Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

O mito da maternidade em Buchi Emecheta

Ao questionar o papel materno, Buchi Emecheta constrói uma narrativa que ecoa o medo de muitas mulheres.

“Meus filhos, quando vocês crescerem, serão todos reis entre os homens”.

“Minhas filhas, quando vocês crescerem, todas embalaram os filhos de seus filhos” (Emecheta, 1979, p. 43)

O romance As alegrias da maternidade (1979), da escritora nigeriana Buchi Emecheta, é uma ficção histórica que apresenta uma crítica profunda à idealização da maternidade dentro de estruturas sociais patriarcais. Ao longo da narrativa, o romance questiona o que pode ser chamado de “o mito da maternidade”, a crença de que ser mãe representa a plenitude na vida de uma mulher.

Segundo a autora, o livro foi escrito quando sua filha mais velha decidiu, após o divórcio dos pais, ir morar com o pai. O episódio foi muito tocante para Emecheta, que decidiu explorar, de forma irônica, as “alegrias” de maternar.

A história se passa na Nigéria durante o período colonial britânico, especialmente entre as décadas de 1930 e 1940, acompanhando a trajetória de Nnu Ego, uma mulher da etnia igbo cuja vida é marcada pela expectativa cultural de tornar-se uma “mulher completa”, ou seja, uma mulher que tenha muitos filhos, para assim garantir amparo na velhice.

No início da narrativa, Nnu Ego vive em uma aldeia tradicional igbo, onde a fertilidade é considerada essencial para o status social de uma mulher. Nesse cenário patriarcal, os pais costumam arranjar os casamentos de suas filhas, muitas vezes negociando-as com os homens que consideram mais apropriados. Nnu Ego é entregue em casamento a Amatoku, um representante da elite igbo, mas quando a infertilidade bate à porta do casal, ela passa a ser vista como alguém sem valor dentro da comunidade e na própria casa.

Diante da incapacidade de gerar filhos, Amatoku casa-se com uma segunda esposa, enquanto Nnu Ego se torna alvo de desprezo. Após conflitos e violências, seu pai decide retirá-la desse casamento e providência uma nova união com Naife, um homem que vive em Lagos, capital da Nigéria na época.

Em um cenário de êxodo rural, a protagonista entra em contato com uma realidade bastante distinta da vida na aldeia. A cidade oferece algumas oportunidades econômicas, mas também intensifica desigualdades, especialmente para a população colonizada. Nnaife trabalha como lavadeiro para uma família britânica, ocupando uma posição marginalizada dentro da hierarquia colonial. Essa condição faz com que Nnu Ego despreze o novo marido desde o primeiro momento, pois, em sua percepção, ele é apenas um colonizado.

Diferente do primeiro, neste segundo casamento, ela engravida de seu primeiro filho e acredita ter alcançado o destino socialmente esperado. Contudo, essa sina revela-se muito mais complexa do que a promessa cultural sugeria.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Nnaife é recrutado para servir ao exército britânico, deixando Nnu Ego sozinha em Lagos com os filhos. Esse evento agrava as condições de vida da família. Em um contexto de extrema precariedade econômica, ela passa a sustentar os filhos por meio de pequenos comércios nas ruas da cidade. O cotidiano da personagem torna-se marcado por trabalho constante, escassez de recursos básicos e responsabilidade total sobre a criação dos filhos.

Com o passar dos anos, as crianças crescem e começam a buscar seus próprios caminhos. Nnu Ego, que dedicou toda a sua vida à maternidade acreditando que os filhos garantiriam segurança e reconhecimento no futuro, passa então a enfrentar um sentimento profundo de abandono. É nesse ponto que a ironia central do livro se torna evidente: as “alegrias da maternidade” prometidas pela sociedade não se concretizam plenamente na vida da personagem.

