Economia

Vaidade não sofre com a crise

Setor de cosméticos demonstra não ter sentido os efeitos da recessão econômica do país

Foto de Arquivo: Gisele define com essa imagem, que escolheu a profissão certa

A maquiagem virou a profissão de Gisele Santos da Silva, formada em Administração. Foto: Arquivo pessoal

 

No dia 13 de setembro, a Fundação de Economia e Estatística divulgou os valores equivalentes ao segundo trimestre de 2016 do Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul. O PIB apresentou uma queda de 3,1% com relação ao mesmo período em 2015, porém, essa queda foi menor que a calculada no trimestre anterior. Dentre as atividades comerciais, apenas uma demonstrou uma variação positiva (mesmo que pequena): artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos. Esse dado é apenas uma comprovação de que o setor da beleza não sofreu com a crise como os demais.

 

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Luana dá cursos de automaquiagem. Foto: Arquivo pessoal

Luana Taís Nyland é formada em Letras e estava cursando sua segunda faculdade, Jornalismo, quando optou por trancar o curso e se tornar revendedora de produtos de beleza. A atividade virou sua única fonte de renda e a realiza pessoal e profissionalmente. Mas o início dela na profissão ocorreu antes dos primeiros efeitos da crise. Mesmo assim, ela garante que até hoje não se sentiu atingida. “Vou até minhas clientes e elas continuam comprando os produtos. Aliás, compram mais do que compravam antes da crise”, garante. Além de comercializar os produtos, Luana dá cursos de automaquiagem profissional.

 

Quem também não se sentiu atingida foi a maquiadora Gisele Santos da Silva. Assim como Luana, ela também possui formação superior e acredita que se tivesse seguido a carreira na área de Administração jamais teria um salário equivalente ao que recebe fazendo maquiagens em um salão de beleza em Porto Alegre. Gisele conta que o salão tem muita procura, principalmente aos sábados. “Mesmo em momentos de crise econômica, o setor da beleza é um dos que mais crescem.” Ela justifica esse fenômeno a partir de suas experiências dentro do ramo, em que percebe que mesmo que as pessoas estejam com pouco dinheiro, não deixam de se cuidar para se sentirem bonitas.

 

Por que as pessoas gastam tanto com beleza

Coordenador do curso de Filosofia da Unisinos e também antropólogo, Clóvis Gedrat enxerga essa procura, mesmo em tempos de crise, como algo positivo. Segundo o professor, essa busca por produtos relacionados à beleza demonstram uma necessidade de cuidar de si mesmo, o que ajuda na elevação da autoestima. Ao nos arrumarmos, nos sentimos felizes e isso simboliza que estamos bem e, por consequência, nos apresentamos bem para os outros. Além disso, ele enumera que essa busca pela beleza não se limita apenas a cosméticos, mas se estende ao bem-estar físico, através de uma boa alimentação e cuidados médicos, por exemplo.

Porém, Clóvis ressalta que vivemos em uma sociedade hiperconsumista, em que esse excesso de consumo faz com que vivamos preocupados em trabalhar mais para ganhar mais dinheiro e, assim, poder gastar mais. Esse tipo de preocupação causa problemas para dormir, desgaste físico e emocional, o que resulta na necessidade de gastarmos com produtos e serviços que nos tragam bem-estar.

O filósofo diz que esse tipo de busca pela beleza, que possui como base apenas a estética, deve ser evitada, pois visa apenas à idolatria do ego, fazendo com que a pessoa, apesar de bonita exteriormente, seja apenas uma “casca vazia”. Para o professor, é necessário procurar trabalhar o interior e o exterior, pois cuidando de ambas as partes, teremos a construção do ser humano, e assim alcançaremos a beleza plena.

 

Quanto se gasta para ficar bonito no Brasil

A secretária Patrícia Soares se considera uma hiperconsumista quando o assunto é produtos de beleza. Dona de uma grande coleção de sombras, batons, cremes, pincéis para maquiagem, ela afirma que sempre haverá espaço para mais um item em sua coleção. Patrícia conta que boa parte de seu salário é direcionado ou para a obtenção de um novo cosmético, ou no salão de beleza, realizando algum procedimento estético. Inclusive, preocupa-se tanto com a aparência que deixa de investir em outros campos de sua vida.

Ela não é a única. Uma pesquisa realizada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio/SP) revelou que os brasileiros desembolsam mais dinheiro para o consumo de produtos de beleza do que para a educação, sendo o gasto anual uma média de R$ 20,3 bilhões.

 

 

Isso fez com o que o comércio varejista de produtos farmacêuticos, perfumaria, cosméticos e artigos médicos, ópticos e ortopédicos se tornasse umas das atividades que mais contribuíram com a massa salarial do Brasil, segundo a Pesquisa Anual de Comércio (PAC), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2014 e divulgada em agosto de 2016.

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