Esporte

Um Gauchão improvável

Quem apostava numa disputa Grenal, surpreendeu-se com um time que, sozinho, acreditou que seria possível sagrar-se campeão e com um desempenho acima da média das equipes do interior.

No dia 29 de janeiro, iniciou mais um Campeonato Gaúcho de Futebol da primeira divisão. Com um calendário enxuto, 12 equipes jogaram entre si em turno único, as oito melhores classificaram-se para o mata-mata, em jogos de quartas de finais, semifinais, até a grande final. O Internacional, apesar de estar em remontagem do elenco, após o rebaixamento da Série A do Campeonato Brasileiro, sonhava com o heptacampeonato. Já o maior rival, Grêmio, atual campeão da Copa do Brasil, buscava a quebra da hegemonia colorada e a conquista do estadual, após sete anos na fila. Tudo levava a crer que o encerramento do Gauchão 2017 seria composto por dois Grenais eletrizantes, só que apareceram pequenas pedras no caminho e uma delas derrubou os dois gigantes do futebol gaúcho e brasileiro.

 

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O Novo Hamburgo, time do Vale dos Sinos, com uma folha salarial de R$ 200 mil (cerca de 3% da folha da Dupla), sagrou-se Campeão Gaúcho, disputando seis confrontos com o grandes e não perdendo nenhum (1 vitória e 2 empates com o Internacional, 3 empates com o Grêmio). Eliminou o Grêmio nos pênaltis, nas semifinais, e consagrou-se campeão em cima do Internacional, também na disputa de penalidades, no Estádio Centenário, em Caxias do Sul, no dia 7 de maio. Um sonho acreditado por jogadores e comissão técnica do anilado. Quem apostava numa disputa Grenal, surpreendeu-se com um time que, sozinho, acreditou que seria possível sagrar-se campeão e com um desempenho acima da média das equipes do interior.

Não foi apenas isso, foram seis vitórias consecutivas na abertura da competição, aproveitamento que garantiu a liderança de ponta a ponta do campeonato, com apenas duas derrotas em 17 jogos. O goleiro Matheus Cavichioli  foi eleito o melhor jogador, assim como Beto Campos, foi eleito o melhor técnico. Capitaneados pelo Nóia, Caxias e Cruzeiro também destacaram-se com campanhas superiores à Dupla na fase classificatória.

 

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E.C. Novo Hamburgo – Campeão Gaúcho 2017 (foto:facebook/ECNH)

 

A equipe grená, treinada por Luís Carlos Winck, encerrou a fase classificatória na 3ª colocação, vencendo o Grêmio no Centenário e empatando com o Inter no Beira-Rio. Bateu o arquirrival Juventude, nas quartas de final, e só foi eliminada nas semifinais para o Internacional, nos pênaltis, em uma tarde iluminada do terceiro goleiro do Inter. O jovem Keiller, defendeu inclusive uma cobrança no tempo normal, no Centenário, evitando a classificação do time da Serra. O Caxias consagrou-se o Campeão do Interior.

Por muito pouco não houve uma final entre dois times do interior, algo inusitado no contexto do futebol gaúcho. A última vez que uma final foi disputada sem a presença de Grêmio ou Inter, ou os dois, foi em 1954, onde o Renner, de Porto Alegre, conquistou o título em cima do Brasil de Pelotas. Para que se tenha uma ideia da grandiosidade do fato, se tivesse ocorrido, a última vez que duas equipes do interior enfrentaram-se em uma final do estadual, foi em 1939, com a vitória do Rio-Grandense, de Rio Grande, em cima do Grêmio Santanense. Uma outra época, onde o existia um equilíbrio entre as equipes do interior e da capital.

 

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SER Caxias – Campeão do Interior (foto:Twitter/SERCaxias)

 

O Cruzeiro, antes de Porto Alegre e agora de Cachoeirinha, mostrou, ao longo da fase classificatória, um futebol vistoso, com jogadores técnicos, conquistando a 2ª melhor campanha. Não resistiu nas quartas de finais ao Internacional. O colorado, mais consistente em relação ao início do Gauchão, superou o adversário em dois confrontos, embora tivesse sofrido uma derrota vexatória, em Bento Gonçalves, na última rodada da fase de classificação. Os laterais do Cruzeiro, John Lennon e Sander, foram eleitos os melhores em suas posições na Seleção do Campeonato. Sander ainda foi eleito a Revelação do Gauchão 2017. O treinador Ben Hur Pereira, seguiu para o atual Campeão Gaúcho, no lugar de Beto Campos, para a disputa do Campeonato Brasileiro da Série D.

Diante desse cenário de destaque, as equipes cederam jogadores para equipes das Séries A e B do Brasileiro. Aqui no Estado, Brasil de Pelotas e Juventude reforçaram seus elencos com jogadores dessas equipes para a disputa do Brasileirão da Segunda Divisão. Outros atletas seguiram para equipes de outros estados, como o meia Jardel que trocou o Anilado pelo Londrina e o volante Elyeser que deixou o Caxias para atuar no Goiás. Matheus Cavichioli foi pretendido pelo Grêmio, mas já estava acertado com o Juventude; Elyeser, fechado com o Goiás, recebeu sondagem do Inter. O polêmico Wagner, destaque do Caxias, seguiu para o Xavante, enquanto o experiente Preto, meia destaque da competição, optou em seguir no Nóia para a disputa da Série D do Nacional.

