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Em 2016, com o lançamento de Formation, Beyoncé fez os Estados Unidos descobrir que ela é negra; em 2025, Milo J, com o álbumLa Vida Era Más Corta, fez a América Latina reconhecer a “argentina branca” apenas como o que ela é: um mito.
Juntamente com vozes marcantes para a história da música argentina, como Roberto Carabajal e a falecida Mercedes Sosa, e jovens expoentes do gênero urbano, como o rapper Trueno e Paula Prieto, que mantêm a identidade intimista que marca sua trajetória musical, Milo constrói uma apresentação coesa e emocionante acerca do país que ninguém vê: a Argentina marcada pelo folklore e demais estilos marginalizados, embranquecidos ou esquecidos, e pela resistência indígena.
Celebração da ancestralidade e um toque de bossa.
Frisar o intuito do projeto e sua originalidade não são apenas métricas presentes nesse texto, mas um espelho dos argumentos do cantor. Já na primeira faixa, Bajo de La Piel, os cânticos indígenas são o vestido vermelho do salão e, junto ao ritmo coerente, mas nada linear, a canção introduz a história a ser contada. É forte, direta, possui dramaticidade e conversa com a canção seguinte, Niño, mesmo tendo esta uma proposta mais intimista.
Ainda, antes de seguir para as participações especiais que enriquecem a narrativa, é necessário destacar as obras solo que trouxeram a sonoridade brasileira como base. São elas Recordé, que inicia com um pedaço de Meu Labor das Matas, um dos pontos de Catimbó e Jurema Sagrada da figura de Malunghinho , um símbolo de resistência afro-indígena nordestina que abre caminhos e protege contra as forças do mal; Ama De Mi Sol, com tempero de bossa; e Solifican12, que acelera o ritmo da faixa anterior.
As colaborações fortalecem a identidade do albúm.
Caminhando pelas vielas de La Vida Era Más Corta, encontra-se Trueno, presente na faixa Gil. Uma canção que mantém a identidade do disco, porém respeita a personalidade afiada do convidado, conhecido pelas rimas acerca da realidade periférica do país. O ritmo desacelera em MmmM, cantada com Paula Prieto, com um violino irreverente sob as vozes, entoando pura poesia.
Então, na parte dois do álbum, os veteranos aparecem e adicionam o ingrediente que faltava: o grito rouco, nascente dos olhos que muito viram em um solo que seleciona quem será ouvido. Com El Invisible, ao lado de Cuti Carabajal e Roberto Carabajal, Milo canta sobre os que não são vistos, mas sempre explorados. As dores seguem verbalizadas em Luciérnagas, com Silvio Rodríguez, mas sob outra perspectiva, em que os detalhes acerca de uma figura amada e os momentos guardados na memória são protagonistas.
Para fechar a obra, uma homenagem a Mercedes Sosa, já falecida, conhecida como “a voz dos sem voz”. Em Jangadero, Milo utiliza uma gravação feita por ela ainda em vida de Canción del Jangadero, de Jaime Dávalos.
Milo J tem apenas 19 anos, mas não é exagero, e tampouco precoce, afirmar que ele fez um clássico. 15 faixas, 48 minutos de duração e uma nova página na vida do artista.
