Política

Universitários avaliam declaração de Michel Temer sobre popularidade do governo

Vice-presidente afirmou que é muito difícil governar por mais três anos e meio com um índice tão baixo de aprovação

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A popularidade da presidente Dilma Rousseff está em declínio e isso não é novidade para ninguém. Desde o início do seu segundo mandato, a população tem demonstrado descontentamento com as medidas tomadas para enfrentar o momento de recessão pelo o qual o Brasil – e o mundo – passam. Assim, sem causar nenhuma surpresa, uma pesquisa divulgada no início de agosto pela Datafolha indicou que, na ocasião, 8% dos entrevistados aprovavam o governo e 71% reprovavam. Outros 20% consideravam o governo “regular”.

O vice-presidente da República, Michel Temer, também comentou sobre a atual impopularidade da chefe de Estado. “Hoje, realmente, o índice é muito baixo. Ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo”, opinou, em um debate com o grupo Política Viva, organização suprapartidária que reúne empresários e estudiosos.

A declaração, no entanto, gerou discussão em várias esferas da sociedade. Entre elas estão estudantes universitários que vivem, pela primeira vez, uma crise econômica – e política – tão marcante.

Há quem acredite que a afirmação feita por Temer tenha sido precipitada. Para a estudante de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB), Ananda Winter Marques, a baixa aprovação do governo não significa que a gestão “não irá resistir”, com avaliou Temer. “Não é uma questão de resistência ou não. A presidente, eleita democraticamente, permanece até o fim do mandato previsto pela constituição. A não ser que existam, de fato, evidências legais para a sua não continuidade no cargo para o qual ela foi escolhida pela maioria da população”, observa, ressaltando que a impopularidade de Dilma não corresponde a um apoio de impeachment ou a uma renúncia.

“Inclusive, dentro do próprio Partido dos Trabalhadores e nos demais partidos e movimentos populares de esquerda, há desaprovação das medidas tomadas por Dilma. A desaprovação desses segmentos insiste em uma virada à esquerda do governo e não na sua interrupção”, assegura.

Quem concorda com Ananda é a estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Vitória Zilles Fedrizzi. Ela compartilha da opinião da aluna da UnB, lembrando que “Dilma foi eleita através de mecanismos democráticos e um impeachment sem justa causa seria inconstitucional”. Além disso, Vitória critica a atitude do vice-presidente. “Temer está reforçando um anti-petismo de forma a culpar uma única pessoa por todos os problemas que o país está vivendo, sendo que as dificuldades são referentes a questões nacionais, internacionais, questões econômicas ou políticas”, pondera.

Lucas Fontanari, acadêmico de Comércio Exterior da Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), por exemplo, recorda que, em vários outros momentos de crise vividos na história, sempre houve pressão popular. “A insatisfação, mensurada através do índice ao qual Temer se refere, aumenta o poder político da oposição e enfraquece a base aliada. A não ser que haja uma reviravolta nos próximos anos de mandato, dificilmente o PT conseguirá manter-se forte na política como no passado recente”, considera. “Acredito que a polêmica colocação do vice-presidente tenha sido neste sentido, e não no impeachment propriamente dito”, acrescenta.

Para Carolina Reinheimer, aluna de Direito também da Unisinos, a opinião de Temer tem algum fundamento. “Concordo em partes, pois acredito que o pensamento dele não está incorreto, uma vez que é muito difícil governar com uma impopularidade tão grande. Mas, de qualquer forma, não acredito que a presidente irá renunciar”, avalia. No entanto, a estudante pensa que foi isso que Temer quis insinuar. “Acho que que Temer quis dizer que Dilma irá renunciar, pois, pelo menos legalmente, as chances de impeachment são muito pequenas – considerando que não há provas suficientes para preencher os requisitos exigidos pela Constituição Federal para que isso ocorra”, analisa.

 

Melhora da economia

De acordo com o vice-presidente da República, é possível que o índice da popularidade do governo volte a um patamar razoável de aprovação caso haja uma melhora na economia. “Muitas vezes, se a economia começar a melhorar, se a classe política colaborar, o índice acaba voltando ao patamar razoável. O que nós precisamos não é torcer, é trabalhar para que nós possamos estabilizar essas relações. Se continuar assim, eu vou dizer a você, para continuar 7%, 8% de popularidade, de fato fica difícil passar três anos e meio”, reconheceu.

Apesar da constatação de Temer a respeito da melhora da economia, os estudantes, em unanimidade, não creditam apenas a este fator a baixa popularidade da presidente. “A economia, apesar de ser um fator de peso, não é o determinante dos pedidos de impeachment e da baixa popularidade”, ressalta Ananda. A estudante ainda se posiciona contra a essas solicitações, alegando que a parcela da sociedade que clama pela saída da presidente não aprovaria o governo petista mesmo se não houvesse crise econômica.

“A esquerda também não está satisfeita. No entanto, as críticas feitas por ela são em relação às medidas do governo para enfrentar a crise, entre eles o ajuste fiscal, a redução de gastos como educação e saúde, a fim de pagar os juros da dívida. Ao mesmo tempo em que não se pauta a taxação de grandes fortunas, a recente aproximação de Dilma com a Agenda Brasil de Renan etc”.

Vitória, por sua vez, concorda, em partes, com Temer. “Não acho que seja a economia seja único motivo, tendo em vista que o anti-petismo existe e está em crescimento. Porém, acho que se a economia voltar a crescer, o índice de aprovação de Dilma suba”, observa. Em contrapartida, ela se mostra reticente às possíveis medidas a serem tomadas para que isso aconteça.

“Fico receosa com quais medidas teriam de ser tomadas para que houvesse crescimento da economia e qual seria o ônus disso para os trabalhadores e a população em geral. Aumento de impostos ou reforma tributária? Corte de setores públicos e do funcionalismo? Privatizações? Essas possibilidades me assustam”, revela.

Incontestavelmente, a economia tem um papel central na gestão de um país. No entanto, Carolina é contrária a opinião de que isso seja o único problema. “Na minha opinião a economia não é o único motivo que fez com que o índice de aprovação caísse tanto. É claro que a economia ocupa um papel central, pois todos os outros setores dependem dela.” Entretanto, a aluna de Direito ressalta sua opinião acerca do abuso de políticas sociais.

“Nas gestões anteriores, o cenário era diferente porque era possível manter as políticas sociais sem prejudicar a economia. Por outro lado, todas essas políticas sociais acabaram desgastando-a. Então, o problema agora não é somente a queda econômica, mas também o fato de que essas políticas sociais não estão mais se mantendo, diante da falta de recursos econômicos”, opina, destacando que a grande questão são, em suma, a queda de todos os setores que estão interligados.

Para Fontanari, a situação pela a qual o Brasil passa não seria diferente caso a oposição tivesse assumido o cargo máximo do Executivo. “Pessoalmente, acredito que a situação do país, caso Dilma não tivesse ganho as eleições, não estaria muito diferente. A crise econômica era premeditada, resultado de medidas e gastos irresponsáveis em mandatos anteriores. A baixa popularidade da gestão de Dilma é fruto do estelionato eleitoral, que comprometeu a credibilidade de seu governo”, finaliza.

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