Aos 35 anos, Graziela Hoffmann (PSD) estreou na política se elegendo como a vereadora mais votada do último pleito e, depois que a colega Carmen Seibt (PSDB) assumiu a secretaria de Assistência Social, tornou-se a única mulher entre os 11 integrantes da Câmara de Vereadores de Canela. Formada em Administração e sócia de uma imobiliária familiar, ela defende bandeiras que vão da causa animal à saúde da mulher – e diz carregar “o peso de provar legitimidade todos os dias” em um plenário dominado por homens.
Eleita com o propósito de ser um “rosto novo”, Hoffmann acredita que sua vitória veio do desejo de mudança da comunidade. “O resultado da minha campanha vem muito de um cenário local em que as pessoas estavam querendo renovação, querendo rostos novos, não querendo mais aquelas figuras que estavam há muitos anos já trabalhando na política”, afirma.

Uma intensa campanha nas redes sociais e nas ruas garantiu os 1.308 votos conquistados pela estreante na política: “Uma campanha como eu fiz, poucas pessoas fizeram, de estar presente tanto nas redes quanto na rua, o tempo inteiro. Eu vivi 50 dias de pura campanha na minha vida”, lembra.
O fato de estar entre os mais jovens eleitos é uma conquista, mas ser a única vereadora não é visto como motivo de celebração. “Não me sinto sozinha por ser jovem, mas ser a única mulher eleita é muito triste. A questão de tu não ter um apoio, uma representação em pautas que são tuas”, destaca. Ela conta que ideias apresentadas por mulheres muitas vezes se perdem em um ambiente estruturalmente machista: “Eu vou ser sempre uma voz única, porque naturalmente eles se apoiam entre eles. Parece que sempre que vem de um homem aquilo tem mais respaldo.”
Esse ambiente faz com que ela precise “sempre fazer mais, estudar mais” para manter a credibilidade. “O tempo inteiro é essa batalha. Tendo que mostrar mais embasamento para ainda não conseguir chegar próximo da legitimidade que eles têm”, desabafa.
A CAMPANHA E O MANDATO
Antes da candidatura, pessoas ligadas à política sugeriram que ela escolhesse uma bandeira única, mas a vereadora resolveu arriscar: “Não vou conseguir só falar de saúde, só falar de educação, só falar de causa animal, porque acredito que essas coisas estão todas conectadas. Não consigo fazer essa escolha e ser autêntica”. No mandato, dividiu o trabalho em etapas para conseguir “dar um passo de cada vez e concentrar nas pautas que trouxe na campanha e poder atender todas”
O foco em um projeto de atendimento humanizado a gestantes no hospital da cidade e em uma lei para fortalecer a fiscalização da causa animal estão no topo da lista. A vereadora destaca que “a legislação da causa animal em Canela é muito fraca”. Hoffmann ainda enfatiza que o trabalho “é infinito” para quem se dispõe a ir além das sessões plenárias.
REPRESENTATIVIDADE
Apesar da regra que exige 30% de candidatas por partido, o desempenho das mulheres nas eleições surpreendeu: “Tínhamos mulheres muito qualificadas concorrendo e mesmo assim não se elegeram”, observa.
Para Hoffmann, a cota exigida e a legislação não são suficientes: “As mulheres não enxergam outras mulheres ocupando esses cargos. Fica muito na retórica de ‘vamos nos apoiar’ e, na prática, não é legitimado”, critica. Ela relaciona a situação ao machismo estrutural, “de achar que a mulher não tem a força necessária para participar desse espaço”, e à falta de sororidade entre eleitoras, que às vezes se converte em rivalidade.

DESAFIOS ÉTICOS
Embora o mandato tenha começado há pouco tempo, os desafios ligados à vida política chegaram cedo. Em março, o vereador João Alessandro Port Silveira (MDB) foi preso e, em abril, indiciado por desviar materiais de construção destinados a famílias carentes. Hoffmann destaca o episódio como negativo para toda Câmara: “Quando essas coisas são noticiadas, tem muita gente que leva pra aquele lugar comum de falar que político não presta, que é sempre assim”.
Apesar disso, Hoffmann se agarra às regras internas que precisam ser respeitadas: “Existe um regulamento dentro da Câmara de Vereadores que precisa ser seguido, assim como existe no Poder Judiciário. Então, quando o vereador foi preso, todo mundo fica um pouco em estado de choque, porque é um fato extraordinário”. A vereadora acrescenta que o caso segue em apuração: “A gente precisa esperar ser concluído o inquérito para poder analisar com calma, agora está correndo um processo aqui dentro de cassação, onde vai ser emitido um relatório, nesse relatório a gente vai poder avaliar melhor todos os fatos”. E ressalta: “É que o que a gente tem que fazer é justiça, não é vingança”.
FUTURO POLÍTICO
Questionada sobre disputar cargos maiores e sobre um possível plano de carreira, a vereadora admite ser uma dúvida de muitas pessoas: “Eu sinceramente não tenho um projeto de poder. O que eu queria era me eleger vereadora e o que eu quero nesse momento é ser vereadora.”
Para mulheres que pensam em ingressar na política, Graziela reforça a necessidade de preparação: “Que se fortaleçam. Estudem! Tu tem que ter um preparo, tanto emocional quanto intelectual”. E conclui: “Quando eu tiver 50 anos, eu quero olhar pra trás e ver que eu tive coragem, que eu fui lá, que eu concorri, independente se eu ganhar ou perder.”