Política

Uma noite com cheiro de livro de História

A Beta Redação acompanhou a madrugada de expectativa - e baile - dos manifestantes pró-governo acampados na Praça da Matriz

O abril vestiu verão na noite que antecedeu a votação do impeachment na câmara dos deputados. A Praça da Matriz, que a abriga pela segunda vez uma ocupação denominada Acampamento da Legalidade e da Democracia, estava quase cheia, mas ainda com espaço suficiente para que as pessoas pudessem circular e até desfrutar de um bom pedaço de escada para se sentar. Muito vermelho, claro, mas nem tanto. Bonés do Movimento Sem Terra (MST) eram comuns nas cabeças por ali, mas a cor da pele era o que mais se via – por causa do calor. Se todos calendários do mundo sumissem, poderia ser fevereiro tranquilamente.

Arquibancada improvisada na Praça da Matriz reuniu cidadãos contrários ao impeachment de Dilma Rousseff. / Foto: Vanessa Vargas.

Arquibancada improvisada na Praça da Matriz reuniu cidadãos contrários ao impeachment de Dilma Rousseff. / Foto: Vanessa Vargas.

Eram 20h quando cheguei na praça pela Rua General Câmara. A ansiedade era tanta que dei uma semi-corrida para chegar o quanto antes. Entre o público presente e o Theatro São Pedro e o Palácio da Justiça, um caminhão muito parecido com o de um trio elétrico estava estacionado ali.  Dois jovens do grupo Rafuagi cantavam rap em cima de uma batida enquanto alguns dançavam, outros bebiam e fumavam. Um dos rappers no palco convocou: “Olha pra pessoa que tá do teu lado e diz: ‘tamo junto’”. Foi prontamente atendido pelo público. Palavras de ordem sempre se instalavam em refrões e nos espaços entre as músicas. A apresentação dos rapazes foi breve, e perto das 20h30 já estava em cima do carro Negra Jaque, também rapper. Com falas de empoderamento da mulher e dos negros, foi muito aplaudida.

Rappers do grupo Rafuagi cantam na Praça da Matriz.

Rappers do grupo Rafuagi cantam na Praça da Matriz. / Foto: Vanessa Vargas.

Zamba Ben foi a terceira atração da noite, poucos minutos depois das 21h. O trio subiu no palco com voz e violão, bateria e bateria eletrônica. Minha colega me conta que o acampamento pró-impeachment, na Avenida Goethe, foi desmontado. Minha cabeça começa e tentar entender o porquê, começa a especular também se seriamos os próximos a receber a visita da polícia com um pedido de desocupação. Enfim, a Zamba Bem é tradicional na noite de Porto Alegre, e tocou o que todos ali pareciam querer ouvir: Tim Maia, Jorge Ben Jor, O Rappa e alguns outros artistas. O cheiro de churrasco vinha de um galeto sendo assado ao lado do palco, e com isso eu vou pra mochila procurar o que comer. O público parece estável, não consigo afirmar se oscilou para mais ou para menos.

A repórter Laíse Feijó esteve no acampamento Sérgio Moro, de orientação pró-impeachment, na Avenida Goethe, para acompanhar a movimentação na madrugada. Mas, no começo da noite do dia 16, ele começou a ser desmontado. / Foto: Henrique Kanitz.

O repórter Henrique Kanitz esteve no acampamento Sérgio Moro, de orientação pró-impeachment, na Avenida Goethe, para acompanhar a movimentação na madrugada. Mas, no começo da noite do dia 16, ele começou a ser desmontado. / Foto: Henrique Kanitz.

 

Comércio varou a noite em manifestação na Praça da Matriz. / Foto: Vanessa Vargas.

Comércio varou a noite em manifestação na Praça da Matriz. / Foto: Vanessa Vargas.

Leo Sosa, violonista, cantor e compositor uruguaio, subiu ao palco às 21h40 e pediu licença para falar em espanhol. Ele disse, na minha tradução: “O problema que tem o Brasil hoje não é um problema do Brasil, é um problema da América Latina. O Brasil é a América Latina”. O músico tocou por meia hora um repertório em espanhol e foi acompanhado pelo percussionista Richard Serraria. Perto das 22h10min, o trio Mente Mestra S/A começou a sua apresentação. Rimas raivosas saíam das bocas para os microfones. Foram bastante aplaudidos, deram bis, cantaram à capela. “Não vai ter golpe, vai ter luta” virou rap na voz dos jovens.

