Economia

Um pedacinho do Tibete em Três Coroas

Da Ásia para a América Latina: Ogyen quer espalhar sonho sobre liberdade e culinária

A jornada árdua de Ogyen Shak começou quando ele ainda era adolescente. Com 16 anos, o tibetano precisou fugir de seu país junto dos dois irmãos pequenos. A invasão da China de 1950, que já dura quase 70 anos, devastava os costumes, a cultura e o povo que se revoltava contra o regime de Mao Tsé-Tung. Para se exilar na Índia, Ogyen atravessou o Himalaia a pé, contornando o Monte Everest e sobrevivendo aos perigos do gelo que as montanhas abrigavam. Foram cerca de um mês e meio de caminhada.

Na Índia, onde morou por mais de 20 anos, se especializou em arte sagrada tibetana. Há nove anos, recebeu um convite de brasileiras para ajudar na construção de um templo budista em São Paulo. Feliz com o novo desafio, o artista plástico ficou quatro anos na capital paulista finalizando o trabalho. Numa oportunidade, decidiu conhecer o templo de Três Coroas, no Rio Grande do Sul.

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Há seis anos, Ogyen, 39 anos, e Adriana Shak, 44, abriram o primeiro restaurante tibetano do Brasil. FOTO: Carolina Schaefer/ Beta Redação

A cidade despertou em Ogyen lembranças do Tibete, por sua formação montanhosa e o clima rigoroso no inverno, mas ameno durante o dia. Segundo ele até as pessoas, por seu “bom coração”, são parecidas. Aqui também foi onde o tibetano encontrou sua esposa. Adriana Shak era moradora e voluntária do templo budista na cidade, eles se conheceram durante seu passeio e estão juntos há 8 anos. Seis anos atrás, os dois abriam o primeiro restaurante tibetano do Brasil: o Espaço Tibet.

Culturas são raízes da felicidade

Ogyen não consegue esconder na sua fala características que tentou deixar para trás. O sotaque aparece junto de memórias que traz a tona quando começa a conversar sobre gastronomia. “Meu tio sempre me falava: você quer pessoas felizes? Você tem que conhecer culturas. Culturas são raízes da felicidade, pois quanto mais conhecemos, mais damos valor ao que temos”, comenta. 

Assim nasceu a ideia do restaurante típico. O artista plástico e chefe de cozinha explica que o Tibete tem uma cultura milenar que está sendo destruída por causa do regime chinês. O objetivo era mostrar esses sabores tão especiais e amenos para os outros. O sonho de Ogyen: atingir o máximo de pessoas que conseguisse.

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Detalhes remetem a cultura tibetana. FOTO: Carolina Schaefer/ Beta Redação

Adriana explica que eles tiveram propostas para abrir o restaurante em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, mas optaram em permanecer em Três Coroas pela filosofia de vida que os dois seguem juntos. “A gente sempre pensa no negócio e na vida que queremos ter. Gostamos da vida mais tranquila, no interior, onde se tem todo o cuidado, um trabalho que tu acompanha mais de perto, tu está sempre junto da equipe, está sempre junto dos clientes. É um diferencial”, ressalta.

Começo turbulento

O início do casal não foi nada tranquilo. Hoje, o restaurante tem seis anos e a operação estabilizou, mas o início foi cheio de problemas devido a inexperiência dos empreendedores. “No nosso caso, a gente não tinha experiência nenhuma, eu era voluntária dentro do templo e ele um artista. Faltava conhecimento de poder prever coisas que acontecem e que eu acho que todos os empresários passam”, revela.

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Jardim idealizado por Ogyen contém artefatos que oferecem uma viagem até o Tibete. FOTO: Carolina Schaefer/ Beta Redação

Outra dificuldade foi começar o restaurante sem o investimento de dinheiro próprio, apenas com empréstimos. Conectar isso com as estradas precárias para acesso a Três Coroas, problemas de infraestrutura do primeiro espaço do restaurante e conjuntura econômica do país foi um desafio. São detalhes que os dois precisaram aprender no meio do caminho.

O primeiro restaurante tibetano do Brasil começou com o nome Tashi Ling, mas por dificuldade de identificação do público com a cultura tibetana, Adriana e Ogyen sentiram a necessidade de trocar o nome. “As pessoas confundiam com comida tailandesa. Elas tinham dificuldade de pronunciar e não sentiam a identificação com o Tibete. Então pensamos na possibilidade de colocarmos ‘Tibete’. Também imaginamos ‘Espaço’ porque, não sabemos ao certo ainda o que, o Ogyen tem a ideia de explorar mais coisas aqui no futuro”, explica.

“Não é só comida”

O Espaço Tibet é um cenário interessante. Ele explora a gastronomia e a própria arte dentro e fora do restaurante nos mínimos detalhes. O proprietário é enfático e até romantiza quando fala que o local não significa só comida. “Oferecemos uma esperança de vida. Não é só comer e ir embora. É pegar uma tranquilidade. É sentir-se bem aqui dentro. Esse é meu objetivo”, sorri.

A temporada é diferente do maior ponto turístico do Rio Grande do Sul: Gramado. A cidade vizinha começa a baixa temporada já nos três primeiros meses do ano. Por causa do ano novo tibetano, o restaurante continua tendo visitantes nesse período. A estabilidade do público é um dos pontos positivos destacados por Adriana, mas ela comenta que meses com feriados são mais vantajosos. Agosto e outubro, geralmente, são os dois meses onde eles têm menos clientes.

Os pratos do restaurante estão disponíveis em cardápio online. O preço é para uma refeição que serve duas pessoas. No local, há diferentes preços para as porções individuais. Por média, se você pedir uma entrada, salada, prato principal e sobremesa, gastará cerca de R$130,00 para um casal. Eles oferecem ainda opções vegetarianas, sem glúten e lactose.

Confira abaixo a galeria de fotos feitas no Espaço Tibet:

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