Foto por Bel Gandolfo
O último álbum de Don L, lançado em junho do ano passado, CARO Vapor II – qual a forma de pagamento?, chega ao cenário musical brasileiro como uma obra que tensiona limites: entre rap e MPB, entre manifesto político e experimento estético, entre crônica urbana e projeção de futuro. Para além de uma sequência da mixtape lançada em 2013, o disco se apresenta como um salto conceitual.
Ao longo de suas 15 faixas, Don L constrói um trabalho que recusa o lugar-comum do rap contemporâneo. Em vez de seguir tendências globais, o artista investe em uma descolonização sonora, incorporando elementos da bossa nova, do samba-jazz, do funk, do baião e de outras matrizes brasileiras e afro-diaspóricas. Essa escolha sustenta o discurso central do álbum: a necessidade de pensar o Brasil (e o Sul Global) a partir de si mesmo, e não como reflexo do Norte global.
Há, nesse sentido, uma ambição clara de reposicionar o rap dentro da música brasileira. Don L não abandona o hip-hop, mas o expande, transformando-o em ferramenta para revisitar tradições e construir novos gêneros musicais. O resultado é um disco que soa, ao mesmo tempo, familiar e estranho: reconhecível em suas referências, mas singular na forma como as reorganiza.
Liricamente, Caro Vapor II é um retrato fragmentado do Brasil contemporâneo. O álbum atravessa temas como capitalismo tardio, precarização da vida, identidade, migração e desejo de ascensão, filtrados por uma escrita que oscila entre o ensaio político e a poesia de rua. Em faixas como “iMigrante”, Don L articula uma crítica direta à exclusão social e às fronteiras simbólicas impostas aos corpos dissidentes. Já em “Para Kendrick e Kanye”, o rapper dialoga com a própria história do hip-hop global, mas sem subserviência, afirmando autonomia estética e ideológica.
Só quero meu espaço
Minha paz, minha parte (meu trabalho)
Meu amor, minha arte
Se incomoda como eu falo
Danço, ando, canto e claro
O quanto eu sou pagoiMigrante – Don L
O conceito do álbum se apresenta em seu subtítulo qual a forma de pagamento? e funciona como eixo narrativo: quanto custa viver com dignidade em um país marcado por desigualdades estruturais? A resposta, como o disco sugere, não é simples nem linear. Don L constrói um mosaico de contradições, onde desejo e frustração, utopia e cinismo coexistem.
Musicalmente, o álbum impressiona pela densidade. A produção, assinada pelo próprio artista em parceria com nomes como Nave e Iuri Rio Branco, aposta em camadas ricas de samples e instrumentação orgânica, criando atmosferas que se aproximam, em alguns momentos, de uma trilha cinematográfica. Essa abordagem reforça a ideia do disco como obra imersiva, como o próprio artista já sugeriu.
O saldo é amplamente positivo. Don L reafirma sua posição como um dos nomes mais inquietos e relevantes do rap nacional, não apenas pela qualidade técnica, mas pela capacidade de pensar o gênero para além de seus limites convencionais.
CARO Vapor II não é um álbum de consumo rápido. É um disco que exige escuta atenta, repertório e disposição para o desconforto. Ao recusar fórmulas fáceis e apostar em uma visão autoral radical, Don L provoca ao entregar uma obra que dialoga com o presente, enquanto tenta reimaginar o futuro da música brasileira.
