Cultura

Uma paixão indisponível para download

Colecionadores mostram que devoção pelo cinema não é somente online

Bustos dos filmes Exterminador do Futuro e Predador. Foto: Arquivo Pessoal.

Bustos dos filmes Exterminador do Futuro e Predador. Foto: Arquivo pessoal

 

Estamos em 2017, ano em que temos fácil acesso a qualquer tipo de mídia digital. Temos Netflix, Torrent, YouTube e milhares de sites de filme online. A fácil procura por esse tipo de entretenimento fez com que as antigas locadoras, mesmo após diversas tentativas de se manterem de pé, fossem exterminadas, e que a busca pelos DVDs físicos caísse. Mas nem todo mundo se rendeu aos encantos da era digital.

Da mesma forma que, atualmente, temos o e-book e ainda existem pessoas que preferem os livros, temos aqueles que não abrem mão de comprar o DVD do filme preferido. Para alguns, a paixão por comprar e desembalar um novo filme ultrapassa a agilidade da era digital. Mas, e se esse amor não se limitar a um único filme, mas sim 50, 100, 200?

Samantha Vlassis Drago é advogada e moradora de Porto Alegre. Ela começou sua coleção em 2006 de forma despretensiosa, sem a intenção de colecionar. “Na época comprei um DVD de Mad Max, pois eu e o namorado – atualmente marido – estávamos sempre alugando e achei que seria financeiramente mais apropriado ter o filme para ver quando a gente quisesse assistir”, inicia. A coleção da advogada começou aí, e a lógica persistiu a mesma até meados de 2009.

 

Coleção de Samantha do filme Alien. Foto: Arquivo Pessoal.

Coleção de Samantha do filme Alien. Foto: Arquivo pessoal

 

“Em 2009 eu estava vendo alguns vídeos do YouTube e comecei a notar colecionadores estrangeiros mostrando edições de filmes que até então jamais imaginei que existissem: toda coleção de filmes do Alien dentro de uma imensa cabeça de alien, o Predador, ou uma maleta cheia de itens legais e todos os DVDs de Blade Runner, enfim, aqueles vídeos me abriram um novo horizonte sobre como poderia ser colecionar filmes”, explica.

Samantha passou cerca de cinco anos comprando filmes importados dos mais variados países e nas mais curiosas edições. As miniaturas referentes à franquia Jogos Mortais, o bibelô do longa-metragem O Pianista e o ursinho do filme Ted em tamanho grande são algumas das cerca de 1,5 mil edições especiais que Samantha chegou a ter. Apesar do grande volume de itens que possui, a coleção da advogada chama mais atenção pela exclusividade. Alguns de seus exemplares são autografados por estrelas do cinema, como os diretores George Romero (do filme Despertar dos Mortos) e John Carpenter (Halloween), a atriz Jamie Lee Curtis (Halloween) e o ator Doug Bradley (Hellraiser – Renascido do Inferno).

Parte da coleção de Samantha. Foto: Arquivo Pessoal.

Parte da coleção de Samantha. Foto: Arquivo pessoal

Há cerca de dois anos, a advogada passou a reduzir as compras em razão de diversos outros projetos pessoais, mas de vez em quando ainda compra um filme ou outro. Nos últimos sete meses, ela começou a vender os itens grandes da coleção, mas é por um bom motivo. “Comecei a vender não porque deixei de gostar, mas porque descobri que estou grávida e me dei por conta de que terei cada vez menos tempo e espaço para me dedicar à manutenção da coleção se ela continuasse seguindo o padrão de itens muito grandes ou complicados de limpar e manter em ordem.” Entretanto, Samantha salienta que não pretende encerrar a coleção. “Não posso dizer que parei de colecionar, prefiro pensar nisso tudo como uma ‘volta às origens de 10 anos atrás’”. Aqui você encontra todos os itens que Samantha está vendendo. Os preços variam entre R$ 50 e R$ 3.500.

Nave do filme Matrix. Foto: Arquivo Pessoal.

Nave do filme Matrix. Foto: Arquivo pessoal

 

De tio para o sobrinho

A sétima arte também é a paixão do sapucaiense Tiago Pinto Faleiro, 29 anos, que coleciona DVDs, Blu-Rays, livros e HQs. Ele explica que acumula filmes em mídia física desde 2007 e, atualmente, possui mais de 500 filmes, além de séries. “Minha paixão pelo cinema desde criança fez com que eu iniciasse a coleção de filmes. Compro em média uma edição por mês. Coleciono por ser um amante do cinema, por querer ter essas obras para toda a vida e passar para meus filhos, netos, enfim. Mesmo hoje, com meus digitais e a própria Netflix, ter a edição em casa me remete ao passado das Locadoras e do VHS.”

