Harry Styles está de volta. Em Kiss All The Time. Disco, Occasionally, seu primeiro disco desde Harry’s House (2022), o cantor apresenta talvez o trabalho mais experimental da carreira.
O retorno acontece depois de um período intenso. Harry’s House foi um sucesso enorme, estreou no topo da Billboard 200 e venceu Álbum do Ano no Grammy Awards de 2023, superando Renaissance, de Beyoncé. Ao mesmo tempo, Styles enfrentava forte exposição midiática durante o lançamento do filme Don’t Worry Darling. Entre polêmicas e rumores de bastidores, o momento acabou se tornando desgastante para o artista.
Depois desse momento turbulento, ele optou por se afastar um pouco dos holofotes. Durante o hiato, foi visto correndo maratonas, caminhando pelas ruas de Roma e frequentando clubes e shows como espectador. Em uma dessas ocasiões, apareceu deixando a famosa boate Berghain, em Berlin, após assistir a uma apresentação de Jamie xx. Essa experiência de observar a música do meio da multidão que influenciou diretamente o novo trabalho.
A proposta de Kiss All The Time. Disco, Occasionally não gira tanto em torno da figura do popstar, mas da experiência coletiva da música. Em várias faixas, Styles sugere que a pista de dança pode ser um espaço de transformação emocional, um lugar onde desconhecidos compartilham energia, emoções e histórias por algumas horas.
Essa ideia aparece tanto nas letras quanto na produção. Diferente da sonoridade elegante e controlada de Harry’s House, o novo disco aposta em arranjos mais soltos e imprevisíveis. Batidas irregulares, sintetizadores expansivos e camadas de efeitos criam músicas que se desenvolvem lentamente, muitas vezes adiando o momento de explosão sonora.
Nesta construção gradual aproxima o álbum mais da lógica da música de clube do que do pop tradicional. Em vez de refrões imediatos e estruturas previsíveis, muitas faixas se sustentam pela atmosfera e pela repetição hipnótica de loops e grooves.
A própria voz de Styles reforça essa proposta. Frequentemente processada ou mergulhada na mixagem, ela deixa de ser o elemento central das músicas. O efeito é intencional: o cantor soa menos como a estrela no palco e mais como alguém cantando no meio da multidão.
As influências musicais ajudam a entender esse caminho. O disco dialoga com o dance rock de LCD Soundsystem. Disco, rock alternativo e house eletrônico aparecem misturados em uma produção conduzida novamente por seu colaborador de longa data, Kid Harpoon.

Algumas faixas sintetizam bem essa proposta. “Aperture”, single que chegou ao topo da Billboard Hot 100, abre o disco com clima expansivo e dançante. “Are You Listening Yet” mergulha no dance rock, enquanto “Season 2 Weight Loss” aposta em um beat irregular e vocais quase falados, criando um dos momentos mais curiosos do álbum. Já “Dance No More” se destaca pelo groove funky e pela linha de baixo marcante, funcionando como o momento mais próximo de um hit pop tradicional.
Mesmo com a presença forte da eletrônica, o disco preserva elementos orgânicos que sempre fizeram parte da sonoridade de Styles. Piano, coros, cordas e baterias elaboradas aparecem ao longo das faixas, criando um contraste interessante com os sintetizadores e loops.
Nem todas as escolhas funcionam da mesma forma. Algumas baladas quebram o ritmo do disco, especialmente “Paint by Numbers”, que surge de forma abrupta e interrompe a atmosfera dançante construída até ali.
Ainda assim, Kiss All The Time. Disco, Occasionally tem algo revigorante. Em vez de repetir a fórmula que o levou ao topo do pop, Styles parece mais interessado em explorar novas curiosidades musicais. Os resultados podem ser irregulares, mas revelam um artista disposto a experimentar.
E no pop, essa disposição para arriscar costuma ser justamente o que diferencia os artistas que apenas dominam o momento daqueles que conseguem se reinventar ao longo do tempo.
