Política

Foto de menino morto abre debate sobre o poder da imagem

Cientista social e fotógrafos discutem o impacto da fotografia que mostrou Aylan Kurdi, 3 anos, morto após naufrágio em praia da Turquia

betaredacao-politica-aylanPor um dia, a crise imigratória na Europa se tornou pauta nas discussões que rodaram o mundo através das redes sociais e da imprensa internacional. O motivo para tal discussão: uma fotografia do corpo de um menino sírio, de apenas 3 anos, chamado Aylan Kurdi, na praia de Ali Hoca, em Bodrum, Turquia. Um lugar que é considerado um paraíso, com as suas águas cor de esmeralda, se tornou um cenário triste e sombrio.

Enquanto muitos usuários do Facebook discutiam a fragilidade da vida da criança, a imprensa nacional e internacional tratava de trazer para as suas capas a problemática presente na imagem registrada pela fotógrafa Nilüfer Demir: as políticas conflituosas de imigração entre os países europeus e árabes. Ainda faziam parte da discussão as condições dos imigrantes na fuga dos conflitos instaurados pelo Estado Islâmico.

Mas que impacto político uma fotografia que promoveu uma comoção mundial pode trazer? O cientista social, professor e pesquisador da Unisinos José Rogério Lopes explica que toda realidade política é entendida como uma arte da negociação, construída em torno de uma agenda política. Essa negociação se faz através de prós e contras, ideologias, interesses e expectativas, buscando uma resolução. “Quando aparece uma foto, ela corta o contexto da negociação porque o impacto da imagem é plástico. Toda realidade figurativa evoca primeiro um pensamento plástico para depois ser digerida num contexto de enunciação”, explica.

betaredacao-politica-aylan2Questionado sobre a possibilidade de se ampliar a negociação da política imigratória a partir da comoção da imagem, Lopes afirma que depende da profundidade que ela atingirá nos dispositivos institucionais das democracias. “Dizer que a foto de um menino sírio morto vai fazer com que os governos, sobretudo os governos europeus, repensem a questão da imigração? Não, não vai. A dimensão ali, provavelmente, vai ser colocada como acontece geralmente na política, por uma forma que ela tem de absorver estes tipos de situação, como um sacrifício expiatório. Há essa possibilidade e ela pode viver na ambivalência, de que não seja apenas resultado do descaso dos governos europeus com os imigrantes, mas pode ser o descaso da incapacidade de organização das próprias condições frente às quais a imigração acontece, precarizando essa dimensão da vida”, afirma.

Na opinião de quem está atrás das lentes, “a fotografia traz a realidade pra perto, toca, incomoda”, segundo a fotógrafa Bethina Baumgratz. De acordo com a profissional, “a fotografia é muito poderosa na comunicação. Tem o poder de mostrar a realidade nua e crua. Essa imagem do menino sírio chocou o mundo inteiro especialmente porque fez com que conseguíssemos imaginar que fosse um de nossos entes queridos”, complementa.

betaredacao-politica-aylan3Outro fotógrafo, Adriano Rosa da Rocha, acredita que a mídia deveria utilizar a foto como uma forma de alerta da gravidade da situação. “Tem muita gente morrendo, mas muitos não acreditam. É uma foto forte. Muito triste, mas que precisa ser mostrada, não de forma apelativa, apesar de isso ser bem difícil. É um mal necessário com relação ao papel dela. Se não fosse a foto, esse assunto continuaria a passar batido por muita gente”, afirma.

A história de Aylan: a sua família era de Kobane, uma cidade que ganhou notoriedade por ter sido palco de batalhas entre extremistas muçulmanos e as forças curdas. O pai dele, Abdullah, havia fugido com a mulher, Rehan, e o irmão de Aylan, Galip, de cinco anos. Abdullah foi o único sobrevivente da família, que seguia para uma ilha grega para, de lá, tentar chegar ao Canadá, onde vivem parentes.

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