Panorama da coleção de Tiago. Foto: Arquivo Pessoal

Panorama da coleção de Tiago Faleiro. Foto: Arquivo pessoal

Tiago também conta que tem seus favoritos dentre as centenas que mantém na estante. “Os primeiros que comprei foram o DVD de A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e o Blu-Ray de O Rei Leão, mas tenho meus preferidos, como o giftset de Titanic e o steelbook –  um estojo de ferro com detalhes a mais – de Star Wars.

Giftset do filme Titanic, de 1994. Foto: Arquivo Pessoal.

Giftset de Titanic. Foto: Arquivo Pessoal.

O fotógrafo Adriano Rosa da Rocha, tio de Tiago, também alimenta a paixão por itens colecionáveis e filmes. Morador de Esteio, ele conta que iniciou sua coleção em 2002, logo que comprou o primeiro computador com leitor de vídeo, o que era uma novidade na época. “O primeiro DVD foi do filme De Amor e de Sombras, um filme com o Antônio Banderas baseado em um livro da Isabel Allende sobre a ditadura chilena. Compramos em uma banca de revistas em São Léo. Antes, tinha algumas revistas sobre cinema que vinham com um filme em DVD”, explica o fotógrafo.

Coleção de filmes de Adriano. Foto: Arquivo Pessoal.

Coleção de filmes de Adriano da Rocha. Foto: Arquivo Pessoal.

 

“O que me leva a ainda colecionar é a paixão pelo cinema. É uma forma de fazer parte desse mundo mágico do cinema. Também gosto muito de poder rever os filmes que eu gosto. Eu tenho preferência pelas edições especiais, as giftsets, com brindes relacionados aos filmes, livretos, posters, cards, camisetas. Tem de tudo um pouco.” Ele também explica que vê vantagens financeiras em manter uma coleção. “Outra vantagem de colecionar, para mim, é que na maioria das vezes é mais barato comprar o filme, original, claro, do que ir no cinema”.

 

O Blog do Jotace

 

Blog do Jotace. Foto: Beta Redação.

Blog do Jotace. Foto: Reprodução/Beta Redação

 

Juliano Caldas de Vasconcelos é professor de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Feevale, em Novo Hamburgo. Quando não está em sala de aula, o JC, como é conhecido, ocupa parte de seu tempo com sua coleção de filmes e com um blog de sua criação, o Blog do Jotace, forte referência para os colecionadores por trazer notícias e novidades sobre o tema. O blog é um dos maiores entre esse público, com mais de 8 mil visitantes por dia.

“A gente tenta manter algumas publicações fixas para que quem acompanha conheça a história do lançamento. Temos uma parte dedicada aos novatos, quem recém está ingressando no mundo do colecionismo, e temos um fórum. A diferença entre colecionar o original e o pirata está no acabamento, pois a qualidade do vídeo às vezes um pirata consegue fazer até melhor. A graça é justamente ter o prazer de ver algo bonito, bem feito. Não é simplesmente um capricho”, explica o professor.

Juliano conta que, em 2015, sua coleção já estava beirando os 3 mil itens. “Essa contagem é referente a edições, não ao número de filmes ou temporadas de séries. Não saberia dizer quantos filmes tenho na coleção hoje.” O arquiteto também afirma que não deixou de ir ao cinema, principalmente após a chegada da tecnologia IMAX, e também não deixou a Netflix de lado.“ Praticamente não frequento mais cinemas ‘convencionais’. O IMAX chegou para mudar tudo. Mesmo com a melhor TV e com o melhor home theater, você não consegue chegar nem perto da experiência do IMAX. Acho a Netflix excelente para séries. Já em filmes, a experiência, no Brasil ao menos, é relativamente frustrante. Vejo muitos documentários também via Netflix. O serviço é muito bom e confiável. Só lamento o conteúdo que é tirado do ar sem prévio aviso. Isso precisa ser melhorado.”

Twitter do Blog do Jotace. No topo, a coleção de Juliano. Foto: Beta Redação.

Twitter do Blog do Jotace. No topo, a coleção de Juliano. Foto: Beta Redação.

 

A respeito do mercado para esse tipo de mídia, como os steelbooks e giftsets, pouco encontrados no Brasil, o professor opina: “As distribuidoras ainda não conseguiram encontrar o caminho. O público da distribuição digital é o mesmo público que frequentava locadora, ou seja, o colecionador de mídia física vai continuar colecionando mídia física como era no tempo das locadoras. A distribuição digital precisa enfrentar com mais agilidade e facilidade meios ‘ilegais’ como o Popcorn Time. Caso contrário, vai continuar correndo atrás da máquina, como acontece com a pirataria de mídia física”.

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