Economia

Títulos de capitalização se popularizam, mas retorno financeiro é duvidoso

Mesmo com o crescimento constante, os títulos não são considerados um investimento pelos economistas

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Você sai de casa distraído e é abordado por um vendedor. Cena corriqueira em qualquer grande metrópole. A oferta parece ser tentadora. Um valor baixo de “investimento” mensal, regras que parecem simples e, o mais importante, a chance de mudar de vida com um dos prêmios oferecidos por uma cartela de papel em forma de bilhete premiado. Essa é a premissa dos títulos de capitalização, que se popularizaram a partir da segunda metade da década de 90 no Brasil. O mercado apresentou resultados expressivos nos últimos anos, com um crescimento de 20% ao ano, segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep).

As empresas de capitalização arrecadaram RS 10,41 milhões até maio deste ano, representando metade do faturamento de 2014. Os números demonstram que o segmento continua em alta, mesmo com a retração na economia nacional. Os motivos, segundo a Susep, são a alta densidade de alcance dos títulos e o custo baixo mensal, o que possibilita que famílias de baixa renda possam comprar e investir no produto.

Existem três tipos de títulos de capitalização: tradicional, que é ofertado pelos bancos e prevê contribuição mensal e carência para resgate; incentivo, vendido por empresas varejistas em promoções e para dar prêmios; e popular, oferecido por agências dos Correios, lotéricas e varejistas, sempre lembrado por ser o mais comercializado. Cabe salientar que os títulos de capitalização não rendem a valorização do capital investido determinado por uma taxa de rentabilidade. Neste caso, a maioria dos planos de capitalização não costuma devolver o valor integral da contribuição mensal, destinando um percentual para os sorteios e retendo outro como taxa de administração.

O diretor executivo da Federação Nacional de Capitalização (Fenacap), José Ismar Torres, frisa que os títulos de capitalização têm avançado a cada dia no mercado de investimento. “É um mercado em amplo crescimento, já é o segundo tipo de aplicação mais procurada no Brasil. De 2010 pra cá, tivemos um acréscimo de R$ 10 milhões na evolução da receita dos títulos”, diz o diretor, que minimiza os riscos da compra do título. “Existem pequenas irregularidades no mercado, como propagandas que se demonstram incompletas e valorizam somente o sorteio. A população tem mecanismos para se proteger destes casos de desinformação, como o Código de Defesa do Consumidor e órgãos que regulamentam a venda, como a Susep”, garante Torres.

Risco zero, retorno zero

Para o economista Silvio Barbosa dos Reis, os títulos de capitalização não podem ser considerados um investimento de curto prazo. “É importante que as pessoas entendam que o título de capitalização é um jogo, muito aquém de ser considerado um investimento. É necessário que exista uma disciplina rígida de pagamentos quando você coloca seu dinheiro em um título, já que o consumidor só consegue resgatar parte das parcelas pagas em um período predeterminado”, avalia o economista, referenciando que os sorteios promovidos pelas empresas de capitalização atraem cada vez mais pessoas. “Claro que os sorteios garantem atrativos para os compradores, mas é preciso ler as letras miúdas para entender como funciona”, diz Barbosa.

Seguindo a lógica de “risco e retorno”, o economista lembra que os títulos de capitalização são mais procurados por consumidores da classe C, D e E. “A publicidade que existe por trás desses títulos é muito forte e acaba atraindo a população de baixa renda com a promessa de prêmios fáceis e parcelas pequenas. É preciso lembrar que não existe retorno sem risco, premissa básica de qualquer investimento econômico”, analisa o profissional, indicando qual é o título de capitalização ideal. “Eu não costumo sugerir a compra de títulos, porque o retorno é pequeno e a chance de ganhar prêmios é quase nula. Entretanto, o ideal é apostar em títulos de bancos tradicionais, ao invés de empresas com destaque na televisão, pois a segurança do resgate de metade do valor pago é praticamente garantida”, finaliza Reis.

Escreveu e não leu, perdeu

Mara da Silva Dutra, 64 anos, é uma “copista”, como ela mesma se denomina. Aposentada, vive das contribuições do Estado, não consegue ler mais de uma frase e escreve com extrema dificuldade, copiando palavras soltas de um papel que traz sempre consigo. “Sempre levo um papelzinho com meus dados. Tem meu nome, meu CPF, meu endereço. Aí consigo copiar, mesmo sem saber ler”, diz Mara, desconfortável com a situação.

No início do ano, a moradora do bairro Cohab C, em Gravataí, comprou dez títulos de capitalização, com a ilusão de ganhar um dos prêmios sorteados – o sonho de consumo da aposentada seria uma casa no valor de R$ 100 mil  ofertada pelo título -, além de reaver parte do valor investido. “Nunca tinha comprado, mas sempre ouvi falar que poderia pegar o dinheiro de volta depois de um tempo. No final, descobri que não tinha nada de retorno, que era apenas o sorteio”, conta a aposentada, cabisbaixa. Outra compradora do mesmo título, Rosane Cerqueira, de 48 anos, nunca teve problemas. “Sempre comprei e confio que um dia vou ganhar. Uma vizinha minha foi contemplada com um carro novo, então faço minha fezinha toda a semana”, afirma a autônoma, desconhecendo a regra do título.

A explicação para o ocorrido é simples: o título de capitalização que foi comprado por Mara, um dos mais vendidos do Rio Grande do Sul, reverte todo o valor investido na compra do título para uma empresa que, por sua vez, reverte o valor para uma entidade beneficente. A aposentada não leu os termos de venda e acabou, segundo ela, “comprando gato por lebre e ficando com um prejuízo enorme”. O caso é bem mais comum do que parece, conforme relata o vendedor de títulos de capitalização Rodrigo Martins. “Muita gente compra sem saber como funciona, só pelo prêmio. Aí fazem um ou dois pontos no sorteio e vêm aqui reclamar. Já briguei com muitos clientes que reclamaram sobre isso. Tem que ler certinho os termos e como funciona”, diz o vendedor, que frisa que o contrário também acontece. “Também aparece gente, quase um ano depois, querendo reaver o dinheiro. Aí a gente só oferece outro título”, confessa, com malícia entre os lábios.

 

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