Política

“Tivemos Gabeira e Bolsonaro em uma mesma manifestação”, diz sociólogo

Sociólogo Marcelo Kunrath diz que a bipolarização é uma ilusão, pois grupos de manifestantes têm suas divisões e boa parte da população é apenas espectadora

A Beta Redação ouviu o sociólogo e pesquisador da UFRGS Marcelo Kunrath para analisar as manifestações brasileiras de 2016. Segundo ele, trata-se de um movimento que começou bem antes. Em 2005, houve um protesto contra o mensalão em São Paulo, organizado via Orkut, que não contou com grande repercussão na mídia. Ali estava uma mobilização muito similar às de hoje. Para Marcelo, mesmo que a raiz das manifestações esteja lá atrás, muito do que vemos agora nas ruas tem forte influência das jornadas de junho de 2013. Lá, os protestos agora segregados na bipolarização estavam na rua partilhando o mesmo espaço. Mesmo que com disputas internas, desavenças e discordâncias, aqueles grupos formavam uma massa. Na época, o clima era o de não saber do que se tratava aquela grande quantidade de pessoas nas ruas.

O pesquisador afirma que hoje as manifestações se unem em torno de um inimigo em comum. Na direita, o inimigo é o PT, a corrupção, Dilma ou Lula. Já a esquerda é mais complicada porque engloba grupos que não se sentem representados pelo governo ou por instituições, grupos que apoiam o governo e movimentos que querem enfrentar as forças de direita. O que acontecerá quando esse inimigo for derrotado? Marcelo afirma que o prognóstico é na base do “achismo” agora que a luta se tornou um “vale-tudo”, mas que com tantos grupos diferentes formadores de grandes protestos fica difícil dizer quem tomará a frente como representante desses movimentos. “Tivemos Gabeira e Bolsonaro em uma mesma manifestação! O que isso significa? Eu não sei. É um saco de gatos”, afirma o estudioso, referindo-se a Fernando Gabeira, ícone da luta armada contra a ditadura, e ao deputado federal Jair Bolsonaro (PP), ex-militar que galvaniza a extrema direita.

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Outro exemplo da imprevisibilidade dos atos foi o ocorrido com Aécio Neves, vaiado em uma manifestação anti-governista. O caso é comparado pelo pesquisador ao que aconteceu com Carlos Lacerda, figura que foi contra o governo e que depois sofreu duras sanções. Para o sociólogo, é uma ilusão que exista alguém articulando os processos de mobilização: o que existe, na verdade, são candidatos à liderança, e quem ganha o jogo é quem conseguir convencer a população de que está lutando pelo país, e não por si.

Outra questão é que grande parte da população não está mobilizada, ou seja, a bipolarização é uma ilusão, já que os grandes grupos têm suas subdivisões e boa parte da população é apenas espectadora desse processo. Marcelo atenta para o fato de que, salvo pelas organizações religiosas, como as igrejas pentecostais, raramente as camadas populares são representadas nos atos. Mesmo com os grandes protestos de mais de 30 mil pessoas, é bom lembrar que vivemos em um país de 200 milhões de habitantes.

Uma coisa é certa: vivemos um momento histórico, único nos últimos 30 ou 40 anos da trajetória política nacional.

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