Política

É GOLPE: Uma triste história pode se repetir

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Presidenta Dilma Rousseff recebe apoio de manifestantes em dia de afastamento. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

 

Assistimos perplexos a um Golpe de Estado ocorrendo no país. E o pior: sem nenhuma participação ativa do povo. Digno de enredo de filme com final trágico, este capítulo da história do Brasil se escreve a muitas mãos: com forte apoio da mídia de massa, grandes instituições privadas e diversas traições políticas. Presenciamos boquiabertos mais um atentado contra os direitos dos brasileiros e brasileiras, conquistados com suor e sangue de pessoas que acreditaram em um país melhor.

Tão dolorido quanto o Golpe Militar, desencadeado em 1964, o golpe contra um mandato eleito pela maioria do povo é uma afronta, um ato inconstitucional que coloca em perigo nossa jovem e frágil democracia. Atropelaram os direitos e a escolha de 52 milhões de pessoas. Pouco mais de 30 anos depois do término da ditadura militar, entramos em uma máquina do tempo e regredimos ao passado. Diretas Já! De novo?

A insatisfação geral com os rumos da política no país já era visível desde a primeira grande mobilização, a do preço das passagens, que culminou em mais uma série de outros pedidos, em 2013. Um ano depois esse clamor foi posto à prova nas eleições presidenciais. E mais uma vez o povo mostrou que a insatisfação não era com relação à presidenta por si só, mas sim à política como um todo. Ela foi reeleita democraticamente por pessoas que acreditaram que trocar o governante não seria a solução. Mas a oposição não aceitou essa derrota. Já no segundo dia após perderem as eleições, pediram recontagem de votos e falavam em fraude de urnas. A partir daí criou-se um clima de instabilidade e ingovernabilidade, em que parlamentares iniciaram uma debandada da base aliada, galgando alcançar o poder, em conluio com grande parte da mídia monopolista. Esta foi, pouco a pouco, dia a dia, ajudando a minar a opinião pública, transformando pequenas chuvas em grandes tempestades e ignorando completamente furacões produzidos por partidos e políticos que eles apoiavam.

Será admissível a culpabilização de uma única pessoa, por meio da humilhação da perda do seu mandato, por erros de todo um sistema de governo, que inclui políticos não só governistas, como da oposição? As pedaladas fiscais, crime de responsabilidade atribuído à presidenta Dilma Rousseff, são prática antiga e conhecida por muitos governantes, inclusive em exercício da função. A lei dá brechas para que haja uma interpretação subjetiva desse “crime”, e põe muitos juristas em desacordo. Por que então a justiça não se aplica da mesma forma a todos? Por que não há coerência no julgamento? Como fica o vice-presidente Michel Temer, se o mesmo também assinou as pedaladas? Ele será punido?

Muitos acreditam que o afastamento da presidente se deu por conta dos escândalos de corrupção. Porém, a Lava Jato (que assombrou o país e alcançou níveis internacionais) não possui, em sua maioria, políticos do partido governista envolvidos. Temos 31 parlamentares do Partido Progressista investigados, contra 12 do Partido dos Trabalhadores. Sendo assim, é visível que esta não é uma luta de classes, nem de esquerda ou direita (algo que se tornou desafiador acreditar, após tantas alianças que contradizem o senso ideológico), e sim uma luta em defesa da garantia da lei e da Constituição.

O país despertou, e desde então têm ocorrido protestos de brasileiros e brasileiras que sim, em sua maioria insatisfeitos com o governo, ainda defendem o seu voto, seja a favor ou contra o governo. Com o Golpe instaurado, fortes movimentos sindicais e grande parte da população contrariada, o país pode entrar em um clima ainda mais instável e polarizado.

A injustiça dói. Nos sentimos desrespeitados, violentados. Diferente do ocorrido com o ex-presidente Fernando Collor, a renúncia não foi uma escolha. Dilma pretende seguir até o fim do mandato, seja qual for a decisão final.

Com a desculpa de que quiseram respeitar “a voz das ruas”, acabaram não respeitando a mais alta das vozes: a da urnas. Não vai ter luta, vai ter resistência.

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