No último domingo, 15 de março, chegou ao fim a temporada de prêmios de cinema 2026 com a cerimônia do 98º Oscar. Enquanto obras como “Uma batalha após a outra” e “Pecadores” são aclamados universalmente, toda edição reserva alguma produção que encontra-se no limite entre o amar ou odiar com o público. Ano passado, “Emilia Perez” teve uma trajetória vitoriosa ao longo das premiações, mas viu o grande público produzir críticas extensas ao filme francês. Antes, “Pobres Criaturas” dividiu as opiniões graças às suas temáticas sexuais e a estranheza costumeira do diretor Yorgos Lanthimos. “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”, mesmo sendo vencedor de sete estatuetas douradas em 2023, lidou com uma polarização massiva entre seus apoiadores e detratores.
Esse lugar reservado na temporada 2026 pertence a um candidato mais discreto: Sirat.. Indicado a Melhor Filme Internacional, a obra espanhola é visceral ao explora as brutalidades do mundo moderno alegoricamente nos áridos desertos do Marrocos que encenam o longa.
Dirigido por Oliver Laxe, a produção acompanha Luis (Sergi López) e seu filho caçula Esteban (Bruno Núñez) procurando por sua filha e irmã, que está desaparecida após frequentar raves clandestinas que ocorrem nos desertos do país africano. Ao seguirem viagem com um grupo de frequentadores europeus, a jornada os obriga a confrontar seus próprios limites físicos e mentais.
Sirât é uma palavra de origem árabe que significa caminho e, na tradição islâmica, representa “uma ponte mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma lâmina” que liga o inferno ao paraíso – e que todos devemos atravessar no dia de nossa morte.
Fazendo jus ao título, Laxe constrói uma incômoda travessia para seus personagens. Ao longo do filme, somos apresentados a situações que nos sufocam e nos deixam apreensivos perante o destino iminente destes. A brutalidade e frieza com a qual o diretor lida com a narrativa é uma das principais críticas levantadas por aqueles que desgostaram da produção. Ao contrário destes, eu não vejo um sadismo em torno das escolhas de Laxe. A alcunha sadismo sugere uma explícita violência que jamais acompanha o filme. Existe, sim, uma brutalidade, mas a câmera jamais espetaculariza os corpos. Tudo é filmado a distância, sem qualquer exigência por parte do diretor de encararmos a carnificina que resulta da ação.
Alguns falam que a violência da produção é gratuita. Entretanto, existe um investimento considerável por boa parte do filme em torno da ambientação do deserto. A vastidão das areias e das montanhas rochosas, os barulhos fortes do vento misturados ao som de eletrônica que compõem a trilha sonora e o calor ardente da fotografia. Laxe filma o deserto com uma imponência que premedita todos os acontecimentos chocantes que virão a seguir.
Logo no início, uma das raves é interrompida pela chegada de militares que dispersam a multidão. Não há uma clara explicação sobre o motivo da evacuação. Entretanto, ao decorrer do filme vai tornando-se explícito que um conflito global aproxima-se (ou já está entre nós). Ou seja, o perigo já era plantado bem antes dele, de fato, chegar.

No meio dessa busca, pai e filho encontram-se com um grupo de europeus que frequentam as raves. Mesmo ouvindo ao rádio mais informações sobre tal conflito iminente, eles seguem em sua jornada atrás da próxima aglomeração de caixas de som e automóveis. Existe uma crítica veemente a alienação destes personagens, que também pode ser chamada de conformação ou incapacidade. Através deste grupo enxuto, nota-se como o mundo pode estar ruindo, mas seguimos apenas atrás de distrações para não sentir o chão cedendo sob nossos pés.
Para além disso, a contextualização de um conflito próximo atrai mais significados ainda ao nome que intitula o longa. Afinal, não estaríamos nós próprios, coletivamente, atravessando a Sirât?
Vivemos como se estivéssemos atravessando essa ponte todos os dias, caminhando lentamente em direção a um cenário cada vez mais apocalíptico, como o inferno. Somos uma raça que idealiza o céu desde os primórdios da religião; nossos governantes e organizações mundiais fazem o mesmo com a paz. Porém, o que produzimos na Terra é o inferno. Crises humanitárias, colapsos ambientais, guerras normalizadas e desigualdades extremas queimam o mundo tanto quanto o fogo no purgatório descrito nas páginas do Alcorão e da Bíblia.
A travessia do deserto não é apenas um movimento narrativo para trazer a derrocada dos personagens que acompanhamos, é uma demonstração alegórica da palavra árabe e, maior ainda, do estado do mundo moderno. O brutal e o incômodo do filme fogem da lógica debatida da gratuidade e do sadismo. É sobre reconhecer nossa própria incapacidade coletiva de ser humano e admitir que o caminho que cruzamos até aqui cobra um preço que não conseguimos arcar.
É uma realidade triste que o filme traz. Assim como os personagens, somos meros turistas atravessando descalços o campo minado que se tornou o mundo. Numa visão mais otimista, podemos continuar a dançar conforme a música e aproveitar os pequenos momentos em meio ao caos. Na produção espanhola, essa visão gerou uma cena lindíssima com total ausência de diálogos, apenas o som ecoando das caixas e os personagens sentindo as batidas dos amplificadores.

A derrocada jamais seria tão sentida se não fosse pela ótima condução em torno dos personagens. Tirando o protagonista Luís, vivido por Sergi López, um dos atores espanhóis mais aclamados internacionalmente, o elenco é composto por não profissionais. O grupo de europeus criam uma relação estranha, mas genuína com pai e filho. Estes dois grupos disfuncionais encontram uns nos outros a empatia e companheirismo que faz falta na humanidade. A escolha por essa escalação majoritariamente amadora, gera uma naturalidade nas performances que nos conforta em poder acompanhá-los, mesmo em momentos infelizes.
Ao chegar em sua reta final, somos tomados mais uma vez pela atmosfera impecável que o filme criou até aqui. Uns dos maiores responsáveis dessa atmosfera é o som. Não por menos, o filme fez história ao ser indicado ao Oscar de Melhor Som, sendo a primeira equipe inteiramente feminina competindo na categoria, formada por Laia Casanovas (editora de som supervisora), Yasmina Praderas (mixadora de regravação) e Amanda Villavieja (mixadora de som direto).
Seja amado ou odiado, Sirât dificilmente passará despercebido por aqueles que o assistem. Nenhum dos polos que o público abraçou está necessariamente errado. A produção desperta justamente algo que se perde nos fluxos das redes sociais: a possibilidade de se discordar, discutir, argumentar e entender outras visões sobre a obra em questão. Em uma indústria que cada vez sofre com a pasteurização das opiniões, ver um filme tão divisivo chegar à noite de maior glamour do cinema é uma conquista e um prazer e tanto.
