Cultura

A união faz o teatro

Eduardo Moreira fala sobre sua experiência como ator e fundador do tradicional Grupo Galpão

O vento arrastava as folhas caídas na rua de paralelepípedos em Porto Alegre. Talvez o herói farrapo homenageado na denominação da rua, Garibaldi, gostasse do clima ao jogar seus longos cabelos ao sabor do acaso. Às 8h25 da manhã, apenas um estudante de jornalismo permanecia do lado de fora da Casa de Teatro, esperando pelo encontro com Eduardo Moreira, um dos atores fundadores do Grupo Galpão de arte dramática.

O coletivo começou em 1982, quando o Brasil ainda tentava retornar ao regime democrático. A política saía do parlamento e ganhava as ruas. Os atores tiraram o teatro do espaço convencional e usaram um mais funcional. Daí o nome e a filosofia de, mesmo em um palco, apresentar uma peça que interagisse com o público.

Não tardou para as portas se abrirem. O espaço é típico das construções mais antigas da capital, com um teto inatingível sem escada e com portas e janelas incrivelmente verticais. Uma estante no canto do cômodo de recepção guarda livros de poesias, história, romance e teoria ligados ao tema que dá nome ao local. David Bowie cantava Life on Mars enquanto a organização acertava os últimos detalhes para receber a todos.

O ícone teatral, que iria palestrar para todos que estavam por chegar, não demorou. Conheceu a sala que abrigaria suas histórias nas próximas quatro horas e permaneceu em um canto, como que preparando o que seria dito em seguida momentos antes de começar a sua apresentação, não que fosse um desafio, já que está acostumado com a improvisação e o jogo de cintura que o palco exige do ator.

Aos poucos, a sala de recepção se enchia de pessoas ligadas ao teatro de alguma maneira. A maioria, estudantes e professores. Alguns atores e atrizes e poucos que apenas admiram o teatro. Quando Eduardo estava pronto para falar, os 30 espectadores adentraram a sala de ensaios e sentaram no chão, próximo às duas paredes beges e uma vermelho-terroso, formando um semiquadrado composto por pernas cruzadas, blocos de anotações e olhos vidrados.

Preparados para ouvir e absorver tudo que o orador pudesse lhes oferecer, uma perplexão tomou conta da sala. Eduardo acabara de dizer que, antes de iniciar, gostaria de conhecer quem o escutaria. Justo eles se apresentando para quem admiravam!

O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo senso de hierarquia. Começaram a se apresentar por ordem da direita para esquerda. Mas antes, mesmo que já soubessem a resposta, queriam ouvir o ator, sentado ao meio, apresentando-se.

Carioca de nascença, ele se mudou para Belo Horizonte quando tinha 15 anos; na cidade, fundaria o quase mítico Grupo Galpão. No início, era muito comum o uso de pernas de pau para as apresentações dos atores. Eduardo, explica que o artifício deixou de ser utilizado quando os integrantes do coletivo passaram dos 50 anos de idade. Depois de 23 espetáculos e um número inacreditável de apresentações (o site conta mais de 2.700), o corpo pesou, mas a vontade de fazer teatro só aumenta.

 

Eduardo Moreira fala sobre a trajetória do Grupo Galpão em Porto Alegre. Foto: Caroline Garske/Beta Redação

Eduardo Moreira fala sobre a trajetória do Grupo Galpão em Porto Alegre. Foto: Caroline Garske/Beta Redação

 

Começam as apresentações. As primeiras fluem, mas logo a sequência é interrompida pela voz de Eduardo, amplificada pela acústica da sala. As frequentes referências à peça Romeu e Julieta o fizeram lembrar de algumas considerações sobre a obra. Com as mãos frequentemente alisando as espessas sobrancelhas negras e o cabelo grisalho, ele fala sobre a dificuldade de traduzir uma obra tão poética do século XVI em um país tão distante para a linguagem brasileira.

A maestria com que os artistas conduziram o espetáculo fez com que a atuação ficasse marcada na memória de todos ali que, de alguma maneira, entraram em contato com ela. Há também um apreço especial por parte do ator que conduzia o bate-papo. Para decepção geral, a adaptação de Shakespeare, feita em 1992 pelo Grupo Galpão, foi vista pela última vez em Caxias do Sul.

Volta-se a atenção para o público, que retoma as apresentações. Muitos vêm de cidades do interior gaúcho, como Montenegro, Passo Fundo e a própria Caxias. Agora, o foco da conversa está no quão difícil é a convivência entre as pessoas de um mesmo grupo por tanto tempo.

Os 12 atores do grupo que estão juntos desde 1995 e só permaneceram unidos por encontrar uma sintonia. A individualidade de cada um é importante para que o grupo exista, porém, ela jamais pode ser colocada acima dos interesses coletivos. O Grupo Galpão continua mesmo sem um deles.

As cabeças próximas às paredes concordavam em conjunto, com poucas risadas empáticas ao assunto. Certa vez, uma espectadora no Rio de Janeiro lhe falou que era muito bonito ver atores envelhecendo juntos. Eduardo concordava, mesmo que fizesse ressalvas mentais ao que ela chamava de beleza. Os integrantes encontraram uma sintonia, harmonia e frequência que compartilhavam entre si. Tal como um povo que fala um mesmo dialeto. Sem eles, aquela variação da língua não existiria.

Falar em sons levou a mente do carioca a explorar outro ponto intimamente ligado ao teatro feito por seu grupo. A escuta e a música. Criados no pós 1968, quando a palavra era temida por conta do regime em que o país era submetido, os atores começaram a usar menos o corpo e mais a fala para provocar reações no público.

