Política

A voz das ruas (por quem mora nelas)

Pessoas em situação de rua de Porto Alegre opinam sobre manifestações, impeachment e política

No dia em que a Câmara dos Deputados votaria o processo do impeachment, fomos às ruas perguntar àqueles que nelas habitam o que pensam sobre o momento atual do país. Diversas manifestações vêm ocupando as ruas do país. Mas, afinal, quem vive nelas pensa o que sobre isso?

Alcemiro Ferreira Soares, natural de Candelária, há 41 anos mora em Porto Alegre. Exatamente neste domingo, dia 17 de abril, Alcemiro completava 60 anos. No dia do seu aniversário, catava latinhas na Redenção. “Durante a semana, trabalho na construção civil. Venho aqui nos domingos, tem muito material”, explica ele sobre sua situação.
Enquanto Alcemiro arrumava as latas em sacolas plásticas, ecoavam ao fundo gritos e batuques da mobilização contra o impeachment, que estava sendo organizada por setores da cultura.

Para Alcemiro, que votou em Dilma nas últimas eleições, a maioria das pessoas não quer que ela continue no cargo. “Eu vejo as pessoas falarem, e a cada 50, só cinco querem que ela fique”, fala com tom sério. A melhor saída, segundo o servente de obra, seria a população escolher quem deve governar caso a presidente seja afastada. “Ela (Dilma) deve sair, mas o povo que tem que escolher quem deve assumir”, opina.

Alcemiro Ferreira Soares. (Foto: Karla Oliveira)

Alcemiro Ferreira Soares. (Foto: Karla Oliveira)

Sobre o futuro do país, Alcemiro tem esperança. “Vai endireitar, vai melhorar. Olha como o mundo era, quantas guerras aconteceram, e tudo se resolveu.” Quando questionado o que desejaria no seu aniversário, sem hesitar, afirma: “trabalho e trabalho, só o que eu peço”.

Do outro lado da Redenção, Marco Antônio Zanelatto Neuhaus, de 34 anos, empurrava seu carinho de supermercado cheio de sacos de lixo preto pendurados. Assim como Alcemiro, ele estava catando latinhas. “Sou de Canoas, mas estou há 2 anos em situação de rua aqui em Porto Alegre”, explica. Ele já foi motorista de “carreta” e hoje vive nas ruas da Capital. Para Marco Antônio, que acompanha o que acontece no país pelos noticiários quando vai em alguma lancheira, a dúvida é se o afastamento da presidenta é a melhor solução. “Eu vou fazer uma pergunta agora: se ela sai, quem vai ir no lugar dela? Querem tirar ela, e vão botar quem?”, questiona o ex-motorista. Sobre o atual governo, ele opina: “Sempre gostei do PT, até o governo Lula. Não imaginava essa bagunça agora”.

Marco Antônio. (Foto: Karla Oliveira)

Marco Antônio. (Foto: Karla Oliveira)

Sobre as manifestações, que ocupam seu espaço de moradia, Marco Antônio respeita e quer ser respeitado. “Cada cidadão pode se manifestar, desde que não haja roubo e nem violência. Tem gente que está aqui tomando chimarrão, com a família, e não quer participar.”

Na Avenida João Pessoa, em frente aos prédios da UFRGS, Creomar Rufino observava a manifestação pró-governo que marchava em direção da Praça da Matriz. Da calçada, acompanhou a troca de ofensas entre os manifestantes e um senhor que batia panela na sacada de um prédio em forma de apoio ao impeachment. Com 53 anos, Creomar acredita em duas soluções para a conjuntura atual. “Ou a presidente Dilma toma o país, e governa, ou desocupa o cargo.” Ele acredita que um homem ocupando a cadeira presidencial talvez fosse a saída. “Precisa de um homem para administrar”, opina. “Acho que a dona Dilma precisa de um tempo para refletir, e depois voltar”, sugere.

Creomar Rufino. (Foto Karla Oliveira)

Creomar Rufino. (Foto Karla Oliveira)

No Parcão, no bairro Moinhos de Vento, as cores eram verde e amarelas. Espaço conhecido pelas mobilizações contra o governo do PT, Márcio André Paludo, de 32 anos, vai até lá para recolher material para vender. “Moro em uma pensão na Voluntários, venho aqui porque tem muito material”, explica sobre a escolha do local. Sobre a política, Márcio acha que a presidente “deve sair porque roubou demais”. Há 2 anos em Porto Alegre, Márcio votou em Dilma nas últimas eleições e diz que, para se informar, escuta rádio.

Sentado em um banco, próximo aos manifestantes que vestiam verde e amarelo, estava Claudio de Moura Gomes, 52 anos. Quando questionado sobre o que deveria acontecer, Claudio respondeu que “ela tem que sair mesmo, ninguém me ajudou”. Para Claudio, as manifestações são vistas como normais. “Fico aqui na minha, só olho.”

Cláudio de Moura Gomes. (Foto: Karla Oliveira)

 

Assista aos depoimentos em vídeo:

 

(vídeo: Karla Oliveira)

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