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Transtorno de Ansiedade Generalizada: das situações diárias à imagem do futuro catastrófico

Condição causa sofrimento exacerbado e atrapalha desempenho em atividades simples do dia a dia

Ensaio o corpo enquanto refúgio, do fotógrafo Gabriel Santana

Ensaio “O corpo enquanto refúgio”, do fotógrafo Gabriel Santana

 

Quem aqui nunca sentiu um “friozinho” na barriga diante de um acontecimento importante da vida? Momentos decisivos geralmente causam angústia, medo e insegurança do que está por vir. Entretanto, a situação fica preocupante quando simples atos como sair da cama, ir à aula ou falar em público causam sensações desconfortantes e crises extremas de ansiedade. O corpo reage exageradamente em um sentimento de alerta constante. Mesmo que em volta tudo seja calmaria, dentro é uma inquietação sem fim.

De forma silenciosa, mas rápida e impiedosa, a ansiedade acomete cerca de 33% da população mundial, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Como patologia do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), ela também varia para outros diagnósticos, e entre eles está o de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Segundo o DSM V (2014), esse tipo de condição mental se caracteriza por ansiedade e preocupação excessivas diante de simples eventos ou atividades.

 

Sintomas do Transtorno de Ansiedade Generalizada. (Foto: Dominique Nunes)

Sintomas do Transtorno de Ansiedade Generalizada. Arte: Dominique Nunes

 

Conforme Anelise Coutinho Tavares, psicóloga clínica e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), nesses casos, a intensidade, duração ou frequência da ansiedade e da preocupação são desproporcionais à realidade do que é antecipado pelo indivíduo. “A pessoa tem dificuldade de controlar a preocupação e de evitar que pensamentos preocupantes interfiram na sua atenção, ficando constantemente apreensiva. É uma mente muito agitada e que não consegue relaxar em função da preocupação”, explica.

A especialista aponta que a capacidade de se preocupar e consequentemente planejar o futuro e tentar prevenir desastres possibilitou a nossos ancestrais pensar à frente, armazenar, antecipar o perigo, e isso acabou por originar esse instinto de hipervigilância, exacerbado em  algumas pessoas. “No contexto do mundo moderno, não temos mais esse tipo de perigo e preocupação, mas o fato é que vivenciamos um mundo conturbado: insegurança econômica, instabilidade no emprego, relações voláteis e cada vez menos duradouras, violência, pressão social”, enumera.

Anelise afirma que é importante destacar que a preocupação é voltada para questões que podem dar errado nos mais diversos contextos. A psicóloga indica que tal ansiedade é crônica, deixa o indivíduo hipervigilante, o que atrapalha a sua vida, impedindo-o de aproveitar os bons momentos e afetando as suas atividades.

 

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Ensaio “O corpo enquanto refúgio”, do fotógrafo Gabriel Santana

 

De acordo com Bernardo Dewes, psicólogo clínico e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), o que mais gera ansiedade nas pessoas pode variar de contextos e realidades, porém, em muitos casos sensações de insegurança e problemas financeiros são os principais fatores que maximizam a preocupação. Para ele, a ativação da ansiedade busca nos auxiliar para evitarmos sofrimento no futuro, mas quando nos sentimos com medo, inseguros e impotentes, essa mesma emoção acaba saindo do nosso controle, e ao invés de dos ajudar ela nos traz prejuízos. “Ainda, questões externas e conflitos socioeconômicos favorecem para que o corpo e a mente não consigam “desligar”, mantendo então o estado de alerta, ansiedade e preocupação”, destaca o especialista.

O psicólogo também acredita que quanto mais a sociedade se mantém em crise, mais as pessoas se preocupam, gerando um ciclo de alimentação da ansiedade, passando de um padrão natural para um funcionamento irregular. Nesse caso, ele explica que a ansiedade passa a se tornar generalizada, tudo é motivo de alarme, alerta e vigilância. “Além deste fator social, questões genéticas também são apontadas como fatores que geram predisposição para que a pessoa tenha um nível de maior intensidade em sua ansiedade padrão. Famílias muito preocupadas, obsessivas, e pais superprotetores contribuem para o desenvolvimento de uma criança, adolescente ou adulto com maior índice de preocupação e sintomas de angústia, medos e ansiedade global”, demonstra.

Além disso, de acordo com o DSM V (2014), o TAG é diagnosticado com maior frequência no sexo feminino (cerca de 55% a 60%) do que no masculino (cerca de 40% a 45%), em contextos clínicos. Fatores temperamentais como inibição comportamental, afetividade negativa e evitação de danos são associadas ao TAG. Condições ambientais como separação dos pais quando jovem também estão relacionados ao desenvolvimento de TAG, pois isso pode criar uma ideia de mundo instável e inseguro.

