre tinha uma lei do inventário que foi derrubada em 2019. A Câmara Municipal disse que ela tinha vício de origem e aí aprovou a revogação. E fez uma outra que surgiu do nada, não passou nem pelo Conselho Municipal de Patrimônio, e é uma lei que hoje favorece muito o mercado imobiliário e começa a agravar esses problemas. Por parte do Iphan, uma das diretrizes que está sendo estabelecida vai ser a questão de provocar o uso de bens, de imóveis, de edifícios protegidos e tombados, sejam federais ou em outros níveis, para habitação e interesse social, como uma forma de também cada vez mais ocupar os centros urbanos”, explica o Superintendente. 

Conceito de cidade inteligente:  o cidadão como centro de tudo 

Letícia Batistela enfatiza a importância de integrar os cidadãos aos serviços digitais (Foto: Arquivo Pessoal)

A  Procempa (Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação da Prefeitura de Porto Alegre) existe há 46 anos e integra as necessidades das secretarias municipais oferecendo soluções tecnológicas para os mais diversos projetos. De acordo com a presidente da empresa, Letícia Batistela, “o nosso trabalho está focado em sistemas que facilitam o acesso a serviços essenciais como saúde, educação e segurança”, explica. Exemplo disso é o Hub Colaborativo de Inteligência Artificial para a Área Pública, lançado em março de 2023, que visa promover a melhoria de serviços públicos a partir do uso de inteligência artificial (IA). Oito meses após o início do projeto, o Hub já conta com IA na área de segurança para detecção de incêndio e de pessoas, como por exemplo, alerta de invasão de perímetro; na área de urbanismo através do sistema neural para análise de pavimento, e na área da saúde com detecção de lesão e câncer de pele. 

A projeção para os próximos anos é integrar cada vez mais o cidadão aos serviços digitais. “Estamos focados em integrar e digitalizar os serviços municipais para o cidadão, buscando as melhores soluções de mercado, seja internamente, com a Procempa desenvolvendo ou externamente, como apoio”, ressalta Batistela. A colaboração, segundo ela, é uma das formas de atingir a transformação digital de Porto Alegre. Atualmente o órgão já conta com parcerias com o Massachusetts Institute of Technology (MIT) de Boston, Santa Casa, Pacto Alegre, Tecnopuc e Tecnosinos, e afirma que segue em busca ativa da aproximação com outros ecossistemas de inovação.

A Beta Redação também entrou em contato com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo e a Secretaria de Mobilidade Urbana de Porto Alegre para saber a projeção das pastas acerca do panorama econômico da cidade no próximo ano, mas não obtivemos retorno das perguntas enviadas até o fechamento da reportagem.

Esta reportagem contou com o trabalho dos repórteres: Paola De Bettio Tôrres, Júlia Möller, Luã Fontoura, Leonardo Vieira Martins, Lucas Proença, Lizandra Fonseca, Eduarda Ferreira e Petra Karenina.