Esporte

Xadrez como ferramenta de inclusão social

A Beta Redação conversou com pessoas que inseriram o Xadrez em suas vidas de maneiras muito distintas; o que as une são seus objetivos: construir um mundo melhor sendo pessoas melhores

Diferentemente daquilo que muitos podem pensar, o Xadrez é considerado como sendo um esporte. Sua origem é bastante imprecisa, pois muitos acreditam que o jogo tenha sido inventado na Ásia. A versão mais aceita é de que o jogo surgiu na Índia, inicialmente sendo chamado de “Chaturanga”, espalhando-se dali para lugares como China, Rússia, Pérsia e finalmente, Europa, onde recebeu as regras que se seguem até hoje.

É um jogo que tem por objetivo conquistar a peça de maior importância do adversário, o rei. Jogado em um tabuleiro quadrado, com um total de 64 casas de cores que se alternam, composta por oito linhas e oito colunas, oito peões, duas torres, dois cavalos, dois bispos, um rei e uma rainha que são distribuídos de cada um dos lados, o jogo é um excelente exercício cerebral.

Sem dúvidas, o Xadrez é um jogo que se mostra capaz de desenvolver diversas funções cognitivas nas pessoas. Alguns estudos feitos revelam que seus praticantes podem ter um aumento significativo de seu QI, o Quoeficiente de Inteligência. É um esporte mental que promove o desenvolvimento do cérebro de forma bastante abrangente, fazendo uso de ambos os hemisférios cerebrais. Pode ser uma ótima ferramenta na prevenção do Alzheimer também, segundo estudo do The New England Journal of Medicine. Aumento da criatividade, da capacidade de resolver problemas, melhora no momento de tomar decisões, maior capacidade de fazer planos e otimização da memória também estão entre os benefícios quem vêm com a prática do jogo.

Democrático, o Xadrez abriga amantes profissionais e amadores, como é o caso de Marcelo Oliveira, que despertou interesse pelo jogo aos oito anos, quando ganhou um conjunto da mãe no Natal. Ele conta que levou um certo tempo até realmente aprender todas as regras, tendo facilidade para jogar quando atingiu os doze anos de idade. “Acredito que é um jogo que ajuda a trabalhar principalmente a concentração. Ajuda a desenvolver bastante o pensamento lógico, trabalhar a mente pra tentar prever os próximos movimentos.”

As peças do Xadrez, em ordem: torres (nas extremidades), cavalos, bispos, rei (esquerda) e rainha (direita). Os oito peões são iguais, pequenos e baixinhos, formando uma linha em frente às demais peças. Foto: Rodrigo Denúbila, Flickr.

As peças do Xadrez, em ordem: torres (nas extremidades), cavalos, bispos, rei (esquerda) e rainha (direita). Os oito peões são iguais, pequenos e baixinhos, formando uma linha em frente às demais peças. Foto: Rodrigo Denúbila, Flickr.

O enxadrista e professor de Xadrez Marco Aurélio Zaror Cordeiro confirma: “Como professor, os ganhos para os alunos são incríveis, tanto para o QI quanto para a questão afetiva, você percebe essas mudanças nos alunos.”

Marco Aurélio é enxadrista há mais de trinta anos. Ele conta que tudo começou em 1984, em sua escola de Ensino Fundamental, o Colégio Municipal Omar Sabbagi, por volta da 6ª ou 7ª série. Desde então ele já participou de mais de mil campeonatos, tendo ensinado a mais de cinco mil crianças e jovens a arte do Xadrez.

Ele frisa que pode ser um pouco complicado enxergar os benefícios do Xadrez logo no início, mas afirma que “Naquela época, o Xadrez me deixou mais tranquilo, calmo, menos ansioso [e] me ajudou muito, principalmente na questão social pois o bairro [de onde venho] era bastante complicado e vulnerável, socialmente falando. [Havia] muitos problemas de vulnerabilidade social, até mesmo da minha família, com isso ganhei oportunidades de trabalho, estágio, bolsas de estudo e consegui “respirar um ambiente melhor”, tudo graças ao Xadrez.”

Para ele, faltam políticas públicas que incentivem os desportos, de maneira geral, bem como o Xadrez, é claro. “A gente ainda vê uma concepção desportiva muito primitiva, elitista e futebolesca. Não há uma preocupação com a base, não existe um programa que contemple os enxadristas e também outros atletas de esporte amador em geral. Nos países desenvolvidos eles têm as condições para chegar aos resultados, já no Brasil é necessário ter os resultados para chegar às condições. Há muito o que avançar nessa perspectiva. A gente percebe que o esporte, como ferramenta educacional ainda é [algo] pouco utilizado”

Quando questionado a respeito das condições que são oferecidas aos enxadristas profissionais, ele é taxativo: “É muito difícil viver do Xadrez aqui no Brasil. É possível sobreviver dando aulas, mas muito difícil sendo um jogador.” Apesar de tudo, ele ainda enxerga a caminhada do esporte como algo recompensador, lembrando dos momentos em que foi possível conhecer outros países, pessoas e culturas por causa do esporte.

Sucesso até mesmo no mundo da ficção, essa é uma réplica do "Xadrez de Bruxo", jogo que faz parte do universo de Harry Potter, criado por J. K. Rowling. A foto foi feita na exposição de itens da saga que aconteceu no Iguatemi Porto Alegre, até o último dia 31 de maio. Foto: Milena Riboli/Beta Redação

Sucesso até mesmo no mundo da ficção, essa é uma réplica do “Xadrez de Bruxo”, jogo que faz parte do universo de Harry Potter, criado por J. K. Rowling. A foto foi feita na exposição de itens da saga que acontecia no Iguatemi Porto Alegre, até o último dia 31 de maio. Foto: Milena Riboli/Beta Redação.

A professora Cidonia Busatta, da Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo, que atua juntamente à ONG Embrião, fundada em Alvorada/RS, conta que a Rede Municipal das escolas da cidade está com um projeto de Xadrez que já vem sendo desenvolvido desde o início do ano.

“O projeto, denominado “Além do Xeque Mate” está sendo reimplantado em todas as escolas do município. A prática acontece no turno regular da aula, dentro da hora-atividade do professor regente, [também] como projeto extraclasse em turno contrário e acontece em todas as escolas, na disciplina de Matemática no Programa Novo Mais Educação (PNME).”

Ela explica que os professores e coordenadores do PNME de todas as escolas da rede passaram por um período de formação no começo de março, que durou uma semana. Em abril, tiveram acompanhamento em pequenos grupos, conforme a região de cada escola. Em maio todos os monitores foram reunidos para aprofundamento técnico e pedagógico do jogo.

Em comemoração ao Dia do Enxadrista, que acontece em 31 de maio, as escolas participaram de um festival onde haviam cinco modalidades diferentes: blitz 5min, rotativo, australiano, batalha de peões e Xadrez gigante.

A próxima atividade organizada pela ONG ocorrerá no dia 22 de junho, na EMEF Pres. Nilo Peçanha, localizada em Novo Hamburgo, onde os alunos se envolverão na construção das peças para o Xadrez gigante utilizando-se de materiais recicláveis.

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