Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

A presença magnética de Sebastiana em “O Agente Secreto”

foto: divulgação

Entre o silêncio e o gesto, Sebastiana emerge como o verdadeiro centro humano da narrativa.

Estreou recentemente, no catálogo da Netflix, o filme brasileiro, que foi candidato a melhor filme internacional no Oscar, “O Agente Secreto”. O longa é dirigido por Kleber Mendonça filho e estrelado pelo ator Wagner Moura e conta com nomes como Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido e Alice Carvalho no elenco. O filme se passa na cidade do Recife, em 1977, durante o período da ditadura militar no Brasil. Ele acompanha a história de Marcelo (Wagner Moura), professor que vive sob identidade falsa enquanto tenta escapar de perseguição política do regime.

Ao se instalar em um novo lugar, Marcelo passa a conviver com moradores locais e a enfrentar tensões que revelam os mecanismos de controle do Estado e as formas silenciosas de solidariedade e sobrevivência entre pessoas comuns durante a época. O filme mistura suspense político e drama humano para retratar como a ditadura afetava o cotidiano, explorando temas como identidade, memória e resistência.

Uma dessas “pessoas comuns” que Marcelo conhece, já no início da trama, é a carinhosamente chamada de “Dona Sebastiana”, interpretada por Tânia Maria. Ela é gerente do Edifício Ofir, onde Marcelo se hospeda em Recife. Edifício que, fica claro ao decorrer da trama, é uma espécie de refúgio para pessoas perseguidas que estão fugindo de algo por diferentes razões, de perseguidos políticos a pessoas LGBTQIAPN+ rejeitadas pela família.

Na maioria das cenas, a personagem parece carregar um forte simbolismo, seja através de sua voz rouca, de sua maneira única de pensar ou de estar quase sempre com um cigarro entre os dedos. Inclusive, com repercussão internacional, com, por exemplo, o destaque que o jornal The New York Times deu à presença da atriz Tânia Maria em cena. Um crítico incluiu a brasileira na lista das melhores atuações de 2025 e chamou atenção para o detalhe específico: a naturalidade com que ela fuma diante da câmera.

Sua presença parece espontânea, quase documental, o que reforça a sensação de autenticidade. Mesmo não sendo a protagonista da história ela frequentemente rouba a atenção do espectador, trazendo momentos de humor e humanidade que aliviam a tensão da narrativa e aprofundam o retrato social apresentado pelo filme.

Grande parte do impacto da personagem vem da atuação natural de Tânia Maria. Descoberta pela produção de Kleber Mendonça Filho para o filme Barucau (2019), moradora de Santo Antônio da Cobra, povoado com menos de mil habitantes no Rio Grande do Norte, até os 72 anos ela nunca tinha assistido a um filme no cinema. Passava os dias trabalhando como artesã e costureira. Hoje, com 78 anos, é citada por críticos internacionais pela sua atuação.

Durante o filme, conseguimos observar a personagem Sebastiana para além de um elemento de apoio na trama. Ela funciona como uma representação em um contexto de opressão, onde gestos de acolhimento e solidariedade podem adquirir um profundo significado político e humano.

É justamente dessa forma que Sebastiana se diferencia dos outros personagens do filme: enquanto muitos orbitam a narrativa a partir do medo, da fuga ou da tensão política, ela se constrói pela permanência e pela naturalidade dos gestos cotidianos. Se percebe nela uma força quase invisível, que não depende de grandes falas ou de conflitos explícitos, mas sim de uma presença que parece muitas vezes não atuar, apenas existir diante da câmera. Diferente dos outros, que reagem ao contexto opressor, Sebastiana o atravessa com estabilidade, transformando o ambiente ao seu redor de forma silenciosa e natural. Assim, mais do que coadjuvante, ela se impõe como o verdadeiro centro humano dessa narrativa, deslocando o olhar do espectador do filme para aquilo que sustenta a obra: a potência discreta da vida comum.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também