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Em “A Única Saída”, a civilidade acaba quando encontra o desespero

Hallyu é o nome que se dá à expansão da indústria cultural sul-coreana pelo mundo. Nos últimos anos, essa onda não só atingiu o Ocidente como alcançou o grande público e se estabeleceu como uma das principais formas de entretenimento dos brasileiros. Além do k-pop, os pratos típicos e os k-dramas (novelas coreanas) estão cada vez mais presentes no imaginário ocidental, para que todos possam conhecer e se envolver com o universo cultural da Coreia do Sul. O cinema coreano também recebeu os merecidos holofotes quando, em 2020, Parasita, do diretor Bong Joon-Ho ganhou quatro das seis categorias em que estava indicado no Oscar. 

O cinema coreano, porém, segue premissas diferentes das outras formas de entretenimento exportadas pelo país asiático. Ele retira os filtros otimistas e bem humorados dos k-dramas, se priva do glamour apresentado no universo kpop e por vezes ainda recorre a visuais sombrios para transmitir sua mensagem. Ao contrário das outras construções impulsionadas por romance e positividade, o cinema transmite as angústias e anseios da população.

Em A Única Saída, o diretor Park Chan-Wook (A Criada) explora um dilema moderno mundial com suspense e comédia. O filme chegou ao Brasil no início de 2026 e já está disponível na plataforma de streaming da Amazon e no Mubi. Nele, o espectador conhece a história de Yoo Man-Su (Lee Byung-hun – Round 6), pilar financeiro de uma família abastada que tem sua vida perfeita despedaçada ao ser demitido da empresa de função em que trabalhou por 25 anos. Ele se junta a uma leva de antigos trabalhadores, de áreas que estão prestes a morrer graças ao avanço da tecnologia. Juntos, eles respiram fundo, controlam os batimentos e tentam ritmar os pensamentos em uma só lógica: ainda são bons trabalhadores; não foram algozes da própria demissão; não havia outra saída para a empresa; ainda existiam oportunidades mundo afora.

De volta à selva urbana do mercado de trabalho após mais de duas décadas, Man-Su transita entre vagas temporárias e vagas que não perdem tempo com ele. O protagonista arrisca tudo para voltar a posição de gestor, mas se encontra cada vez mais abaixo na pirâmide profissional e social sul-coreana. Junto com a sua carreira, a vida e os sonhos de sua família também começam a ruir. Neste momento, sua esposa, Yoo Mi-Ri (Son Ye-jin – Pousando no Amor) se torna o ponto de racionalidade da família: corta gastos, volta a trabalhar e entrega os fatos de forma dura e sincera.

Com a sua vida dos sonhos cada vez mais distante, Man-Su toma uma decisão cruel. Ele mapeia seus maiores concorrentes e os elimina, um por um. Durante cerca de duas horas, o acompanhamos na busca para voltar ao conforto de sua vida de quase um ano atrás, ao mesmo tempo em que vai perdendo todo o  seu senso de humanidade. Se o mercado de trabalho é uma guerra, Man-Su decide que será o último soldado em pé.

Man-Su enfrenta seus concorrentes um a um e enxerga neles reflexos da própria decadencia. (Divulgação/MUBI)

De forma inevitável, o criminoso se vê em cada vítima. Ao entrar em casas e vidas decadentes, de homens psicologicamente derrotados e com casamentos quebrados, Man-Su enxerga apenas um espelho. Talvez por isso, sua agressividade sempre termine por ultrapassar sua empatia. Sem a posição de gestor em uma fábrica de papel, ele não sabe mais quem é, como é visto pelo restante do mundo, nem o que representa para a sua família. As realidades de seus concorrentes viram fantasmas de seu orgulho ferido. Em meio ao seu terror pessoal, ele não percebe as formas surreais de apoio que sua esposa e filhos lhe transmitem, nem como sua mudança de comportamento afeta o equilíbrio social dentro de casa.

O enredo é construído de forma linear, através de uma lógica quase surrealista. Os personagens que interagem com o protagonista alimentam de forma inconsciente a sua paranoia. Cada interação, porém, é fundamental para que Man-Su, ao final, realize por completo o seu plano. O espectador acompanha a trama através de enquadramentos simples que conduzem a obra com fluidez. O destaque técnico vai para momentos de sobreposição entre algumas cenas, que enfatizam os sentimentos dos personagens durante o filme.

O final é direcionado para um cenário de suspense mais realista: Man-Su torna-se gestor, não de pessoas, mas de agentes invisíveis. Sozinho em meio a grandes máquinas de papel, seu único trabalho é manter a Inteligência Artificial na linha. Enquanto o protagonista comemora o suposto retorno ao topo, o espectador reflete quanto tempo essa vitória pode durar, e quando estarão todos em um cenário sem saída para antigos profissionais. Por aí, a obra de Park Chan-Wook dialoga com um anseio que ultrapassa as barreiras territoriais e sociais da Coreia do Sul.

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