Entre os fatores que aproximaram as equipes do interior dos grandes do RS, existem muitas possibilidades. De evolução técnico/tática e tecnológica do futebol do interior à involução ou soberba de Grêmio e Inter. Outra questão é a redução de participantes, em razão do calendário do futebol ser benéfica ou prejudicial às equipes do Interior. Muitos clubes, como o Veranópolis, disputam somente o estadual e depois fecham as portas, enquanto outros, como o Ypiranga de Erechim, apesar de disputar a Série C do Brasileiro, terá que disputar a divisão de acesso do Gauchão, com a queda na divisão principal, em 2017.

O repórter da Rádio GRENAL, Diogo Rossi, considera que não houve uma evolução do futebol do interior e sim competência de alguns clubes na formação dos times. “Essas equipes possuíam características próprias. O Novo Hamburgo era muito organizado, o Caxias tinha uma grande intensidade de jogo e o Cruzeiro contava com boas individualidades”, afirma. O jornalista também destaca a preparação física dessas equipes, em parâmetro à Grêmio e Inter, como um fator de emparelhamento, principalmente pelo futebol atual ter a força como uma questão fundamental.

Rossi reconhece uma certa soberba do Grêmio como possível responsável pela eliminação tricolor, comportamento percebido após a eliminação no Estádio do Vale, enquanto do lado colorado, houveram erros pontuais de Antônio Carlos Zago, como a escalação de Ernando na final, jogador que não atuava há dez jogos. “Ganhou quem errou menos”, considera. Para ele, o grande desafio para o interior do Estado, sendo que existem apenas 17 Campeões Gaúchos, é buscar uma regularidade que ainda não existe. “O Novo Hamburgo conquistou um título após 17 anos de hegemonia da Dupla, principalmente do Internacional”, lembra. O último clube do interior Campeão Gaúcho foi o Caxias de Tite, no ano 2000.

Matheus Beck, repórter esportivo do Jornal VS, acredita que não há como destacar um evolução dos times do interior sem avaliar uma espécie de “involução” da Dupla. “O Inter caiu e passa por um atípico momento de reestruturação. O Grêmio, reencontrou-se com as glórias, após a conquista da Copa do Brasil. Se de um lado, é recomposição, do outro, uma espécie de ressaca. Isso interferiu num início mais positivo para o interior, em relação às referências da Capital”.

O jornalista não deixa de destacar o trabalho realizado por equipes como Nóia, Caxias e Cruzeiro, apontando o Leicester da Inglaterra como uma referência global. “Recentemente, venceram o Campeonato Inglês. Surpreendeu pessoas pelo mundo inteiro, certamente não fez o mesmo com a gerência do time da Inglaterra. Cada jogador contratado foi acompanhado e escolhido de maneira pontual. Creio que o interior tem seguido esses passos. Em vez de ‘entupir’ o grupo com atletas de todos os cantos, uma pesquisa prévia, análise de dados e grande poderio de networking tem interferido na construção dos elencos”, ressalta.

Beck considera que a conquista do Novo Hamburgo trouxe projeção nacional e valorizou a instituição, dando a possibilidade de outras equipes sonharem com o feito, porém, acredita que as dificuldades para os clubes do interior serão as mesmas para o próximo ano. “Sinceramente não vejo indícios de que possam afirmar que os próximos anos serão novamente assim, mas, com certeza, é alentador saber que um trabalho bem realizado pode dar resultado”, projeta.

 

 

O analista de desempenho do Novo Hamburgo, Guilherme Redecker, atribui a evolução tática e técnica da equipe à disponibilização de uma comissão técnica multidisciplinar com profissionais de diversos setores. “Isso possibilitou ao Beto Campos voltar-se apenas as questões de campo. Em relação a análise de desempenho, acredito que as informações que passamos a respeito de nossos adversários auxiliaram na preparação estratégica de cada partida”, afirma.

Redecker considera que a implantação de análise de desempenho, realizada pela a maioria dos clubes esse ano, ainda que incipiente, minimizou erros de contratação  e auxiliou na preparação para as partidas, através das análises da própria equipe e dos adversários. Para o analista, os clubes devem continuar abertos às novas tendências que têm surgido no futebol, como o uso da tecnologia, por exemplo. “Sabemos que a dupla Grenal sempre será favorita, por todo o seu poderio econômico. Entretanto, o campeonato mostrou que existem muitos profissionais capacitados que podem sim fazer o futebol do interior sonhar”, reitera.

Nas últimas duas décadas, além do Novo Hamburgo, a dupla Caju conquistou o campeonato. O 15 de Novembro de Campo Bom, o Canoas (Ulbra) e o Lajeadense chegaram perto da conquista.

 

Destaques do Interior.fw

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