Esporte

CRÔNICA: A várzea ainda não morreu

Com quase 20 anos de existência, o 100% Beko é um dos times de futebol de várzea que se mantém em Porto Alegre

Meu pai, o Kiko, como é conhecido pela família e amigos, é um amante do futebol – assim como muitos brasileiros. Escolheu o Internacional como time do coração e da alma com cerca de oito anos de idade. A paixão era tanta que, de 1974 a 1976, chegou a jogar nas categorias infantil e infantojuvenil do clube, ainda no antigo Estádio dos Eucaliptos.

O gosto pelo esporte o incentivou a fundar um time de várzea, que surge também da amizade cultivada entre ele e seus amigos do Conjunto Residencial IPÊ 1, no bairro Jardim do Carvalho, em Porto Alegre.  O 100% Beko nasce como equipe de futebol de salão, mas logo migrou para o campo, pois a procura de participantes foi grande. O nome é uma homenagem ao antigo Beco do Carvalho (atual Avenida Antônio de Carvalho), com a troca da letra “C” por ‘K’, para ser diferente. O símbolo do time é o cachorro da raça pitbull, representando a garra e pegada de todos que, segundo meu pai, nunca se entregam.

O primeiro fardamento foi um presente de um amigo próximo. Meias, calções e camisetas do Flamengo, peças que foram usadas por um ano inteiro, até que o 100% Beko confeccionasse a própria identidade. Em homenagem ao meu avô Homero, torcedor do Mengão, as cores preto, vermelho e branco permaneceram. E assim os jogos informais ganharam organização e comprometimento. Além de confraternizar e estreitar laços de camaradagem e de boa convivência, os jogadores do 100% Beko fazem do esporte um veículo de integração da sua comunidade com as outras que os circundam.

 

Em 1998, o time ainda usava uniforme do Flamengo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 1998, o time ainda usava uniforme do Flamengo. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Disputam partidas e campeonatos em duas categorias: a de Veterano, para jogadores de até 40 anos, e a de Master, para jogadores acima de 50 anos. Desde então, integram a Liga de Futebol Amador da Praça Darcy Azambuja (Intercap), onde já tiveram a felicidade de erguer, em diversas oportunidades, a taça de campeões. As vitórias foram tantas que meu pai não consegue enumerar, é difícil contar. Mas destaca: o time quase sempre acaba entre as cabeças de primeiro, segundo e terceiro lugar.

Lembro que a casa em que eu morava no IPÊ 1 já exercia a função de sede do time muito antes de tornar-se de fato. A máquina de lavar e o varal da minha mãe recebiam visitas regulares dos fardamentos dos jogadores. Eram camisetas, calções e meias por todo o lado. Todos numerados metodicamente pelo meu pai. Até que um dia ela deu um basta: “A máquina não vai aguentar tanto barro e areia. Cada um lava o seu na sua casa”. Durante um bom tempo uma das peças da residência era praticamente uma sala de troféus e medalhas. Eu morria de medo de chegar perto e derrubar tudo aquilo.

 

O time coleciona taças e medalhas em quase 20 anos de existência. (Foto: Arquivo Pessoal)

O time coleciona taças e medalhas em quase 20 anos de existência. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

No início, o time se ergueu pelo patrocínio de um dos fundadores. Mas logo em seguida, por meio de rifas e galetos, arrecadava fundos para arcar com as despesas de campo, fardamento, juiz e outros gastos. A tática se mantém até hoje, mas com o adicional da roda de samba que acontece nas noites de sábado e domingo, na própria sede do time.

Seja morando em Sapucaia do Sul ou em Porto Alegre, meu pai faz questão de levantar cedo em pleno domingo para jogar. Hoje, com 55 anos, a agilidade e a disposição talvez não sejam as mesmas de 1997, mas ele continua a correr atrás da bola. Tem no corpo mais contusões e machucados que qualquer jogador profissional. Como diz a minha mãe: “É um ‘canela de ouro’”. Risos.

Kiko aproveita enquanto pode, pois, para ele, o futebol de várzea está à beira de acabar. Segundo ele, espaços como o Campo do Porto e o do Força e Luz foram vendidos e transformados em outros empreendimentos. O campinho ao lado do Colégio Murialdo de Porto Alegre logo será um estacionamento para a instituição. Há muito se fala entre os times e organizações que a várzea está morrendo, mas o 100% Beko, como moço de quase 20 anos, se mantém presente nos jogos enquanto houver bola rolando e areia pairando.

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Comentários

2 comentários sobre “CRÔNICA: A várzea ainda não morreu”

  1. Paulão disse:

    Parabéns pela Cronica a “Várzea Ainda Não Morreu” em homenagem ao nosso glorioso e campeonissimo 100% Beko do Beco do Carvalho. Somos adversários sim, mas inimigos nunca. É uma linda homenagem à quem luta cotidianamente para mantermos acesa essa chama que, esta dentro de nós, queremos deixar um legado, para os mais jovens, que ao invés, de pensar em coisas ruins, que usem o futebol como instrumento principal para as suas vidas. Pois ele só nos trás amizades e muitas alegrias, algumas decepções, mas não fere as conquistas que são, o respeito e o carinho que temos pelos seres humanos. Um forte abraço do Paulão da Tuca e do nosso também Vermelho e Preto = Flamenguinho da Tuca.

  2. Gerson selayaran disse:

    Eu sou fã desse time hj não posso mais jogar em vista se contrai uma doença assassina mas estou sempre nas redes sociais para saber as notícias do 100% beko. Abraços ize

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