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“A Nobreza do Amor” estreia com narrativa promissora, mas ainda distante

Primeiro capítulo da nova novela da Globo impressiona no visual mas deixa em aberto a construção da história

A nova novela das 18h da Globo, A Nobreza do Amor, estreou na segunda-feira (16) com a proposta de unir romance, política e ancestralidade em uma fábula afro-brasileira. Criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., a trama substitui Eta Mundo Melhor e, já no primeiro capítulo, deixa claro que sua aposta está no protagonismo negro e na construção de uma narrativa que valoriza referências culturais pouco exploradas na teledramaturgia brasileira.

A história se divide entre o reino fictício de Batanga, na África, e o sertão nordestino nos anos 1920. Rica em recursos naturais, a nação africana vê sua realeza ruir após um golpe liderado pelo primeiro-ministro Jendal, interpretado por Lázaro Ramos, que trai a família real. A princesa Alika (Duda Santos), única personagem além de Jendal cuja personalidade se apresenta com mais clareza nesse piloto,  forte e inteligente, consegue fugir com a mãe, a rainha Niara (Erika Januza), para o Brasil, onde passam a viver com identidades falsas em Barro Preto. A partir daí, a narrativa se encaminha para uma história de resistência e reconexão com as raízes.

Somos apresentados, nesse pontapé inicial, ao começo dos esquemas de traição de Jendal. O primeiro capítulo chama atenção, mais do que pela história, pelas escolhas estéticas e políticas. O elenco majoritariamente negro pode parecer uma escolha óbvia dentro de uma narrativa sobre realeza africana, mas, historicamente, isso nem sempre se concretizou na teledramaturgia. Diferente de produções anteriores que se apropriaram de referências culturais estrangeiras de forma superficial, A Nobreza do Amor demonstra maior cuidado ao alinhar narrativa e elenco, e isso faz diferença na construção de credibilidade.

Lázaro Ramos surge como um dos pontos mais interessantes. Conhecido por papéis carismáticos, vê-lo no papel de vilão pode causar estranhamento, mas, já nos primeiros minutos, as possibilidades de dar certo são altas. Suas expressões e presença em cena constroem um vilão convincente, marcado pela ambição, que fortalece o principal conflito da história e indica um futuro promissor para o personagem.

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Aos 47 anos, Lázaro tem o desafio de interpretar seu primeiro vilão de novela (Foto: TV Globo/Estevam Avellar)

Visualmente, a novela se destaca. A fotografia e os cenários chamam atenção e contribuem para a construção de um universo que mistura realismo e elementos míticos. Apesar disso, o excesso de cenas contemplativas, especialmente as ambientadas no deserto, tornam o ritmo mais arrastado do que o esperado para um capítulo de estreia, que normalmente precisa apresentar personagens e conflitos com mais agilidade.

Aqui, a novela parece priorizar a grandiosidade estética em vez da construção narrativa inicial. Temos, por exemplo, apenas um vislumbre do protagonista adulto, Tonho, e nenhum desenvolvimento da trama do casal principal. Fica nas entrelinhas o entendimento de que Alika e Tonho nasceram um para o outro, e não são apresentados elementos suficientes, ou quase elemento nenhum, que façam o espectador torcer por eles.

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Duda Santos e Ronald Sotto interpretam o casal principal, Alika e Tonho, unidos por uma profecia (Foto: TV Globo/Divulgação)

Ainda assim, o tom mais lento dialoga com a ancestralidade, elemento central da obra. A novela não se apoia apenas em uma narrativa linear, mas também em simbologias e visões místicas, como na cena do nascimento de Tonho. Carregada de significado, antecipa a importância das raízes, da espiritualidade e do destino na narrativa. Dona Menina, parteira e benzedeira, ao profetizar o destino de Tonho, surge como uma figura ancestral que reforça a conexão com o espiritual.

A trilha sonora reforça esse posicionamento. A escolha de “Zumbi”, de Jorge Ben Jor, na abertura, estabelece uma conexão com a cultura afro-brasileira e ajuda a situar o espectador dentro da proposta. A canção resgata a presença histórica dos povos africanos, trazendo para o imaginário brasileiro uma realeza que raramente ocupa esse espaço nas narrativas televisivas.

No fim, A Nobreza do Amor estreia com acertos, mas não se arrisca no envolvimento com seus personagens. O elenco é forte e a construção estética chama atenção. No entanto, ao priorizar a grandiosidade visual no piloto, a novela deixa em segundo plano a criação de vínculo com o público, essencial para sustentar o interesse ao longo da narrativa. Resta agora acompanhar se, nos próximos capítulos, a obra conseguirá equilibrar melhor narrativa e estética, e transformar seu potencial em uma história marcante.

A Nobreza do Amor: veja os destinos que servem de cenário aos locais  fictícios da trama | Gshow
(Foto: TV Globo/Estevam Avellar)

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