A ironia da maternidade

A ironia constitui um dos elementos mais significativos do romance. O título sugere uma celebração da maternidade, mas a trajetória de Nnu Ego revela um percurso marcado por sacrifícios, frustrações e invisibilidade social. A maternidade, idealizada como fonte de plenitude, torna-se justamente o mecanismo que aprisiona a personagem em um ciclo que lhe custa a própria sobrevivência e dignidade.

Conforme a narrativa se desenvolve, Nnu Ego deixa de ser a jovem que desejava, com todo o seu coração, tornar-se mãe. A experiência concreta da maternidade, atravessada pela pobreza, pelo colonialismo e pelas desigualdades sociais, revela um conjunto de fatores que o patriarcado tende a ocultar.

Ao final da narrativa, o peso das expectativas em torno da experiência materna é perceptível em todos os aspectos da vida de Nnu Ego. Toda a sua identidade foi construída em torno do papel de mãe, de modo que ela não consegue imaginar outra forma de existir fora dessa função.

Quando chega à velhice, o momento em que esperava receber dos filhos o retorno de todos os sacrifícios feitos, ela se vê sozinha. Sem o amparo que acreditava ter garantido ao longo da vida, retorna à aldeia igbo, onde morre sem a presença de nenhum dos filhos.

O desfecho do romance apresenta uma ironia ainda mais profunda. Após sua morte, Nnu Ego passa a ser venerada como uma espécie de espírito da fertilidade, a quem mulheres recorrem com preces e oferendas para conseguir engravidar. No entanto, segundo a narrativa, ela jamais atende a essas preces. O gesto simbólico reforça a crítica do romance: quem viveu os sacrifícios da maternidade não deseja que outras mulheres repitam a mesma experiência.

A romantização do papel materno

O final da obra expõe o contraste entre a realidade vivida pela protagonista e a romantização da maternidade. Depois de dedicar toda a sua vida aos filhos, Nnu Ego recusa ajudar outras mulheres a entrarem no mesmo ciclo.

Mesmo com transformações sociais ocorridas ao longo dos séculos, ainda persiste, em muitos contextos, a ideia de que a maternidade representa o destino natural e inevitável das mulheres. Essa concepção está associada a expectativas culturais profundamente enraizadas que associam a identidade feminina à capacidade de gerar e cuidar de filhos. Assim, a realização pessoal da mulher é frequentemente vinculada ao papel de ser mãe, como se esse fosse o principal, ou até mesmo o único, caminho legítimo para a plenitude na vida adulta.

Essa perspectiva gera pressões explícitas e implícitas sobre mulheres que não desejam ter filhos ou que priorizam outras dimensões da vida, como carreira, estudos ou projetos pessoais. Em muitos contextos, essas escolhas ainda são interpretadas como egoísmo e imaturidade, revelando a persistência de padrões patriarcais que delimitam o que se considera uma trajetória feminina “correta”. Dessa forma, a vivência da maternidade deixa de ser apenas uma possibilidade entre várias experiências de vida e passa a funcionar como uma expectativa normativa.

Essa perspectiva gera pressões explícitas e implícitas sobre mulheres que não desejam ter filhos ou que priorizam outras dimensões da vida, como carreira, estudos ou projetos pessoais. Em muitos contextos, essas escolhas ainda são interpretadas como egoísmo e imaturidade, revelando a persistência de padrões patriarcais que delimitam o que se considera uma trajetória feminina “correta”. Dessa forma, a vivência da maternidade deixa de ser apenas uma possibilidade entre várias experiências de vida e passa a funcionar como uma expectativa normativa.

Diante dessa lógica, Buchi Emecheta, com sua obra extremamente crítica, nos leva a questionar: até que ponto a maternidade, quando imposta como destino inevitável, pode ser considerada uma realização ou, na verdade, configura-se como um mecanismo de opressão feminina?

Informações técnicas

Editora: ‎Dublinense
Data da publicação: 31 outubro 2018
Edição: ‎2ª
Tradução: Heloisa Jahn
Número de páginas: 320 páginas
Gênero: Romance
Classificação indicativa: 18+


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também