 

Ensaio “O corpo enquanto refúgio”, do fotógrafo Gabriel Santana

 

Aparentemente, Luiza Meira, 21 anos, é apenas mais uma estudante com escolhas a fazer pela vida à frente. Internamente, seus sintomas começaram cedo, com uma grande insegurança pra tomar decisões. Após passar por dois relacionamentos abusivos, estava com pensamentos e atitudes suicidas. Logo veio o diagnóstico de depressão. Depois de algum tempo de tratamento, durante a época de prestar o vestibular, percebeu que não sentia apenas uma simples ansiedade.

Sua medicação, já focada em tratar depressão com ansiedade associada, foi trocada para focar apenas na ansiedade. “Eu sou diagnosticada atualmente com depressão, Transtorno de Ansiedade Generalizada e Síndrome do Pânico. O transtorno interfere muito na minha vida porque eu deixei de fazer muitas coisas por causa da agorafobia (medo de ambientes abertos) e as crises de pânico. É difícil de ir pra faculdade e acompanhar as aulas, conseguir trabalhar. Às vezes é difícil até mesmo levantar da cama e responder mensagens no celular”, conta. Luiza acredita que o possível gatilho de sua condição iniciou com o bullying que sofria na escola, associado à falta de assistência do colégio, junto de dois relacionamentos abusivos seguidos, em época de vestibular.

Atualmente, a jovem frequenta sessões de psicoterapia e faz uso de medicação para tratar os sintomas de TAG. Desse tratamento, Luiza conclui que é importante aceitar a si mesmo, respeitar seus limites e conversar com pessoas que passem pelas mesmas situações. “Faço exercícios musculares e de respiração. Mas logo tomo uma medicação pra momentos de crise também. Tenho muitas amigas neuroatípicas (que têm algum transtorno psicológico). Muita gente me adiciona porque eu falo sobre isso abertamente também, então às vezes, quando tenho dúvidas, eu uso meu perfil nas redes sociais e sempre consigo uma resposta. Poder falar sobre mim, ao mesmo tempo que ajudo outra pessoa, é muito bom. Eu gostaria que minha condição deixasse de ser banalizada ou glamourizada, que deixasse de ser tabu falar sobre isso”, ressalta.

 

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Ensaio “O corpo enquanto refúgio”, do fotógrafo Gabriel Santana

 

Há alguns anos, Sabrina Hoier, 28 anos, atualmente desempregada, convive diariamente com o Transtorno de Ansiedade Generalizada. Sentiu agitação, fadiga, insônia e irritabilidade por todos os dias durante seis meses, até procurar auxílio de um psicólogo e de um psiquiatra. Para ela, o maior problema da ansiedade não são os sintomas em si, mas sim a falta de compreensão de quem está ao seu redor. “A convivência às vezes se torna difícil por muita gente achar que é coisa da nossa cabeça, e acabam dizendo pra pessoa parar com a paranoia, e isso piora a situação, porque um ansioso acredita que aquilo é um início de discussão ou algo parecido”, conta.

Além do TAG, Sabrina também apresenta hipertireoidismo, uma produção excessiva de hormônios da glândula tireoide que causa emagrecimento e taquicardia. Ela acredita que os primeiros sinais do transtorno surgiram na infância, devido a problemas familiares: uma irmã com diagnóstico de diabetes aos dois anos e pais que brigavam constantemente.

Atualmente, a jovem frequenta sessões de terapia com psiquiatra e faz uso de medicação. Sabrina comenta que não há motivo para sentir vergonha. De acordo com ela, o problema começa a melhorar quando a condição é aceita por si mesmo, juntamente com familiares e amigos. “É mais fácil lidar com a ansiedade quando temos apoio. Apenas gostaria que as pessoas buscassem conhecer e ajudar quem vive com esses transtornos. Não é falta do que fazer, não é paranoia da gente, transtornos são coisas sérias”, pontua.

Um de seus maiores desejos é que a sociedade não a cobre tanto, pois acredita que ela já se cobra demais. Sabrina gostaria de mais aceitação. “Ninguém acorda de manhã e pensa ‘hoje quero ter dor de estômago’, da mesma forma ninguém pensa ‘hoje quero que meu coração fique acelerado o dia inteiro e quero sentir uma agitação que incomoda tanto a ponto de eu ter que ficar em casa’”, exemplifica.

 

Como você pode auxiliar alguém com TAG

A psicóloga Anelise frisa que, primeiramente, como em toda psicopatologia, é importante compreender que o TAG se trata de um transtorno de ansiedade diagnosticado e é preciso ser tolerante e acolher a pessoa. Outro aspecto relevante apontado pela especialista é o de auxiliar o indivíduo a procurar a ajuda de um profissional qualificado para tratar o transtorno. “Precisamos ser empáticos com as pessoas ansiosas ao invés de julgá-las ou condená-las”, comenta.

