Cultura

Uma primavera inteira chamada Vila Flores

Complexo arquitetônico datado na década de 20 abriga diversas iniciativas culturais e colaborativas

O pátio da Vila Flores

Parte do Complexo Arquitetônico e pátio do Vila Flores. Foto: Divulgação

Quem passa pela rua Hoffmann, no bairro Floresta, em Porto Alegre, e vê o número 447 da calçada, não imagina a diversidade que as paredes desbotadas pelo tempo do casarão de três andares podem guardar. O prédio de esquina, com antigas janelas compridas, que no passado serviu de moradia e lojas comerciais, hoje abriga diversas iniciativas, que se acomodam no complexo arquitetônico construído entre 1925 e 1928.

Projetado pelo engenheiro e arquiteto Joseph Franz Seraph Lutzenberger, a área é ampla e totaliza 2.332 m². Lutzenberger provavelmente não imaginava que em 2016 seu trabalho serviria de lar para empresas sociais, escritórios de arquiteturas, estúdio musical, ateliês artísticos e até para uma escola alternativa. E que tudo isso, ganharia o nome de Vila Flores, um espaço multicultural localizado no 4º Distrito de Porto Alegre.

Mas o caminho, até ter nome de flor, passou pela degradação do tempo: perdeu a cor, algumas paredes e parte do telhado. Somente em 2009 que os prédios começaram a ter uma nova cara.

Aline Bueno, coordenadora cultural do Vila Flores e que faz parte da proposta antes mesmo de ter esse nome, conta que os irmãos Antonia Chaves Barcellos Wallig e João Felipe Chaves Barcellos Wallig ficaram responsáveis por toda a estrutura, e desde então decidiram resignificá-la. “Eles tomaram o cuidado de pesquisar sobre o local, saber sua importância arquitetônica, cultural e histórica. Levaram tempo para se aproximar da vizinhança e tomar conhecimento da potencialidade do local  e transformá-lo em algo multifuncional”, conta. Hoje, as edificações estão listadas no Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Bairro Floresta (classificadas como Imóveis de Estruturação) e estão situados em área de Interesse Cultural da capital, abrigando 27 residentes, que são as diferentes iniciativas que ocupam as salas históricas das construções. Eles pagam um aluguel fixo, que é revertido em melhorias na estrutura. 

Para além dos empreendimentos, que em sua maioria possuem uma organização colaborativa, hoje, o Vila Flores é um local que transpira cultura e arte. O primeiro evento sustentado pelos prédios antigos ocorreu no final de 2012, mas foi somente em 2013 que o espaço ganhou o atual nome: uma homenagem à historiadora e museóloga, Maria Luiza Flores Chaves Barcellos. As atividades artísticas e culturais, que ocorrem dentro e fora dos prédios, são coordenadas pela Associação Cultural Vila Flores, oficializada em 2014, quando o Vila abriu as portas oficialmente para iniciativas externas.

Mariana Beppler, atriz e produtora do Grupo de Teatro Mototóti, fez parte de uma dessas atividades e se encantou pelo espaço. “Participei de duas edições do Mingau, uma ação voltada para crianças, que aconteceu dois anos consecutivos no Vila Flores. O local tem cheiro de cultura. Logo quando se chega, já somos recebidos com esculturas na calçada e pinturas nas paredes de dentro. É um lugar de encontro da arte”, ressalta.

O Vila Flores vem sendo palco de diversos eventos e parcerias. Uma delas é o conhecido Conexões Globais, evento que promove o diálogo entre os movimentos sociais em rede, novas formas de participação e mídias. Ele também recebeu, recentemente, o Sementes Urbanas, realizado em parceria com a Unisinos, com a proposta de mostrar as questões que envolvem o urbano por vários olhares. Mariana Chiapinotto, professora de fotografia da Unisinos, participou do evento com uma exposição fotográfica de seus alunos, mas já frequentava o local desde 2013. “Porto Alegre precisava de um lugar como esse, que proporciona o encontro de diversas atividades e ações. Já vim em vários eventos, oficinas, e considero o ambiente com vida própria”, opina.

