Economia

Por que o aeroporto de Portão ainda não decolou?

Integrante de comitê que busca a construção do empreendimento diz que ainda não há um projeto concretizado. Apesar disso, espera que novos ventos traguem boas notícias

A proposta de construção de um aeroporto em Portão, no Vale do Sinos, ainda não decolou. As negociações para que a obra ganhe corpo estão paralisadas desde outubro do ano passado, conforme João Hermes Nogueira Junqueira, assessor de Transporte e Trânsito da Unisinos e representante da universidade no Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro (veja a entrevista completa abaixo). O desejo de que a obra seja transposta do sonho para a realidade enfrenta entraves há anos.

Foi em 2014 que Portão ganhou o direito de sonhar, após o primeiro endereço ser descartado. Segundo reportagem do jornal Zero Hora, em 2013, havia uma área  disponível para receber o empreendimento na divisa entre Portão e Nova Santa Rita. No entanto, o Departamento Aeroportuário do Estado (DAP) constatou que, nessa localização, haveria a possibilidade de interferência na Base Aérea de Canoas.

Com isso, o sonho mudou de endereço. A proposta de criação do 20 de Setembro foi repensada para outra área rural, de 2,1 mil hectares, em Portão. Parte da justificativa para o empreendimento, destaca Junqueira, está atrelada ao fato de que o fluxo de trânsito de pessoas e o volume da produção econômica do Estado têm aumentado muito nos últimos anos. Para ele, o Aeroporto Internacional Salgado Filho está localizado em uma região densamente povoada e, com o passar do tempo, não daria conta de todas as demandas.  Na mesma linha de Junqueira, o presidente do Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro, Nelson Riet, enxerga oportunidades de negócio com uma operação aeroviária na região. “O Salgado Filho não tem condições de operar com grandes aviões cargueiros e nem terá essa condição com as reformas que podem ser feitas. Atualmente, empresas gaúchas que exportam por via aérea têm de levar os seus produtos em caminhão até São Paulo, para, de lá, fazer a remessa ao Exterior”, ressalta.

 

Presidente do Comitê, Nelson Riet/Foto: Luciane Bohrer

Presidente do Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro, Nelson Riet (Foto: Luciane Bohrer)

 

Nas palavras de Riet, o sonho toma forma de proposta. Para ele, a construção do empreendimento em Portão contemplaria, no mínimo, duas pistas para aterrissagem e decolagem simultâneas, uma grande estrutura de terminais de passageiros e também equipamentos de proteção de voo, que permitiriam pousos e decolagens por instrumentos.

Em junho do ano passado, o governo federal havia anunciado um conjunto de decisões voltadas à implementação de obras de infraestrutura para o país, incluindo investimentos em logística e aeroportos. No comunicado, foram garantidas ações para a revitalização do Salgado Filho. Entretanto, nada foi dito a respeito do aeroporto 20 de Setembro.

Segundo Riet, o objetivo do comitê é conseguir que o Planalto conceda à empresa privada que assumir a administração do Salgado Filho também o direito de construir o 20 de Setembro.

Ainda que não haja nem projeto de aeroporto tramitando oficialmente nas instâncias federais, no município,  a prefeita de Portão, Odete Rigon (PMDB), mostra otimismo. Do mesmo partido do presidente interino, Michel Temer (PMDB), ela diz que está animada com a possibilidade de um novo aeroporto, pois indústrias exportadoras poderiam se instalar na cidade e em municípios próximos. Para ela, o empreendimento impulsionaria a economia gaúcha.

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ENTREVISTA: “Como não temos projeto, não temos orçamento que indique os custos envolvidos”, diz engenheiro

Professor do curso de Engenharia Civil da Unisinos, João Hermes Nogueira Junqueira afirma que existem estudos preliminares para a construção do 20 de Setembro. No entanto, de acordo com o integrante do comitê, o que há de mais concreto até o momento é o desejo de integrantes do grupo para que o aeroporto prospere. Confira a entrevista:

Em que ponto estão as negociações?
Estão paralisadas desde outubro de 2015. Com a mudança recente do governo federal, as conversações foram reativadas junto ao governo do Rio Grande do Sul e com o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Ambos se colocaram como parceiros para viabilizar o novo aeroporto.

