Há algo de fascinante em observar uma banda que, tendo encontrado uma fórmula de sucesso em um nicho específico, decide deliberadamente fazer uma curva em seu próprio caminho. Foi exatamente isso que a banda terraplana fez em Natural (2025), segundo álbum da banda Paranaense Se Olhar pra Trás (2023) era um mergulho confortável e aclamado nas densas névoas do shoegaze mais estrito, seu sucessor é um exercício de expansão de horizontes que, como toda jornada rumo ao desconhecido, alterna momentos de deslumbre com alguns tropeços.
O quarteto formado por Stephani Heuczuk (voz, baixo), Vinícius Lourenço (voz, guitarra), Cassiano Kruchelski (voz, guitarra) e Wendeu Silverio (bateria) deixa um álbum soturno e que cria texturas no som, para algo diferente do que quase lhe chama para um novo ar, não que seja um álbum solar, ainda é sujo, poluído, porém é novo.

O fim do subterrâneo
O primeiro álbum da banda é a epitome do que o indie rock Brasileiro se tornou, no bom sentido. É um álbum sujo, gutural e estranhamente reconfortante, que te faz esquecer do mundo por 28 minutos. Ele é o tipico som que faria sentido em um filme de fuga adolescente dos anos 2000, talvez até por isso seja tão nostálgico para uma geração que não viveu essa época.
Natural representa a saída do subterrâneo. A banda troca o porão abafado e enevoado por um terreno mais aberto, onde a luz (mesmo que difusa) começa a penetrar os acordes e deixar a voz ser um elemento mais importante. A produção de Joo-Joo Ashworth é fundamental nesse processo, ele que é um produtor americano e importante no gênero, arejando as antes impenetráveis paredes de distorção e permitindo que elementos antes soterrados – como as linhas de baixo, agora mais dançantes e presentes acabem ganhem protagonismo.
Essa mudança não é um abandono do shoegaze, mas uma incorporação generosa de outras linguagens. A terraplana já não cabe mais no escaninho único do gênero. Em Natural, ouvimos ecos de slowcore (a melancolia contida de Todo Dia), pós-punk (a linha de baixo de Hear a Whisper que remete a Joy Division), post-hardcore (o balanço de Amanhecer, com DNA de Unwound) e até mesmo o rock alternativo noventeiro que habitava as madrugadas da MTV, ainda recordando aquela nostalgia dos anos 2000.
Essa mistura é, ao mesmo tempo, a grande força e a fonte de alguma irregularidade do disco. A banda claramente se desafia, testando territórios que não domina com a mesma naturalidade com que construía os climas do trabalho anterior. Ainda que para muitos fãs isso possa soar estranho, é bem-vindo como um desafio ao conformismo.
O brilho e a sombra nas faixas
Há momentos de grandeza inegável. A abertura com Salto no Escuro é uma declaração de intenções perfeita: um blues-shoegaze onde os vocais doces de Stephani Heuczuk surgem como um sol rompendo as nuvens, ambientando o ouvinte para o que virá. É uma faixa que cumpre sua função com excelência.
Morro Azul, a faixa de encerramento, é tratada como o ponto alto do disco, mesmo que não consiga ser. Há algo de misterioso e que relembra outras bandas, porém em sua construção gera algo orgânico e com muita identidade. O baixo sutilmente altera os climas e a bateria parecer respirar. É a prova de que, quando a banda alonga seu fôlego e permite que a música se expanda para além dos 28 minutos enxutos do disco anterior, atinge uma beleza quase que de uma nova banda, mesmo que o álbum não seja tão maior, com 34 minutos.
Amanhecer e Hear a Whisper são os momentos em que a nova pegada pós-punk e dançante realmente brilha. Hear a Whisper é talvez o verdadeiro ponto alto do álbum, onde a mistura de português com o inglês é um aceno obvio ao multiculturalismo da banda, e ao público estadunidense, que abraçou a banda no último álbum. O baixo de Amanhecer tem uma pegada quase sensual, um achado raro no universo do rock de guitarras brasileiro. Para quem procura semelhanças, talvez a banda Deftones, mas sem a mesmice que a caracterizou nos últimos 15 anos

O tema do apagamento
Um dos acertos mais elegantes do disco é sua unidade temática. As letras giram em torno da ideia de coisas que desaparecem. Relacionamentos que se dissolvem em Todo Dia, a memória de uma pessoa idosa que se apaga como uma TV com chiado em Hear a Whisper, e a sensação de dissolução presente em Desaparecendo. É um álbum sobre o que se perde, sobre falhas de comunicação e sobre o vazio que fica quando algo (ou alguém) sai de circulação. Essa melancolia coesa ancora as experimentações sonoras e dá ao disco uma identidade conceitual forte.
Esse é um tema recorrente no rock Brasileiro, que muitas vezes recebe carinhosamente o apelido de rock triste. Porém a banda foge do choro por uma relação que acabou e abraça a melancolia da memória. Na música Hear a Whisper o verso “Eu vou te segurar, Dentro da alma, Lembra quem sou eu?” mostra a luta contra o esquecimento, tema central da música e do álbum, mostra o apego e o desejo por ser lembrado, algo que talvez seja uma das sinas da geração.
Um Disco de Transição Necessária, do subterrâneo ao novo.
Natural não é um disco melhor que Olhar pra Trás, e talvez essa não fosse a intenção. Ele é um disco distinto , mais arriscado e, por isso mesmo, fascinante. É algo diferente, muitos artistas criam o segundo álbum tentando fidelizar o público. Aqui, a banda tenta expandir seus próprios limites, buscando a decomposição da coesão anterior para abraçar novos elementos. O resultado é uma obra mais irregular, sim, mas que aponta para múltiplas direções futuras.
A terraplana acerta ao não se acomodar. Erra ao deixar que algumas fragilidades vocais escapem pelo filtro da produção. Mas, no balanço final, a coragem de expandir o espectro sonoro e temático prevalece. O álbum consegue o feito raro de agradar aos ouvidos acostumados ao nicho e, ao mesmo tempo, estender uma ponte para um público maior, interessado no rock brasileiro de guitarras que respira novos ares.
Esse álbum levou a banda para seu maior palco até agora, Terraplana já havia aberto shows no Primavera Sound em 2023 e sido uma das atrações do Festival 5 Bandas em 2025. Porém, é em 2026 que a banda se tornou uma das atrações do festival Lollapalozza, em São Paulo. Isso é um dos sinais que o grupo foi abraçado com sua nova sonoridade.
Nota final: Natural é a prova de que a terraplana já não cabe no quarto escuro onde começou. Agora, na superfície, com a luz do sol batendo no rosto, os defeitos aparecem – mas também se revela, com mais clareza, a potência de uma das bandas mais importantes do rock nacional contemporâneo. Resta saber como essas canções vão se comportar ao vivo, onde a energia do palco pode transformar as arestas em virtude e os acertos em momentos de catarse coletiva.
