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Quando a dor vira arte: o legado de Hamnet

Texto contém spoilers

Adaptado para o cinema em 2025, sob a direção de Chloé Zhao, Hamnet é um filme baseado no romance de 2020 da escritora norte-irlandesa Maggie O’Farrell, que mistura fatos históricos com elementos ficcionais para imaginar a história por trás da criação de uma das peças mais emblemáticas de William Shakespeare, Hamlet.

Sabe-se que Shakespeare era casado com Anne Hathaway (chamada de Agnes nas obras) e que o casal teve três filhos, entre eles os gêmeos Hamnet e Judith. Hamnet morreu ainda criança, mas não existe comprovação histórica de que essa perda tenha sido diretamente o que levou Shakespeare a escrever Hamlet. Ainda assim, essa é uma teoria bastante difundida e aceita por muitos estudiosos, e o filme parte justamente dessa possibilidade para construir sua narrativa. Por isso, a história funciona como uma espécie de semi-ficção, misturando acontecimentos reais com interpretações imaginadas.

A caracterização de Agnes como uma espécie de curandeira ou “bruxa”, sua relação quase mística com a natureza e certos acontecimentos envolvendo as crianças, como a ideia de trocas ou presságios, fazem parte da construção dramática da história, não de registros históricos. No entanto, o uso desses elementos ajuda a desenvolver as relações entre os personagens e a atmosfera emocional do filme.

Em termos de gênero, Hamnet funciona muito mais como um melodrama do que simplesmente como um drama. O melodrama se caracteriza por trabalhar emoções intensas para revelar algo mais profundo sobre a experiência humana e sobre a psicologia social. No filme, isso aparece principalmente na forma como o luto é retratado. A perda do filho não é tratada apenas como uma tragédia individual, mas como algo que afeta toda a estrutura familiar e transforma completamente as relações entre os personagens, especialmente no caso de Agnes.

Um dos pontos mais fortes da história é a maneira como ela relaciona arte e memória. A narrativa sugere que, ao escrever Hamlet, Shakespeare teria transformado sua dor pessoal em algo maior. Mesmo que não seja historicamente comprovado, a ideia é de que, através da arte, a memória de Hamnet deixaria de existir apenas dentro da família e passaria a viver na experiência coletiva do público. Cada vez que a peça é encenada e uma plateia se emociona com a tragédia de um filho perdido, aquela memória continua existindo de alguma forma. O filme usa essa hipótese para destacar um dos aspectos mais importantes da arte: sua capacidade de preservar experiências humanas e transformá-las em algo compartilhado.

A decisão de não revelar explicitamente que o personagem principal é Shakespeare durante boa parte da narrativa também contribui bastante para a forma como a história é recebida. Sem essa informação imediata, é possível observar o personagem primeiro como um homem comum, com suas falhas, distâncias e dificuldades emocionais. Isso evita que a figura histórica de Shakespeare influencie diretamente a forma como suas atitudes são interpretadas, permitindo que o público construa sua própria relação com o personagem.

No entanto, Paul Mescal definitivamente não foi a melhor escolha para o papel; apesar de ter atuado bem, Mescal não consegue chegar ao mesmo nível de seus colegas de elenco. A performance do ator acabou não permitindo que o personagem fosse explorado em sua total complexidade.

Outro tópico que deixou a desejar foi a maneira como a partida de casa de Shakespeare foi abordada. Nas poucas cenas em que o assunto foi retomado, é possível ver que Agnes possui sentimentos mistos e complexos sobre a situação, sentimentos esses que foram pouco aprofundados. Principalmente quando a obra se baseia em um livro que dá ao leitor tal contexto, ou seja , há informações sobre o que se passa na cabeça de Agnes, mas por alguma razão elas foram deixadas de fora da trama. Teria sido algo muito pertinente e agregaria bastante ao enredo do filme mostrar um pouco mais do assunto, pois, ao preencher estas lacunas, daria contexto o suficiente para os telespectadores terem a discussão sobre a complexidade de seus sentimentos de uma maneira mais concreta e embasada.

“Não haverá volta atrás. Não há como desfazer o que foi planejado para eles. O menino se foi, o marido irá embora, ela ficará, os porcos precisarão ser alimentados todos os dias e o tempo só corre em uma direção.”
― Maggie O’Farrell, Hamnet

Do ponto de vista da linguagem cinematográfica, a direção opta por enquadramentos relativamente neutros e uma decupagem bastante funcional. Embora essa escolha mantenha o foco nas atuações e no desenvolvimento dramático, acaba transmitindo uma sensação de pouca complexidade visual. Para uma história tão carregada emocionalmente, a direção poderia ter explorado soluções mais expressivas ou criativas, capazes de ampliar ainda mais o impacto do drama apresentado.

A estrutura narrativa também deixa a impressão de um certo desequilíbrio no ritmo. A parte inicial do filme se estende bastante na apresentação do cotidiano da família e das relações entre os personagens. Apesar de essa construção ser importante para estabelecer o contexto emocional da história, o tempo dedicado a essa introdução acaba reduzindo o espaço para o desenvolvimento da parte final, em que os temas mais fortes, especialmente a relação entre arte, memória e luto, ganham maior relevância. Uma abertura um pouco mais curta, ou até mesmo uma duração total maior, poderia ter dado mais força ao desfecho.

Sendo assim, Hamnet é uma história sobre luto e maternidade, mas também sobre algo maior: a forma como a arte conecta experiências individuais a algo coletivo. A dor, a perda e as emoções humanas não pertencem apenas a quem as vive diretamente, mas sim, tal qual a cena em que todos dão as mãos a Hamlet na cena de sua morte na peça, elas fazem parte de uma experiência compartilhada. Ao transformar essas vivências em histórias, a arte cria pontes entre pessoas de épocas diferentes e permite que memórias continuem existindo muito depois que a vida real termina.

Foto: ©Focus Features/Cortesia da Everett Collection

Hamnet é um filme extremamente relevante e impactante, que reforça a ideia de que a arte é uma das formas mais profundas de preservar aquilo que torna a experiência humana comum a todos. Apesar de não concordar com todas as decisões criativas do filme, é inegável que é uma obra excepcional pelo seu contexto emocional e histórico, com destaque especial para a atuação de Jacobi Jupe e Jessie Buckley, que merecidamente levou para casa o Oscar de melhor atriz por sua performance na obra.

Foto: Reprodução/ABC

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