Cultura

WEBDOC: Dress Like A (?)

Ser drag queen é tecer uma nova pessoa com as próprias mãos. É desvencilhar-se de si mesmo para assumir outra identidade. É brincar com padrões de gênero, com as roupas, calçados, perucas, maquiagem. É entrar em um universo de possibilidades para ser quem quiser, quando quiser. A Beta Redação apresenta o webdoc Dress Like a (?), que conta a história de duas drag queens, Cassandra Calabouço e Sarah Vika, e sua vida fora da personagem.

Confira:

* Um agradecimento especial aos entrevistados e ao Vitraux, em Porto Alegre, pelo espaço cedido para as filmagens da festa.

A Beta Redação também conversou sobre o tema com o Felipe Vieiro, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos:

É possível enquadrar a definição de draq queen nos estudos de gênero? Como?

Felipe: A autora Judith Butler escreveu um livro chamado “Problemas de Gênero”, no qual ela faz toda uma discussão a partir da drag queen que é muito interessante. Ela vai dizer que a drag quando performa é o feminino, mas é o feminino exacerbado, exagerado, uma vez que a drag é sempre muito hiperbólica. Ela usa roupas muito coloridas, maquiagens muito fortes o cabelo muito produzido, ela não almeja ser uma mulher: ela hiperboliza os traços que acreditamos como femininos.

Outra autora, Guacira Lopes Louro, vai falar que a drag é uma paródia de gênero, não no sentido depreciativo, muito pelo contrário. Ao performar um exagero do gênero feminino no palco, a drag queen demonstra que todos os outros gêneros são passíveis de serem performados e constituídos. Quando a drag coloca várias meias para deixar sua perna mais grossa, por exemplo, quando ela faz uma dublagem ou uma performance em um palco, ela dá a ver que todos os outros gêneros também são construídos.

Trabalhos falam sobre como é diferente uma performance de drag queen e drag king (performance do gênero masculino).  A drag queen, é a performance hiperbolizada do gênero feminino, mas o masculino se torna mais difícil de ser performado, justamente por que se trabalha em uma lógica de que o homem é o neutro, tanto que quando se fala em sociedade, se fala em “os homens”, como se essa expressão desse conta de tudo. O masculino é difícil de ser desconstruído e reconstruído.

 

Sobre a questão da feminilidade das drag queens: Elas não querem necessariamente ser mulheres, e ao mesmo tempo é uma identidade transitória. Como isso é destacado nos estudos de vocês?

Felipe: A identidade de uma drag queen ou de um drag king existe no momento de uma performance, no momento do palco, ela se constitui em um camarim e depois ela se desmonta. Existe muito a questão de uma performance artística. Diferente das travestis e dos transexuais, por exemplo.

 

Então drag queen é diferente de travesti que, por sua vez, é diferente de transgênero. Pode se dizer que cada um constitui uma identidade de gênero próprio?

Felipe: Quando se fala em homossexualidade estamos falando em orientação sexual, que não tem nada a ver com identidade de gênero. A identidade de gênero a travesti, o transexual a mulher cis gênero, o homem cis gênero (que se identificam com o gênero com que nasceram). A drag queen e o drag king são sujeitos que têm uma performance artística, que podem ser travestis ou homossexuais, mas não necessariamente o são.  O corpo é fabricado.

 

Essa cultura pode ser considerada underground ou houve uma popularização através  de programas midiáticos e da cultura pop que de certa forma se apropriam destes elementos exacerbados em certos momentos?

Felipe: É uma cultura underground, mas também é apropriada pela cultura pop. A gente está falando de um rompimento com certos padrões. A sociedade impõe padrões muito rígidos sobre o que é ser mulher, o que é ser homem, sobre como homens devem se portar, sobre como mulheres devem se portar, e a drag queen ou o drag king desconstroem esses padrões. Quando se percebe a drag queen montada, se percebe que todos os outros corpos são montados. A gente se monta para sair de casa, a roupa que escolhemos demonstra isso. Acredito que essas apropriações do mundo pop renovam essa cena que existe há muito tempo. Traz à tona, dá visibilidade à arte, para que ela seja mais visualizada e compreendida.  Quando se traz esse universo para programas de grande visibilidade, há a possibilidade de aproximar pessoas que tinham um certo estranhamento, que talvez o conheçam e talvez se tornem menos preconceituosas. Mas acho que também existe um incômodo muito forte com o que se pode entender como essa ruptura de uma norma de gênero, que coloca homens com determinado tipo de julgamento e mulheres com outro.

Ao performar um gênero, as drags mostram muito claramente que todos nós passamos por processos de construção. Desde o quarto do menino ser azul e o da menina ser rosa. Desde a forma que a gente fala: se comporte como uma menina, se comporte como um menino – e a gente sabe o que isso significa. A gente tem uma série de expressões que denotam os lugares estabelecidos para os gêneros. Acho que quando a gente tem uma performance drag a gente consegue colocar isso em perspectiva.

 

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