Todas essas propostas são recebidas pelas estruturas que foram repensadas em 2011 pelo arquiteto João Felipe Wallig, e alguns de seus colegas paulistanos do escritório Goma Oficina, que hoje é um dos residentes do Vila. O arquiteto e integrante do Goma, Vita Pena, esclarece que o projeto ainda não foi finalizado. “É preciso efetivar o projeto arquitetônico, como a intervenção nas coberturas, instalações hidráulicas, elétricas, novos acessos, circulação vertical com elevadores e ainda um pequeno edifício anexo. Mas, sem dúvida, hoje o projeto amadureceu muito com as possibilidades que surgiram a partir da troca de informações e as demandas reais da Associação”, explica.  Vita também afirma que a proatividade dos proprietários em se articular com a associação de bairro e outros cidadãos, que se engajaram no projeto, foram fatores que confirmaram a ideia de fortalecer o caráter público e a importância do Vila Flores como sinônimo de resistência no bairro Floresta.

Por sua pluralidade e versatilidade, o Vila Flores está se tornando uma verdadeira primavera de oportunidades para formas alternativas de geração de trabalho e renda, além de concretizar-se como cenário para os mais diversos artistas. Para onde essa primavera vai? Aline Bueno responde. “Estamos justamente nesse momento, de definirmos para onde queremos ir. Temos feito várias reuniões e estamos também em um processo de preencher uma ‘bússola’ para entendermos qual o norte desse grande coletivo que é o Vila Flores. Então, nesse momento, eu não saberia responder exatamente onde queremos chegar, mas posso dizer que o desejo de aprendizado e de evolução é algo muito importante para todos nós”, pontua.

 

Repercussão internacional

O espaço conseguiu reconhecimento internacional neste ano. Aline Bueno conta que o Vila já foi apresentado em eventos como o Comunes – Encontro Internacional de Economias Colaborativas e Cultura Livre, na Argentina, o Kultursymposium – The Sharing Game, em Weimar, na Alemanha, e foi um dos projetos selecionados para o Pavilhão do Brasil, na Bienal de Arquitetura de Veneza. Além disso, recebe constantemente diversos visitantes estrangeiros, que buscam o lugar curiosos com a forma de estrutura e organização.

 

Conheça os residentes fixos do Vila Flores:

1. 1% – negócio social

2. AC Arquitetura – escritório de arquitetura de Carolina Castillo

3. Armazém Sonoro – espaço de criação musical

4. Café Minéraux – cafeteria

5. Caixa do Elefante Teatro de Bonecos – companhia de teatro

6. Carlos Farias – ateliê de cerâmica

7. Coletivo Ameixa – coletivo de artistas da área audiovisual

8. Colibrii – negócio social na área de design de produtos

9. Escola Convexo – negócio social na área de educação

10. Estúdio Hybrido – coletivo de artistas na área de artes visuais, audiovisual e moda

11. Geração Urbana – grupo de estudos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS

12. Goma Oficina – escritório de arquitetura

13. Humanus – marca de roupas

14. Ikebana Coworking – espaço de trabalho compartilhado (coworking)

15. Joner Produções – produtora de projetos culturais

16. Karen Vasconcellos – designer de joias

17. Lírico Atelier de Ofícios – ateliê compartilhado

18. Márcia Braga – ateliê de artes visuais

19. Matehackers Hackerspace

20. Moxie – design de produtos

21. Mulher em Construção – ONG que atua na área de construção civil

22. Panitz Bicca Arquitetura e Engenharia – escritório de arquitetura

23. Rogério Pessoa – ateliê de cerâmica

24. Social Hero – aplicativo

25. Solabici – loja e café

26. Sopro Conteúdo Digital – empresa de comunicação

27. Surto Criativo – serviços em design gráfico

 

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