Vanessa Vargas-1205-min

Manifestantes pela democracia dançaram na Praça da Matriz na noite de 16 de abril. / Foto: Vanessa Vargas.

Enquanto de um lado do obelisco central da Praça da Matriz transcorriam essas atividades (que foram encerradas com o último grupo), um baile gaúcho já ocorria do outro lado. Neste momento a presença do MST se destacou no acampamento. Um homem colocava as músicas e ia conduzindo a festa, com a ajuda de mais um ou às vezes dois, mandando abraços para o pessoal de Teutônia, Alegrete, Santana do Livramento, Hulha Negra e outras cidades do Estado. Era um baile mesmo. A copa do movimento comercializava cerveja em latão, e essa era a gasolina do baile. No final de cada música, uma rápida dispersão, e logo que o som era retomado, voltavam os casais para mais uma dança. Fiquei surpreso, não esperava um bailão desses em plena Matriz. Perguntei para algumas pessoas se foram todos os dias assim e eles disseram que não, que normalmente quando batia meia-noite o som era cortado ou colocado num volume bem mais baixo, e a maiorias das pessoas ia dormir. Foi aí que me veio na cabeça a ideia de que, dada a situação de guerra neste domingo (17), o clima era de festejar antes da batalha. Todos sabiam que teriam um duro domingo pela frente, então por que não dançar coladinho e amar um pouco mais nessa véspera?

Vanessa Vargas-1211-min

Acampamento com dança, cerveja e palavras de ordem pela democracia preparam o ritmo para a votação do dia 17 de abril. / Foto: Vanessa Vargas.

Quando chegou perto da 1h30, já do fatídico domingo, o homem do microfone começou a avisar que estavam chegando ao fim, mas dando a entender que ele mesmo não queria parar. Foi indo, avisando, até que disse: “Se todo mundo acordar cedo amanhã, tocamos até as duas! Mas tem que estar às 6 horas em pé!”, e o pessoal gritou, levou as mãos pro alto e seguiu o baile.

Ali pelas 2h, decidi continuar meu plantão de dentro da barraca. Minha morada dava de frente para a Catedral Metropolitana, e era ali e em frente ao Piratini que estavam os policiais que vigiavam o acampamento. “Se forem nos tirar daqui, vou ser o primeiro a ser acordado”, pensei. Deitei, me revirei, mas o calor era insuportável lá dentro. Resolvi que ficaria acordado, esperando o tempo passar, no estilo plantão. Às 3h acabou o som do baile. Uma mulher dormia fora de uma barraca, apenas em um colchão, a alguns metros de onde eu estava, e um homem ficou parado por ali. O pessoal da vigília logo o viu parado e foi intimá-lo. Problema resolvido, o homem parecia perdido, foi ajudado.

Vanessa Vargas-1256-min

Barracas montadas enfrentaram a noite de espera pela votação do dia 17 de abril, na Praça da Matriz. / Foto: Vanessa Vargas.

Tentei dormir de novo e, quando me dei conta, acordei eram 4h17. Que pesadelo terrível, e eu suava como nunca. Tentei de novo e nada. É, acho que é ansiedade por este domingo que vai ser louco.

Pouco antes das 6h, resolvi juntar minhas coisas e sair. Deixei a colega dormindo na barraca. Tive tanto trabalho pra dormir que não quis atrapalhar o sono dela. Um cochilo em meio a essa turbulência tem o seu valor. Parecia tudo normal na cidade, pessoas indo pro trabalho, indo na feira, casais empurrando carrinhos de bebês, jovens bêbados na Cidade Baixa, senhores andando com a calma de sempre pelas calçadas… A impressão que tive é que não parecia um dia que entraria para a história. Talvez não entre, não é mesmo (corria entre alguns o boato de que o presidente da Câmara poderia atrasar a votação até o dia 20)?

De qualquer modo, levo comigo a lembrança do bailão, da esperança e de ter presenciado uma noite com cheiro de livro de História.

Vanessa Vargas-1286-min

Porto Alegre, Praça da Matriz, manhã de 17 de abril de 2016. / Foto: Vanessa Vargas.

Lida 874 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.