O recurso foi amplamente utilizado durante a trajetória e ajudou na concentração difusa que se deve ter ao representar em uma peça. Não apenas cantar ou tocar um instrumento, mas escutar o que está sendo emitido à sua volta e harmonizar com tais elementos. Muito da inspiração veio das incursões do grupo para fluir do teatro latino-americano, como o peruano.

Isso não o tornou um músico, mas um ator que sabe se utilizar disso para fazer seu espetáculo mais universal. Afinal, a música é uma arte popular por natureza, diferente do teatro e sua áurea erudita. Apesar de ser levado para a rua, escolas e outros espaços públicos, a apropriação do teatro pela cultura popular ainda é um sonho.

Desviando-se sem intenção do assunto que começara, Eduardo volta da pequena viagem interior num bater de palmas, admitindo ter se perdido. Sob as cinco lâmpadas que jogavam uma forte luz no ambiente, houve certo silêncio embaraçoso. Logo, o ator recupera a fala com um sorriso.

Discursava sobre a proximidade teatro-público e retomava a fatídica peça de Romeu e Julieta para dar um exemplo. Quando o grupo passou por Morro Vermelho (MG), para as primeiras encenações da adaptação, ficaram hospedados em uma pequena capela da minúscula cidade. O palco era o chão batido mais à frente, que servia de cenário, inclusive, para os ensaios.

Os trabalhadores do lugar logo tomaram por hábito sair da roça e assistir ao ensaio no fim da tarde. Ali, os atores puderam perceber quando tinham e quando perdiam a atenção dos espectadores, por vezes tão interessados na atuação que reagiam às interferências do diretor com sonoros “deixa eles!”.

Um grande responsável para o sucesso da peça foi o extenso estudo de personagens. Para Romeu e Julieta, “Grande Sertão de Veredas”, de Guimarães Rosa, deu uma base muito sólida para a identificação com um público que não estava acostumado com a linguagem teatral, tampouco com Shakespeare.

Não seria a primeira vez que teatro e literatura se misturariam no Grupo de Galpão. Uma grande inspiração para Eduardo e os demais atores foi o filho do tapeceiro real francês que largou a herança do emprego e foi seguir o sonho de ser ator: Molière. O dramaturgo viveu, no século XVII, em todos os âmbitos que o teatro permitia. Depois de 11 anos em turnê pela França, seu grupo se apresentou para Luís XIV. O drama com interlúdio cômico surpreendeu a todos e lhes rendeu o título de companhia do rei. Molière morreu no espetáculo O Doente Imaginário, que, mais de 300 anos mais tarde, seria adaptado pelo Grupo Galpão como Um Molière imaginário, de 1997.

Além de beber da fonte literária do francês, Machado de Assis é evocado com o clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mais uma vez, a palavra é de uma importância decisiva para a aceitação da peça.

Eduardo levanta da cadeira preta que lhe abrigava e começa a andar pelo ambiente falando sobre o aprendizado contínuo e o permanente estado de crise para se viver o momento de/em cada peça. Esquecer-se de tudo que ensaiou é fundamental para se fazer teatro como se fosse a primeira vez. De novo, e de novo. Como que em um golpe da consciência, ele para e retorna calmamente até sua cadeira. Atuar é a repetição sem o acomodamento.

Um celular toca na plateia. Uma moça exclama “cacete”. Nada parece ser suficientemente incômodo para lhes tirar a atenção.

Antes de iniciar os exercícios, o ator carioca fala do espetáculo Nós, que fez parte da programação do 23º Porto Alegre em Cena. A trama traz sete membros de um grupo que preparam uma sopa (de verdade) enquanto planejam expulsar um dos integrantes compulsoriamente. A crítica social em torno do tema conversa com o momento político do país, mas não é o foco principal dos atores.

O relógio no canto da sala girou os ponteiros mais rápido do que Eduardo conseguiu contar. Cansado de falar, ele chamou o público para pequenas atividades. Na primeira, dispõem-se oito cadeiras pela sala e oito participantes. Um deles está levantado e o seu objetivo é sentar, enquanto os outros jogadores devem impedi-lo ao tomar o lugar desejado, sentando-se antes.

O grupo começa competitivo e, ao fim da primeira rodada, Eduardo pede calma e paciência nos movimentos. Recomeça-se o jogo mais lento. A atenção para o coletivo é a principal dificuldade. Tenta-se três, quatro, cinco vezes. Mas há sempre um lugar vazio esperando pelo caçador de cadeiras.

Na sequência, um outro exercício. Em três filas de três, os atores deviam formar quadrados de 4, 3, 2 e 1 passos, contando em voz alta. As vozes ritmadas tomam conta do local conforme se desenham as formas em marcha irregular. Depois de duas repetições, o grupo se acerta.

Não satisfeito, Eduardo propõe variações da brincadeira. Primeiro, deveriam marchar da mesma forma, mas sem contar em uníssono. Segundo, bateriam palma no primeiro e terceiro passo. Por último, contariam cada passo como uma nota musical, começando e terminando em dó.

O som dos passos ritmados, das palmas ora incertas, ora estrondosas e das nove vozes em harmonia impressionaram. Mesmo sem nenhum tipo de ensaio prévio, a sintonia que se conseguiu com o grupo em pequenos exercícios não deixou dúvidas de que tinha ali um experiente homem de teatro.

Findadas as quatro horas do encontro, abraços, beijos e agradecimentos cobriram o carioca. O vento cessara do lado de fora. O encontro trouxera a inquietação para o lado de dentro.

 

Veja também: em vídeo, Eduardo Moreira e participantes do encontro falam sobre o Grupo Galpão

 

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