Além de saber como auxiliar alguém que apresenta TAG, é essencial saber se relacionar com ele também. Para a psicóloga, é importante não estimular e reforçar os pensamentos catastróficos que a pessoa faz acerca das situações e que geram sua preocupação. Por outro lado, Anelise aconselha a evitar fazer a pessoa não pensar mais nos problemas que a preocupam, pois suprimir o pensamento acaba piorando. “Igualmente, falar ‘pense positivo’, ‘sua vida é ótima’, ‘não pense tanto nisso’ pode chatear a pessoa, pois implica que ela tem controle de sua ansiedade e preocupação e está escolhendo ser ansiosa e preocupada”, destaca a especialista.

Por outro lado, o psicólogo Bernardo acredita que deve ser evitado comentar sobre problemas graves, tragédias e questões que possam lhe trazer mais ansiedade e angústia. “Mesmo sem motivos concretos o paciente com TAG já cria ‘N’ hipóteses futuras sobre as consequências que podem acontecer, aumentando frequentemente seu nível de preocupação e ansiedade. Não ‘colocar lenha na fogueira’ é a melhor ajuda, mesmo que isso não evite que ele se preocupe, pois ao menos não potencializa o sofrimento já existente”, enfatiza.

 

Falar é a melhor solução

Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) promove a campanha Setembro Amarelo com o objetivo da conscientização sobre a prevenção do suicídio e valorização da vida, bem como de alertar a população a respeito da realidade da situação no Brasil e no mundo e disseminar as formas de evitá-lo. Dentro do mês, a data principal é o 10 de setembro, Dia Mundial de Combate ao Suicídio. Segundo a ABP, é um problema de saúde pública que vive mergulhado em um tabu e tem aumentado suas vítimas. Dados de 2014 da associação revelam que a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio, e apenas a cada três segundos uma pessoa atenta contra a própria vida.

De acordo com informações da campanha do Setembro Amarelo, são 32 brasileiros mortos por dia, taxa superior às vítimas da Aids e da maioria dos tipos de câncer. A ABP aponta que o Brasil é o oitavo país em número absoluto de suicídios. Por outro lado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstra que 9 em cada 10 casos de suicídio poderiam ser prevenidos.

 

(Foto: Divulgação ABP)

Arte: ABP

 

Por isso, além de necessária a atenção de quem está em volta, é importante que o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) também seja tratado antes que o quadro se agrave e outras patologias surjam. Nesse sentido, Bernardo explica que tratamento tem como prioridade a conscientização do paciente com o seu problema. “Ele precisa dar-se conta que a ansiedade faz parte do seu corpo, que ela não é algo ruim, mas que deve ser controlada para que não lhe faça mal”, fala.

Assim, o especialista afirma que os medos e pensamentos catastróficos devem ser trabalhados para que o paciente possa minimizar, baseado em evidências, o quanto acredita neles. Ele indica exercícios de respiração, relaxamento e atividade física como acompanhamento da recuperação. “Se necessário, o encaminhamento para o psiquiatra deve ser feito, visando ao uso de medicação controlada para que os sintomas e o sofrimento do paciente possam diminuir”, inclui.

Anelise ainda cita a Terapia Cognitivo Comportamental, que utiliza técnicas para promover uma reestruturação cognitiva e possibilitar uma maior tolerância à frustração, à incerteza e ao não ter controle. “O que causa ansiedade não é a situação em si, mas a interpretação que fazemos sobre ela. No tratamento do TAG, visamos modificar e flexibilizar a perspectiva do paciente frente às situações que lhe causam preocupação, observar os fatos, não tentar controlar, aprender a ser razoável e não interpretar a situação considerando apenas a emoção, mas sim fatos concretos”, exemplifica.

Segundo a especialista, ao entender que a ansiedade fez parte da nossa evolução, não precisamos vê-la como uma deficiência ou algo que precisa ser suprimido. “Procuramos normalizar as consequências e favorecer a compreensão de que o medo não é inerente à realidade que você está vivendo e promovemos o enfrentamento desses medos em um contexto seguro”, explica.

 

SERVIÇO

Centro de Valorização da Vida (CVV) : Conforme explica em seu site, o CVV – Centro de Valorização da Vida “realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias”.

Contatos: Ligue 141, independentemente da sua localidade.

Postos de atendimento: O CVV possui diversos postos de atendimento espalhados pelo Brasil. Consulte aqui o endereço mais próximo de você.

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