Usamos cookies para melhorar sua experiência, personalizar conteúdo e exibir anúncios. Também utilizamos cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Veja nossa Política de Privacidade.

A arte de permanecer em Hamnet

A adaptação mostra o luto da familia como matéria-prima para eternizar vida

Ambientado na Inglaterra elisabetana no final do século XVI, Hamnet é uma obra inspirada pela história de Hamlet, escrita por William Shakespeare, como forma de lidar com a perda de seu filho de 11 anos. Originalmente um livro lançado em 2020, a adaptação é mais ficcional do que propriamente biográfica, pois pouco se tem informações detalhadas da vida do escritor.

Desde o início do filme é apresentada uma obra que trabalha com o que é supersticioso. A primeira cena mostra Agnes, interpretada por Jesse Buckley, deitada em posição fetal nas raízes de uma árvore, como se aquilo fosse sua verdadeira casa. Nada aqui é por acaso, e isso mostra a personalidade selvagem dela. Já William Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, é apresentado observando Agnes através de uma janela, expressando sua personalidade reflexiva. Além disso, a filmagem é ditada por um ritmo lento, comum na filmografia da diretora Chloé Zhao, que quase sempre opta por cenas marcantes e que resistem aos limites da tela. Aqui, esse tom lento reforça a forma teatral que a vida de William Shakespeare e sua família levam.

Um ponto chave para a compreensão do longa-metragem é entender sua relação com o seu universo místico. A morte aqui não representa um fim, mas apenas uma fração da vida. William e Agnes agora se veem com três filhos, Susanna, a filha mais velha, e Judith  e Hamnet, irmãos gêmeos. O roteiro constrói então uma brincadeira entre eles, explorando suas semelhanças como metade de um todo. 

Além desses personagens principais, existe um que não é nem mesmo uma pessoa: a floresta. Ela é quem representa a maioria das metáforas entre vida e morte e a conexão com o sobrenatural. Quando Agnes tem sua primeira filha, ela a concebe na floresta. Em outros momentos, a floresta serve como rito de passagem para uma vida eterna. E, por fim, a morte de seu único filho homem não é no mesmo local, mas é representado por uma porta de teatro com uma pintura de árvores, como se Hamnet saísse de cena e o que surgisse fosse sua forma imortal, a de Hamlet.

WIlliam Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, se conectando com a floresta por meio da pintura. Foto: Divulgação/Focus Features

Antes alegre, o filme se vê com tons sombrios e clima pesado. A casa, sempre barulhenta, bem iluminada e cheia, agora se torna um experimento do luto, com cenas vazias e com baixa iluminação. As posições de câmera definidas pela diretora ampliam ainda mais esse sentimento. O filme toma um lado introspectivo, e somos apresentados a cenas quase sempre em lugares fechados, com uma sensação sufocante. Em muitos momentos nos deparamos vendo a cena pela moldura da porta entreaberta, as costas dos personagens, quase como se estivéssemos espiando a intimidade daquela família.

Shakespeare não presencia a morte do filho pois estava em Londres e, agora, enfrenta seu maior desafio, superar sua dor de culpa por meio de algo palpável. Quando ele encara seu reflexo em frente ao mar e pensa na morte, ele sente a necessidade de estar vivo. “Ser é fazer” é a conclusão a que ele chega. Ali, as palavras se tornam sua peça teatral. Ali é criado Hamlet.

Os 30 minutos finais do filme são dedicados inteiramente a seu espetáculo, que serve como a compreensão do luto. A chegada de Agnes ao teatro é despercebida, mas ressaltada pela escolha do figurino em um vestido vermelho intenso, raivoso e profundo, refletindo tudo que está dentro da personagem. Conforme acompanha a obra criada por seu marido, os close-ups em seu rosto mostram a compreensão de que seu luto era barulhento, mas o dele era silencioso. Ao final da obra, a dor carregada pelos pais não cessa, mas ela acha conforto na eternidade de seu filho através da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também