Existe algum projeto?
Não existe projeto ainda. O que existe são alguns estudos preliminares, de demanda e de localização do novo sítio, que apontam para a necessidade de construção de um novo terminal devido à impossibilidade de o aeroporto Salgado Filho atender, com segurança e qualidade, a demandas de cargas e passageiros no futuro. Pretende-se, com essa proposta, que o novo aeroporto seja classificado como nível A da IATA (Associação Internacional de Transportes Aéreos), algo impossível de acontecer com o Salgado Filho.

Então, o que há de concreto até agora?
A vontade dos integrantes do comitê, do governo do Rio Grande do Sul, do comando da aeronáutica, dos municípios de Portão, Nova Santa Rita e Capela de Santana e de muitos integrantes da sociedade gaúcha que entendem a importância da construção desse novo terminal e lutam por isso. A mobilidade aérea das cargas e passageiros de nosso território só será conquistada com a construção do aeroporto 20 de Setembro.

Quanto dinheiro seria necessário para a realização da obra?
Como não temos projeto, não temos orçamento que indique os custos envolvidos. Só com a elaboração de um estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental será possível quantificá-lo. Estimam-se recursos na faixa de R$ 2 a 4 bilhões para o início da operação.

Qual o local exato onde o aeroporto poderia ser construído?
No município de Portão. Contudo, a localização definitiva só será conhecida após a realização dos estudos.

Qual foi o critério usado para definir esse local?
Estudos da aeronáutica indicaram as coordenadas geográficas adequadas para a localização, que permitissem operar os voos do Salgado Filho e Base Aérea de Canoas na mesma área. O sítio é cercado por rodovias e ferrovias, permitindo uma boa acessibilidade ao local, situado no centro de gravidade da economia do Estado, próximo à Capital, com terreno favorável à construção e livre de interferências das áreas urbanas da Região Metropolitana de Porto Alegre.

A operação conjunta de duas pistas de pouso e decolagem necessita de mil metros de distância entre as mesmas. A proposta do novo terminal é de quatro pistas, o que determina uma área de sítio aeronáutico de 2 a 2,5 hectares. Isso representa um terreno cinco a seis vezes maior do que a área do aeroporto Salgado Filho.

Quais são as partes envolvidas?
A responsabilidade de implantação de um aeroporto internacional como o 20 de setembro é do governo federal, através da Secretaria de Aviação Civil, hoje incorporada ao Ministério dos Transportes. O Comando da Aeronáutica, o Governo do Estado e os municípios que receberão a área do aeroporto, bem como os órgãos ambientais, IBAMA, FEPAM e SMMA, participarão ativamente do processo.

Quanta arrecadação o aeroporto poderia gerar para a economia local? Existe uma perspectiva?
As possibilidades de geração de renda e empregos são muito favoráveis. A proposta contempla o conceito de um aeroporto-cidade. O aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), é um exemplo disso. Os vereadores de Portão visitaram o terminal de Campinas e retornaram maravilhados com os benefícios.

Como o comitê poderia cobrar essa parceria com o Salgado Filho?
Através do convencimento do governo da República e da sociedade gaúcha. Se não quisermos ser periferia em termos de mobilidade aérea, temos que concretizar a construção desse novo terminal classe A da IATA. A capacidade do Salgado Filho é limitada e não atende aos anseios da economia e sociedade gaúcha das próximas décadas.

Entendemos que as melhorias do Salgado Filho são necessárias e independem dos esforços para a construção de um novo aeroporto internacional, aumentando a capacidade instalada de transporte aéreo no Estado. As tratativas junto ao governo do Estado e ao governo federal são nesse sentido. As respostas das autoridades estaduais e federais nesses últimos dias nos dão um novo alento na conquista de nosso objetivos. Nossa solicitação mais premente é a realização de um estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental da proposta atual do aeroporto 20 de Setembro. Bons ventos sopram a favor na atualidade.

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  • Publicado em: 22/06/2016

Comentários

Um comentário sobre “Por que o aeroporto de Portão ainda não decolou?”

  1. Jorge disse:

    Já é tempo do Rio Grande do Sul ter dois Aeroportos Internacionais, e pelo que sei a legislação não estabece esta exclusividade ao Município de Porto Alegre.

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